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Tânia Maria: "não sou velha, pode vir filme que eu vou gravar"

Reprodução/Viva

A atriz de 79 anos ganhou mais um prêmio internacional nesta semana e aguarda, ansiosa, pelo Oscar - Reprodução/Viva
A atriz de 79 anos ganhou mais um prêmio internacional nesta semana e aguarda, ansiosa, pelo Oscar
Por Bárbara Ferreira

10/02/2026 | 16h20 ● Atualizado | 18h16

São Paulo, 10/02/2026 - Tânia Maria tem 79 anos de vida e sete de estrelato. Já começou a carreira de atriz nas telonas, com Bacurau (2019), e hoje se prepara para a maior premiação de cinema do mundo, com O Agente Secreto (2025). Ela interpreta Dona Sebastiana no filme em que Wagner Moura protagoniza e Kleber Mendonça Filho dirige. As duas têm em comum o nome, a espontaneidade e a capacidade de roubar a cena.

Curiosamente, este ano o Oscar estreia a categoria de “Melhor Elenco”, uma das indicações para a brasileira. Por acaso ou destino, a sincronia é perfeita com o momento de Tânia Maria, que já tem mais seis filmes previstos para 2026.

Na noite desta segunda-feira, 9, ela saiu com um dos seis prêmios que o filme levou da International Cinephile Society (ICS), nos Estados Unidos, como Melhor Atriz Coadjuvante. Tânia também foi premiada como coadjuvante no Círculo de Críticos de Santiago - Top Cine 2025 e recebeu um Prêmio Especial do Júri da Associação Paulista de Críticos de Arte.

Leia também: Tânia Maria vence prêmio de melhor atriz coadjuvante aos 78 anos

Para Tânia, "só é velho quem se entrega". Em entrevista exclusiva ao VIVA, ela falou sobre trabalho, envelhecimento e vida. Confira a seguir a entrevista:

VIVA: Como era a Tânia antes da fama? 

Tânia Maria: Eu fazia… antes não, ainda faço: conjunto de banheiro artesanal. Eu faço meu tapete artesanal, ainda continuo fazendo. Vendo pelo mesmo preço. 

Alguma coisa mudou na sua rotina depois de 'O Agente Secreto'?

Só viajando muito. Muito bom, eu gosto. Quando eu viajo, levo meus conjuntos de banheiro para vender. 

Quem te descobriu? Foi a senhora que achou o Kleber Mendonça (diretor) ou foi ele quem achou a senhora? 

Ele que me encontrou. Foi Renata Roberta (produtora de elenco de Bacurau). Ela veio atrás de figurante aqui no meu povoado. Aí eu estava na minha casa, lanchando. Eu fazendo meus tapetes lá no meu quarto. Aí escutei, eu digo: "Vou olhar quem tá ali na cozinha". Quando cheguei, eu disse: "Boa noite". Renata Roberta disse: "Era essa sala que eu estava procurando. A senhora quer ser figurante de Bacurau?”. Aí minha resposta: “Ganha quanto?”. Eu vivia com o meu tapete, né? Ela disse: “Cada vez que a senhora for, ganha R$ 50”. Eu digo: “Ah, eu quero. É melhor do que eu fazer o tapete”. 

A senhora foi corajosa para mudar de carreira. Essa ousadia foi natural?

Não, quando ainda no Bacurau, em Barra (comunidade no Rio Grande do Norte), quando foi gravado, estavam Kleber e outras pessoas almoçando numa mesa. Aí disse: "Venha entrar aqui almoçar com a gente". O diretor convidar uma figurante para ir almoçar numa mesa com ele, né? Eu fui. Eles disseram: "Conta um pouquinho da sua vida". Aí eu contei como era a minha vida, que era mãe solteira. Leonardo disse: "Eu vou precisar da senhora para a história do meu avô, de seu Cavalcante". Terminou Bacurau e já fui para Recife fazer a história. 

Em Bacurau, a frase "Que roupa é essa, menino?" se tornou icônica. Foi improviso mesmo? 

