Caso Master e liquidação da Reag reacendem debate sobre percepção de risco
Reprodução/Instagram
Por Fabiana Holtz
15/01/2026 | 17h59
São Paulo, 15/01/2026 - As investigações sobre o Banco Master, que teve sua liquidação decretada em 18 de novembro e cuja investigação culminou hoje com a liquidação extrajudicial da Reag Investimentos, reforça a urgência de instituições financeiras trabalharem seu compliance e governança com mais afinco. Para Fernando Moreira, especialista em direito empresarial, doutor em engenharia de produção com ênfase em Governança e Compliance, esses são na verdade os pilares estratégicos de continuidade, credibilidade e competitividade no mercado financeiro.
Foto: Divulgação
O especialista lembra que, em um setor como o bancário, qualquer falha interna rapidamente se traduz em risco reputacional e consequentemente em risco financeiro.
Na visão de Moreira, o caso deixa claro que bancos não são vítimas passivas. "A falha reside na insuficiência do arcabouço de governança da própria instituição", afirma.
Rentabilidade milagrosa e falhas internas
Não há rentabilidade milagrosa em aplicações financeiras de renda fixa, como o CDB, mesmo com a Taxa Selic nas alturas (de 15% ao ano), reforça Thaís Cíntia Cárnio, professora de Direito Empresarial e Mercado de Capitais da Universidade Mackenzie. A oferta de rendimento muito acima do praticado pelo mercado, alcançando 140% do CDI, dispara alarmes óbvios de falta de governança, afirma.
Outro ensinamento crucial do caso, segundo Moreira, é que falhas internas raramente são isoladas. "Elas sinalizam fraquezas sistêmicas na tomada de decisão, gestão de terceiros ou conflito de interesses", aponta. Pela natureza sensível de suas operações, acrescenta, o setor bancário não pode tolerar controles frágeis. Em outras palavras: integridade é tão vital quanto a liquidez.
Governança sólida garante coerência entre discurso e prática. Compliance eficaz não é rigidez, mas sim maturidade organizacional.
Na avaliação da professora de Direito Empresarial do Mackenzie, quem observa o sistema financeiro de perto já aguardava alguma ação do Banco Central (BC).
Cadeia de responsabilidades
Foto: Divulgação
Na avaliação de Adilson Bolico, sócio do escritório Mortari Bolico Advogados, o caso que já é considerado a maior fraude bancária já vista na história do País coloca em xeque não apenas a solidez institucional, mas a própria cadeia de responsabilidade no mercado de capitais. Para o advogado, ficou clara a necessidade de elevar o padrão de controle e a fiscalização de instituições e intermediários, direcionando o foco para a proteção do investidor.
A investigação também joga luz sobre o principal ponto de fragilidade no crédito privado: a solidez do emissor, aponta Bolico.
Leia também: O que fazer se você tem conta ou CDB do Banco Master
A venda massiva de CDBs do Master, muitas vezes com retornos atrativos, observa o advogado, exige uma avaliação mais apurada do mercado para a sustentabilidade das operações. "O intermediário tem o dever de avaliar não apenas o perfil do cliente, mas também a saúde regulatória e financeira do emissor. Vender títulos de instituições com fragilidades sistêmicas, sem a devida transparência sobre o risco, viola o dever fiduciário".
De acordo com Bolico, o caso mostra que é preciso apertar o cerco sobre os intermediários. "É necessária uma fiscalização que coíba a distribuição de produtos inadequados ou excessivamente arriscados, cuja solidez é questionável".
O alerta para os investidores, segundo as fontes ouvidas pelo VIVA, é que é preciso elevar o padrão de controles internos e diligência. "A confiança simples no papel do intermediário não é suficiente. A segurança, hoje, exige que o investidor amplie seu zelo e incorpore a análise técnica qualificada como um custo essencial de transação", defende Bolico.
Realidade pior do que se percebia
Na avaliação de Thaís Cíntia Cárnio, ficou claro que a realidade era pior do que se percebia.
Ao optar diretamente pela instituição da liquidação em conjunto com o Regime de Administração Especial Temporária (RAET), podemos chegar a duas conclusões: a primeira é que o BC não vislumbrava a possibilidade de recuperação para o Master; a segunda, que a ação deveria ser tomada antes da ocorrência de um mal maior.
A verdade é que o Master arriscou demais, afirma a professora de Direito Empresarial. Oferecia seus títulos com altíssima rentabilidade e respaldadas pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O FGC atua como se fosse um seguro, ressarcindo o valor investido e seus rendimentos no caso de intervenção ou liquidação de até R$ 250 mil por CPF/CNPJ.
Como o FGC é integrado por várias instituições participantes do sistema financeiro, como bancos comerciais, bancos de desenvolvimento e sociedades de crédito, essa conta será dividida por muitos que não lucraram com as operações arriscadas do Master.
Histórico de falências do setor
Entre os principais casos de falências que abalaram o setor bancário brasileiro, Angelo Paschoini, sócio do Paschoini Advogados, recorda da quebra em 1995 do Banco Nacional. O caso teve impacto direto na regulação bancária e levou à criação do PROER e ao fortalecimento do FGC.
Foto: Divulgação
No mesmo ano, o Banco Econômico também faliu, gerando descrédito nas instituições financeiras e reflexos na supervisão do BC.
Em 1998, o Banco Bamerindus foi vendido ao HSBC devido à falta de liquidez, preservando serviços essenciais.
Em especial no caso do Banco Nacional, a descoberta de mais de 600 contas fictícias que eram usadas para mascarar prejuízo levou à intervenção do BC e pouco depois a liquidação do banco.
A forma como o Banco Nacional quebrou virou um símbolo de fraude contábil e ajudou a moldar a vigilância regulatória, diz Paschoini.
No caso do Econômico, que era um banco de uma família de Salvador, a descoberta trouxe uma quebra de confiança, um descrédito muito grande sobre as instituições financeiras. O próprio BC foi muito questionado na época, o que resultou na criação de um projeto regulatório para a construção de uma nova supervisão do setor.
A lição daquela época foi monitorar adequadamente o capital real das instituições, de perto, mês a mês, e não de longe, como era feito antes.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
