Racismo e machismo: antigos clássicos da MPB devem sofrer cancelamento?
Ilustração com IA/Gemini
São Paulo – Você já se deu conta que músicas que fazem parte da nossa memória afetiva, como antigos sambas ou mesmo cantigas infantis, podem carregar letras altamente canceláveis para os dias hoje?
Temas como racismo, violência doméstica, misoginia e machismo deram o mote a muitos clássicos do cancioneiro brasileiro durante décadas, revelando a naturalização de atitudes, expressões e falas que atualmente são consideradas questionáveis ou até inaceitáveis. A lista é longa e não poupa nenhum gênero musical.
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Isso porque a arte, de uma maneira geral, funciona como um retrato, um espelho, uma crônica de uma época. Mas, diferentemente das antigas telenovelas, que, nas plataformas de streaming, são acompanhadas por avisos de aquilo é uma reprodução de costumes de uma outra época, as canções disponíveis no YouTube, Spotify, Deezer e similares não vêm com esse tipo de alerta. Um recurso que poderia parecer óbvio, fazer a contextualização, até porque essas pautas estão em plena discussão.
O debate que fica é: essas canções devem ser sumariamente canceladas/banidas; ou mantidas em repertórios, mas contextualizadas? Ou, ainda, autores e intérpretes devem usar o próprio filtro para tomar essa decisão? Para responder a essa polêmica, o VIVA entrevistou renomados artistas do meio musical, que estão no cerne desse debate, e especialistas no assunto.
Professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, o cantor, músico e compositor Luiz Tatit é contra esses cancelamentos.
Acho muito ruim, inclusive prejudicial para a cultura brasileira e, de uma forma geral, para o repertório da canção. Não vejo razão nenhuma para fazer isso”, defende Tatit.
As pautas acompanham a criação do momento, explica. “Todo esse movimento com relação a racismo, a feminismo, tem a ver com o espírito de hoje. Quem vai compor hoje tem isso na cabeça, mas aquelas canções, que caracterizaram tempos passados, por que que você vai mudar?”
É o caso de “Minha Nega na Janela”, de 1957, composta por Germano Mathias – importante nome do samba paulistano –, em parceria com Doca. A música ficou conhecida também na voz de Gilberto Gil, que a gravou no disco “Realce”, de 1979, e no LP duplo “Cidade do Salvador”, lançado em 1998.
Em 2024, uma professora chegou a pedir, nas suas redes, que Gil tirasse essa faixa dos streamings e do YouTube, mas ela continua nessas plataformas.
“Minha nega na janela/Diz que está tirando linha/Êta nega tu é feia/Que parece macaquinha/Olhei pra ela e disse/Vai já pra cozinha/Dei um murro nela/E joguei ela dentro da pia”, diz um trecho da música, que envolve temas sensíveis, como racismo, machismo e violência doméstica.
Na opinião de Tatit, em vez de proibir a canção, seria melhor promover uma leitura crítica que evidenciasse a grosseria da composição. "Essas canções antigas não influenciam a nossa vida de hoje. Pelo contrário: são retratos de uma época. Mas não é só isso. Às vezes, tem uma compatibilidade muito boa com a melodia que não se pode perder.”
Autor de sucessos como “Escrito nas Estrelas”, o letrista e produtor Carlos Rennó também é contra banimentos, mas com ressalvas. “Acho que deve ser relevado, considerando o contexto cultural da época. Desde que não seja algo de uma agressividade inaceitável em qualquer circunstância, em qualquer contexto, cultural, social, comportamental”, pondera.
No entanto, ele questiona o racismo apontado em “O Teu Cabelo Não Nega”, famosa marchinha excluída de repertórios de carnaval. Ela foi composta pelos Irmãos Valença em 1929, com o nome de “Mulata”, e depois adaptada por Lamartine Babo em 1931.
A polêmica começa logo na primeira estrofe: “O teu cabelo não nega, mulata/Porque és mulata na cor/Mas como a cor não pega mulata/Mulata, eu quero o teu amor”.
“Eu sempre entendi como: ‘essa história de cor para mim não pega, não cola; então, quero amar você da mesma forma; para mim, não interessa isso”, avalia Rennó. Olhando o tema como um todo, o letrista pondera:
Certas frases têm seu sentido alterado com o tempo, porque palavras são coisas vivas e coisas vivas se transformam.”
Violência de gênero
A cantora Verônica Ferriani, além de trabalho autoral, também exercita seu lado intérprete. Nesses seus processos de escolha de repertório, um tema puxou o outro, e ela começou a se debruçar sobre a violência de gênero no cancioneiro brasileiro.
