José Armando Vannucci
Colunista VIVA
05/10/2026 | 09h13
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Jornalista e escritor especializado em televisão. Passou por Jovem Pan, TV Gazeta, TV Globo e Band, além de integrar o júri do Troféu Imprensa, no SBT. Comanda o Canal do Vannucci no YouTube
Público da TV cansou do mais do mesmo; o desafio para renovar a grade
Globo e SBT vão apresentar novidades ao mercado, mas o principal desafio da TV aberta está muito além de uma nova grade
Globo/Reprodução
Globo e SBT se preparam para apresentar suas novidades de programação para 2027 em eventos em São Paulo, buscando atrair o mercado publicitário e reverter a perda de audiência da televisão aberta.
A televisão enfrenta um desafio significativo, pois o público mudou e agora compete com diversas plataformas digitais, além de estar mais conectado às redes sociais. A atual programação, muitas vezes previsível e repetitiva, não consegue mais capturar a atenção do telespectador, que busca conteúdos que provoquem e surpreendam.
O sucesso futuro dependerá da capacidade de inovar e oferecer histórias que façam os telespectadores quererem permanecer na frente da TV, em um cenário onde a concorrência com o celular é intensa.
São Paulo - Globo e SBT se preparam para apresentar ao mercado publicitário suas novidades para 2027. A Globo realiza seu Upfront no dia 14 de outubro e o SBT promove o seu evento no dia 22, ambos em São Paulo, onde estão concentradas as principais agências e anunciantes do País.
É uma estratégia comercial absolutamente compreensível. Quanto antes uma emissora mostra seus projetos, mais tempo o mercado tem para decidir onde colocar dinheiro, quais programas terão patrocínio e como as marcas estarão presentes na programação.
Mas, olhando para esses dois eventos por outro ângulo, existe uma questão muito mais importante do que a venda de cotas e projetos comerciais. A televisão aberta precisa voltar a conquistar o telespectador.
E isso não se resolve apenas anunciando uma nova atração, contratando uma estrela ou colocando um programa antigo novamente no ar. O público mudou. E mudou muito.
Hoje, quem está diante da televisão também está com o celular na mão conectado nas redes sociais e, assim, com a atenção dividida. Além disso, a concorrência da televisão deixou de ser apenas a outra emissora. Agora é com tudo aquilo que disputa o tempo e a atenção do telespectador."
A televisão ficou com medo de arriscar
Tenho a impressão de que a televisão brasileira ficou mais tímida. Durante anos, a TV foi responsável por provocar o público. As novelas discutiam comportamento, relacionamento, preconceito, família, política, mudanças sociais e tantos outros assuntos que, em determinados momentos, pareciam difíceis demais para serem colocados no horário nobre. Mas, estavam lá.
Isso acontecia não porque uma pesquisa havia determinado que aquele era o caminho mais seguro, mas porque existia gente pensando televisão. Existia autor disposto a provocar. Existia diretor disposto a experimentar. Existia emissora disposta a correr algum risco.
Hoje, muitas vezes, parece que a pergunta principal é outra: “Isso já funcionou?” Se funcionou, repete. Se deu audiência, mantém. Se vendeu, não mexe. É assim que surgem grades previsíveis e tudo fica muito chato com cara de programa velho.
A televisão precisa de outras ideias. Precisa de formatos que façam o telespectador pensar: “Isso eu quero ver.” Porque, quando tudo parece igual, o público simplesmente escolhe outra coisa."
Quem Ama Cuida mostra o caminho
A atual dramaturgia também dá uma pista importante. Quem Ama Cuida tem conseguido repercutir porque não parece preocupada apenas em entregar uma história linear, previsível e confortável.
Novela precisa ter altos e baixos. Precisa fazer o público torcer. Precisa criar uma vilã forte para que a mocinha tenha força para reagir. Precisa provocar indignação, emoção, surpresa. Ou seja, fazer o telespectador chegar ao fim de um capítulo pensando no próximo.
É isso que Walcyr Carrasco e Claudia Souto vêm conseguindo fazer em diferentes momentos da trama. A novela mostra que ainda existe espaço para temas delicados, conflitos e personagens que não cabem necessariamente naquela fórmula mais segura que muitas vezes aparece nas pesquisas. O telespectador quer ser respeitado, não protegido da história.
O domingo na Globo é o retrato do problema
E talvez nenhum dia da semana mostre tão claramente o desafio da televisão quanto o domingo. Na Globo, Eliana, Domingão com Huck e Fantástico são marcas fortes. Mas o desempenho abaixo do que a emissora gostaria em diferentes momentos revela que existe um problema de conteúdo. Não necessariamente de apresentadores.
O telespectador olha para a TV aberta e encontra games, competições, quadros, auditórios e formatos que, muitas vezes, parecem trocar apenas de cenário e apresentador. E aí eu pergunto: por que alguém vai passar uma tarde inteira diante da televisão sentado no sofá vendo algo que parece igual ao que viu no ano passado?
Se existe uma série nova esperando na plataforma, um filme, um reality ou qualquer outro conteúdo capaz de surpreender, a escolha fica muito mais difícil para a TV aberta. A Globo sabe que precisa mexer no domingo.
SBT também terá que surpreender
O SBT chega ao seu Upfront alguns dias depois e deverá apresentar uma programação com entretenimento, jornalismo, novelas e seus principais talentos. A emissora ainda tem ajustes para fazer em sua grade de 2027, mas o discurso deverá caminhar na mesma direção: mostrar ao mercado que existe uma estratégia para disputar a atenção do público.
E existe uma expectativa natural em torno de possíveis novidades, inclusive de negociações que ainda podem estar em andamento. Mas nenhuma contratação, por mais importante que seja, resolve sozinha o problema da televisão. Porque não é simplesmente uma questão de quem está no palco. É o que está sendo entregue para quem está em casa.
O que Globo e SBT deveriam ouvir em 2027
No fim das contas, os dois Upfronts vão falar de grade, audiência, projetos, talentos, oportunidades comerciais e investimentos. Mas o grande recado vem de quem está do outro lado da tela. Nós, o público.
- Queremos televisão de qualidade
- Queremos ser surpreendidos e histórias que provoquem
- Queremos programas que tenham identidade, que nos façam rir, chorar, discutir e até discordar do que está sendo mostrado
- Não queremos necessariamente tudo novo
- Queremos algo que nos faça sentir que vale a pena ficar.
A televisão aberta sempre foi boa nisso. Ela já foi ousada. Já foi criativa. Já teve coragem de experimentar. E talvez esteja justamente aí o caminho para recuperar parte do terreno perdido. Porque, nessa disputa entre televisão aberta e digital, existe uma ironia. Todo mundo está disputando o mesmo público. E sabemos muito bem que podemos escolher.
Mas, no fim, quem vai decidir o sucesso dessa programação não estará sentado na plateia dos eventos em São Paulo. Estará no sofá, com o controle remoto na mão e o celular ao lado. E esse telespectador não quer mais simplesmente assistir. Ele quer ter um motivo para ficar.
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