Vera Fischer fala sobre etarismo, volta às telas e o luxo de poder dizer não
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São Paulo - Depois de quase oito anos fora das novelas, a atriz Vera Fischer, de 74 anos, voltou para fazer uma participação especial na novela da Globo “Eita Mundo Melhor!”, que terminou no mês passado e deixou os fãs com ainda mais saudades. Ela revela que também sente saudades da televisão, mas que hoje é mais seletiva, algo que a maturidade ajudou a construir.
Hoje, eu escolho. Tem que ser um personagem que me provoque, que tenha alguma camada, alguma história interessante para contar. Se aparecer algo assim? Eu volto, com o maior prazer. Se não… também estou muito bem onde estou. Acho que isso é o verdadeiro luxo da maturidade: poder dizer sim — e, principalmente, poder dizer não.”
Mesmo fora das telas, ela revela que segue muito próxima do seu público pelas redes sociais e que gosta deste contato direto e sem filtro. Para ela, as redes permitem que as pessoas a vejam como ela é, e não só as personagens que ficaram na memória.
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Ela conta ainda que nunca foi de ficar parada e que vem novidade em breve. “Eu só escolho melhor onde coloco minha energia. Tenho um projeto novo chegando no streaming, que ainda não posso contar muito, mas é daqueles que me instigam de verdade. E isso, para mim, hoje, é essencial.”
Vera começou a carreira de atriz pelo cinema, em 1970, um ano após ser eleita Miss Brasil em 1969. Foi somente em 1977, após se destacar na telona, que estreou na televisão, na novela "Espelho Mágico", na Rede Globo, onde interpretou duas personagens Diana Queiroz e Débora.
Veja a seguir trechos da entrevista com a atriz.
VIVA: Você acabou de fazer uma participação especial na novela “Eita Mundo Melhor!” Isso é um sinal de volta às novelas?
Vera Fischer: Olha… eu não gosto de fazer planos muito rígidos — isso é coisa de quem ainda precisa se provar. Eu já passei dessa fase. Essa participação em "Êta Mundo Melhor!" foi um reencontro delicioso com esse universo. Fiquei muitos anos longe das novelas, quase oito, então voltar assim, leve, sem aquela pressão… foi ótimo. E claro, dá um gostinho de quero mais. Mas eu não volto por voltar.
Como você tem se preparado para os novos desafios digitais, como por exemplo, a novela vertical?
Eu acho curioso esse nome "desafios digitais". Para mim, é mais uma evolução natural do nosso trabalho. A linguagem muda, o formato muda, mas a essência continua a mesma: contar uma boa história, com verdade. E isso eu faço há muitos anos. Claro que eu observo, entendo, me atualizo.
A novela vertical, por exemplo, tem um ritmo completamente diferente, mais direto, mais íntimo, quase como se a gente estivesse falando no ouvido de quem está assistindo. Isso me interessa. Mas não fico tentando ‘me adaptar demais’, sabe? Eu trago a minha bagagem para esses novos formatos. Acho que o segredo é esse equilíbrio — estar aberta ao novo, sem perder quem você é. No fim, o público percebe quando é verdadeiro. E eu sempre apostei nisso.
Existe etarismo na televisão brasileira ou falta coragem das produções em apostar em protagonistas 60+?
Existe, sim. E não é nem uma coisa escondida… é só observar. Durante muito tempo, a televisão brasileira contou histórias como se a vida acabasse depois de uma certa idade e, sinceramente, a gente sabe que não é assim. Talvez falte coragem, sim, ou até interesse em sair do óbvio. Mas eu também vejo uma mudança acontecendo. Aos poucos, novas narrativas estão surgindo, e o público está cada vez mais aberto. Aliás, o público sempre esteve. Às vezes quem subestima isso são as próprias produções.
Eu não tenho nenhuma questão com a idade, muito pelo contrário. A maturidade me deu camadas que nenhuma juventude daria. E isso, para uma atriz, é ouro. Agora, se vão apostar mais em protagonistas 60+? Eu acho que não é nem uma questão de ‘se’. É uma questão de quando vão entender que essas histórias também dão audiência, engajamento e, principalmente, boas histórias. E quando isso acontecer de verdade, não tem mais volta.
O que mais lhe incomoda: a escassez de bons papéis ou a forma como eles são escritos para mulheres maduras?
Durante muito tempo, a mulher madura foi escrita quase como um arquétipo: ou ela é a elegante intocável, ou a amarga, ou aquela que já ‘passou do ponto’. E a vida não é assim — a gente é muitas coisas ao mesmo tempo. Eu sinto falta de personagens com contradição, com desejo, com humor, com falha, com vida mesmo. Porque é isso que eu vejo nas mulheres da minha geração.
Bons papéis existem, claro. Mas ainda são poucos os que realmente enxergam a mulher madura como protagonista da própria história — não como coadjuvante da vida dos outros. E eu tenho cada vez menos interesse em fazer o que já foi feito mil vezes. Hoje, para me atrair, precisa ter verdade. E um certo risco também. Senão, eu prefiro ficar quieta — e bem quieta.
Existe algum personagem ou gênero que ainda sonha em interpretar?
Eu adoro essa ideia de ‘sonho’, mas não no sentido de algo distante. Eu gosto do que me provoca. Tenho muita vontade de mergulhar em personagens mais complexas, até mais sombrias, aquelas mulheres que não pedem desculpas por existir, sabe? Que têm desejo, contradição, força e até um certo perigo. Acho fascinante. Talvez uma serial killer.
O que a motiva a continuar trabalhando e se reinventando artisticamente?
Eu ainda tenho muita curiosidade pela vida, pelas pessoas, pelas histórias. E isso, para uma atriz, é combustível puro. Quando isso acaba, aí sim eu acho preocupante. Também tenho um prazer enorme em me surpreender comigo mesma. Fazer algo diferente, me ver em um lugar que eu ainda não explorei. Isso me mantém viva artisticamente.
E tem uma coisa que pouca gente fala: liberdade. Hoje, eu trabalho porque eu quero, não porque eu preciso provar nada para ninguém. Isso muda tudo. Eu escolho, eu recuso, eu espero e, quando eu aceito, é porque aquilo realmente me atravessa de alguma forma.
No fim, não é sobre quantidade, nem sobre estar o tempo todo em evidência. É sobre continuar relevante para mim mesma. E isso, sinceramente, já é um desafio delicioso.
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Quando pensa no futuro, quais são os sonhos que ainda deseja realizar dentro e fora da profissão?
Eu não fico mais projetando o futuro como uma lista de metas. Isso ficou lá atrás. Hoje eu penso mais em viver coisas que ainda me provoquem,dentro e fora da profissão. No trabalho, eu ainda quero personagens que me desafiem de verdade, que me tirem do lugar confortável, que me façam até duvidar um pouco de mim. É aí que eu gosto. Tenho vontade de fazer projetos mais autorais também, escolher histórias com mais liberdade, talvez até produzir, participar de tudo com mais intenção.
E fora do trabalho, meus sonhos são mais simples e talvez mais sofisticados por isso. Viajar sem pressa, ter tempo, cuidar de mim, estar perto de quem eu amo, coisas que, hoje, têm um valor enorme. No fundo, o meu maior sonho é continuar tendo desejo. Desejo de viver, de criar, de me reinventar. Porque enquanto isso estiver viva, o resto vem.
E você, gostaria de ver Vera Fischer interpretando uma serial killer? Deixe seu comentário.
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