Foi um choque o que se revelou à medida que esse estudo avançava. “Mudou muito o meu olhar sobre as canções que eu mesma cantava. Sempre cantei muito samba. ‘Mulata Assanhada’ foi uma das primeiras que olhei e falei: ‘Não acredito que cantei isso alguma vez na vida!’.”
“Ai, meu Deus, que bom seria/ Se voltasse a escravidão/ Eu comprava essa mulata/ E prendia no meu coração”, diz trecho da música, considerado um clássico do samba dos anos 1950, de autoria de Ataulfo Alves, e que ganhou versões de artistas como Elza Soares, Elis Regina e Elba Ramalho.
A cantora, que já excluiu de seu repertório outras música como “Faixa Amarela” - sucesso na voz de Zeca Pagodinho -, costuma compartilhar suas análises sobre o assunto em suas redes sociais.
Em uma delas, ela chama a atenção para a romantização por trás de “Aula de Piano”, de Vinicius de Moraes e Toquinho, em que um professor de piano se aproveita de sua aluna enquanto a mãe descansa. A canção foi lançada no álbum infantil "A Arca de Noé", de 1980, e ganhou clipe com as Frenéticas caracterizadas como crianças.
“A quatro mãos em concertos de amor/Mas na verdade tinham saudade/De quando ele era seu professor/E quando ela, menina e bela/Abria o berrador”, traz a letra.
Verônica diz que a ideia da pesquisa não é fazer um julgamento, mas um levantamento.
É importante a gente encarar mesmo. Ler a letra, refletir a partir do que foi feito. Do que era para ser uma crônica, mas que acabou por nos formar como uma sociedade ou, no mínimo, representar uma sociedade que é violenta contra a mulher.”
Revisão da obra
Enquanto isso, autores como Luiz Caldas e Chico Buarque promoveram um “autocancelamento” ao retirarem de seus shows canções que estavam no foco da polêmica, após fazerem uma reavaliação crítica da própria obra.
Luiz Caldas excluiu “Fricote”, da letra “Nega do cabelo duro/que não gosta de pentear”, considerada marco inicial do Axé Music, de 1985. Enquanto isso, Chico engavetou “Com Açúcar, Com Afeto”, que ele compôs sob encomenda para Nara Leão, nos anos 1960, e que retrata uma mulher submissa.
Sidney Magal também decidiu não cantar mais “Se Te Agarro com Outro Te Mato”, um de seus sucessos nos anos 1970, depois que circulou na internet uma imagem que mostrava um corpo de mulher no IML, com uma fita no dedão do pé que dizia: "Se te agarro com outro te mato, obrigado Sidney Magal".
Fiquei tão magoado e, ao mesmo tempo, assustado com aquilo. Eu realmente não canto e o público pede em todo show, principalmente as mulheres. E digo: 'não, gente, prometi para mim mesmo, não vai me fazer bem."
O cantor, no entanto, não tem essa visão da música pela ótica da violência. “A letra dizia: "Se te agarro com outro, te mato, te mando algumas flores, depois escapo. Dizem que sou violento, mas a rocha dura se destrói com o vento". Ou seja, em seguida, eu desfazia toda aquela violência da música e ficava como uma força de expressão”, defende.
Também Falcão está na mira da lista de possíveis músicas canceláveis. Entre elas, está "Holiday Foi Muito", com o refrão "Porque homem é homem/Menino é menino/Macaco é macaco/ E viado é viado". O cantor não acha justo esse banimento:
"É uma obra artística, é como se você cancelasse a Mona Lisa de Da Vinci, o cara fez há sei lá quanto anos e, de repente, alguém acha a Mona Lisa é uma afronta”, diz Falcão, que segue cantando o que quer e em qualquer lugar.
Se houver uma confusão é bom, porque abre a discussão. Estou aberto para dialogar, e cada um colocar seu ponto de vista para ver quem tem razão.”
Também em meio a esse debate, “Mulheres”, de 1995, sucesso na voz de Martinho da Vila e de autoria de Toninho Geraes, ganhou uma versão feminista assinada por Silvia Duffrayer e Doralyce, como uma resposta à canção original. Essa versão – que, segundo Toninho, não teve sua autorização e cujo original ele não considera machista – teve releitura na voz da cantora Maria Pérola.
E você, o que acha? Qual música que cantava no seu passado e que já não poderia mais entrar numa playlist?
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