Bolsa Família responde por 85% dos empregos criados entre 2023 e 2026
Das 5,38 milhões de vagas líquidas abertas no período, 4,58 milhões foram ocupadas por trabalhadores de famílias atendidas pelo programa
Por Broadcast
01/10/2026 | 08h00Adobe Stock
Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, beneficiários do Bolsa Família representaram 85,18% do saldo de empregos formais no Brasil, com 4,58 milhões de novas vagas ocupadas, destacando-se a participação de jovens pretos e pardos, especialmente mulheres.
O estudo da FGV indica que o Bolsa Família não desestimula o trabalho, mas sim facilita a inserção no mercado, ao aliviar restrições financeiras que dificultam a busca por emprego.
Com o recente reajuste de 15% no benefício, que passa a ser de R$ 691, o programa continua a oferecer suporte aos trabalhadores, permitindo que aqueles que conseguem emprego formal mantenham parte do auxílio por até 24 meses, garantindo uma transição mais segura.
Rio - Os beneficiários do Bolsa Família responderam por 85,18% do saldo de empregos formais no Brasil, entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Das 5,38 milhões de vagas líquidas abertas no período, 4,58 milhões foram ocupadas por trabalhadores de famílias atendidas pelo programa. Os números mostram que o maior saldo veio de jovens pretos e pardos entre 18 a 29 anos, sendo as mulheres responsáveis por mais da metade do resultado.
Os dados são do estudo "Inserção dos Beneficiários do Bolsa Família no Emprego Formal", dos economistas Valdemar Pinho Neto e Luiz Gustavo Barbosa, do Centro de Estudos Empíricos em Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), antecipado ao Broadcast.
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De acordo com os autores, os dados contrariam críticas sobre o desestímulo do Bolsa Família ao trabalho, uma vez que o programa desempenhou papel crucial na geração de empregos formais no Brasil no período. O pagamento do auxílio não impede os cadastrados de terem um trabalho com carteira assinada.
Para fazer o cálculo, o estudo não acompanha o fluxo de entrada e saída de beneficiários do programa social, ele usa registros do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) para acompanhar admissões e desligamentos de pessoas vinculadas ao Bolsa Família e ao Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico).
Na avaliação de Valdemar Pinho Neto, os programas de transferência de renda podem reduzir restrições básicas, como o acesso a alimentação e medicamentos, e, com isso, ampliar as condições para a participação no mercado de trabalho.
Essas pessoas têm que fazer escolhas difíceis: procurar emprego, comprar remédios ou o alimento do dia a dia. Quando você dá uma transferência de renda, você alivia essas restrições e as pessoas podem começar a fazer escolhas que as tornam até mais produtivas
Valdemar Pinho Neto, economista
E completa: "Uma crítica de que as pessoas beneficiadas não querem trabalhar não é válida quando se olha para os números."
Perfil sociodemográfico
A contribuição do Bolsa Família para o saldo de empregos formais vem predominantemente de um público jovem, composto por pessoas pretas e pardas e majoritariamente feminino. As mulheres responderam por 55,4% do saldo de empregos líquidos entre os beneficiários, contra 44,6% dos homens.
O dado chama atenção frente à histórica desigualdade de gênero no mercado de trabalho e ao fato de o cartão do programa ser prioritariamente entregue a titulares mulheres. "Se levar em consideração que no Brasil existe uma questão de desigualdade de gênero no acesso ao mercado de trabalho, a expectativa, a princípio, deveria ser oposta do que está aqui", ressalta Neto.
O perfil dos contratados também é marcado pela presença expressiva de adultos entre 18 e 29 anos (que concentram 59% do saldo), pessoas pretas e pardas (mais de 71%) e trabalhadores com ensino médio completo (78,2%).
Reajuste
O debate sobre a relação entre transferência de renda e mercado de trabalho ganhou um novo elemento com o reajuste de 15% do Bolsa Família, anunciado pelo governo às vésperas da eleição. A partir de outubro, o benefício mínimo passa de R$ 600 para R$ 691.
O período analisado pela pesquisa abrange a retomada do Bolsa Família, em março de 2023, em substituição ao Auxílio Brasil, do governo de Jair Bolsonaro (PL). Segundo os autores, a transição entre os programas não produziu alterações significativas no perfil do público atendido no início de 2023, o que permitiu uma análise contínua do comportamento dos beneficiários no mercado de trabalho.
Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, os trabalhadores do CadÚnico responderam por 33,3 milhões de admissões e 27,5 milhões de desligamentos, gerando um saldo positivo de 5,84 milhões de postos.
Entre eles, os beneficiários do Bolsa Família registraram 15,35 milhões de admissões (16,72% do total nacional) e 10,77 milhões de demissões (12,46%), resultando no saldo de 4,58 milhões de empregos (85% do total).
Em contrapartida, a população não inscrita no Cadastro Único registrou um saldo negativo de 460,6 mil vagas no período, com 58,5 milhões de admissões e 58,9 milhões de desligamentos.
Questionado sobre essa retração, os economistas ponderam que o valor é marginal e reflete um movimento típico de um mercado de trabalho aquecido no qual profissionais fora do cadastro social têm maior mobilidade para trocar de emprego.
Programa
O principal critério de elegibilidade do Bolsa Família é ter uma renda mensal de até R$ 218 por pessoa em um domicílio. No entanto, a conquista de um emprego com carteira assinada não acarreta o desligamento imediato da família do programa social.
Pelas normas vigentes, caso a renda familiar per capita suba após a contratação, mas permaneça em até meio salário mínimo (R$ 706), a família pode continuar recebendo 50% do valor do benefício por um período de 18 a 24 meses, conforme a data de entrada no programa. A garantia, chamada de Regra de Proteção, foi criada para oferecer estabilidade financeira e evitar o receio de perda do auxílio na transição para o mercado formal.
(Por Paula Martini)
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