Todo dia ele [Kleber] vinha cochichar no meu ouvido, dizia o que era para eu fazer. Então, todo dia morria gente, que ele sabe que houve muita morte em Bacural. Ele dizia como era para passar no velório. Aí nesse dia, aí vinha o Silvero Pereira, que é seu Lunga. Então, Kleber disse: "Quando o Lunga for passando perto de você, diga qualquer coisa com a roupa dele”. Quando ele disse isso, o Lunga já vinha chegando perto de mim. Eu não deu nem para pensar isso não. Aí eu só fui olhar para a roupa dele assim e disse: "Que roupa é essa, menino"? Pronto. 

Como está sendo representar o Brasil nesses filmes? Você também se vê nas suas personagens que você interpreta? 

É bom demais. A gente se sente feliz de saber que o povo está gostando do que a gente fez. A gente se esforça, e ser vista e homenageada é bom demais. 

Me vejo, que sou eu mesma aquelas personagens. A dona Sebastiana é minha vida. Kleber escreveu minha vida. É bom demais." 

Uma das semelhanças com a dona Sebastiana é o nome. A senhora se chama Sebastiana na vida real. De onde saiu Tânia? 

Eu não gosto desse nome. É meu nome, mas Kleber sabia que eu não gostava. Aí ele disse: "Eu vou botar aqui um personagem, que aí ela aceita". Aí pronto, eu fiquei Tânia Maria e a personagem dona Sebastiana. Aí eu acho bom. Sebastiana só gosta de Pix. Quando vai passar um Pix, pode ser Sebastiana, mas não gosto desse nome, não. 

A senhora começou a atuar com 72 anos, e não se considera velha.

Velha é quem não quer fazer nada, quem se entrega. A idade é a que a pessoa quer. Porque eu decoro rapidinho. Eu participei da oficina do Leonardo Lacca, que é meu prefeito preparador. Ele diz: "Olhe, para a gente decorar, é só você escrever, copiar o texto. Decora logo". Pronto, ele me ensinou, isso é rapidinho. 

A senhora copia todo o roteiro? 

Copio. Quando eu tenho dúvida, quando o roteiro é grande, aí eu copio duas, três vezes. Não é só uma vez não. Duas, três, até eu decorar. Decoro fácil.

A senhora já foi pessoalmente receber um prêmio? Está recebendo as suas estatuetas em casa? 

Eu recebi só uma estatueta em Caicó (cidade da região do Seridó no RN). Somente na estreia. Ah, aí fui também para o uma estreia, meu Deus, onde foi? Em São Miguel do Gostoso. Recebi também um prêmio lá, lindo. Estou feliz demais, demais, demais.

E o que está todo mundo perguntando: e o Oscar? A senhora está animada? Deve ir pessoalmente? 

Estou, estou sim. E quero ir. Eu quero ir para o Oscar. Já vou fazer a entrevista da viagem, do visto (para os Estados Unidos). 

Como foi conviver com Wagner Moura durante as gravações do filme? 

Mulher, ele é lindo demais, carinhoso. Um carinho tão grande, parece que é meu filho. É um amor de filho, eu tenho a Wagner. Ele é muito mimoso.

Quando a gente chegava para gravar, ele ia logo se agarrando, cheirando, era bom demais. Ele tinha muito cuidado por mim. Muito mesmo. Ele cuidava de mim."

Qual o recado que você deixaria para mulheres com mais de 60 anos que também querem mudanças, como de carreira? 

Ó, 60 anos é uma flor, está na flor da idade, não é a idade de idoso. Eu tive como (mudar de carreira aos) 72 anos, fui figurante, não me julguei velha. Estou com 79, não sou velha, eu me julgo nova.

Eu não sou velha não, pode vir filme para eu gravar. Adoro. A idade é que a pessoa quer. Se você tem 60 anos e se encosta, compra uma cadeira de roda para andar. Eu quero trabalhar. Eu não quero me encostar, eu quero trabalhar." 

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