Antibiótico em excesso faz mal, perde efeito e gera crise global; entenda
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São Paulo - E se os antibióticos que você toma perderem o efeito e nenhuma outra medicação conseguir combater uma infecção bacteriana, como uma pneumonia ou infecção urinária? Pois é, esse cenário está sendo desenhado há décadas e é um fenômeno que deve causar 39,1 milhões de mortes diretas entre 2025 e 2050 no mundo, segundo projeções do grupo Antimicrobial Resistance Collaborators.
O uso excessivo e indiscriminado de antibióticos é um dos diversos fatores que têm acelerado a é chamado de Resistência Antimicrobiana (RAM). Segundo o professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp), Carlos Kiffer, a resistência antimicrobiana (RAM) é um fenômeno que acontece diretamente nos próprios microrganismos - como as bactérias, vírus e fungos, e não diretamente no corpo das pessoas.
Na tentativa de sobreviver, esses seres vivos evoluem e se tornam capazes de resistir aos tratamentos e remédios que foram criados justamente para eliminá-los”.
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Kiffer reforça que esse processo ocorre em qualquer lugar do ecossistema onde haja a presença de substâncias com ação antimicrobiana, podendo acontecer no meio ambiente, na agropecuária, na indústria ou no corpo humano.
Como o excesso gera resistência?
O fenômeno da resistência ocorre pelo processo de "pressão seletiva". Kiffer explica que, quando expostas ao medicamento, as bactérias mais sensíveis morrem, mas se a dose, o tempo de tratamento ou a indicação estiverem incorretos, microrganismos mais fortes sobrevivem. “Essas bactérias sobreviventes se multiplicam e acumulam alterações genéticas, tornando o fármaco ineficaz", explica.
O próprio Alexander Fleming, descobridor da penicilina, alertou sobre esse risco em seu discurso no Prêmio Nobel na década de 1950, avisando que o uso incorreto faria com que as bactérias aprendessem a se defender, lembra o especialista.
Antibiótico na carne de frango
O problema ultrapassa os limites dos hospitais e envolve o conceito de "Saúde Única" (One Health), no qual a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas. Kiffer, adiciona que, na produção de alimentos, antibióticos são amplamente utilizados para evitar doenças e induzir o ganho de peso em animais de criação, contaminando toda a cadeia.
“Um estudo na China identificou que cepas resistentes já atingem mais de 65% da carne de frango comercializada no varejo de grandes cidades”, complementa.
Cuidado com a automedicação
Na prática, a automedicação e o uso de antibióticos para tratar infecções virais, como a gripe, são erros graves.
A pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e chefe do Laboratório de Bacteriologia Aplicada a Saúde Única e Resistência Antimicrobiana, Ana Paula Assef, adiciona que, como os antibióticos não têm efeito contra vírus, esse uso não traz nenhum benefício e ainda destrói bactérias que compõem a flora intestinal natural, abrindo caminho para o surgimento de "superbactérias".
A pandemia de covid-19, por exemplo, serviu como um grande acelerador desse cenário: o uso de antibióticos de amplo espectro em pacientes graves aumentou a pressão e a ocorrência de resistência bacteriana”.
Crise global
Além do risco biológico, há um entrave econômico: a indústria farmacêutica perdeu o interesse em desenvolver novos antibióticos. O professor da Unifesp analisa que, enquanto remédios para câncer ou doenças crônicas geram lucro contínuo, antibióticos são usados por poucos dias e podem perdem a eficácia rapidamente devido à adaptação das bactérias.
A lógica de mercado exigiria que novos antibióticos funcionassem como um "extintor de incêndio": o mundo pagaria para tê-los à disposição, mas com a intenção de usá-los o mínimo possível, algo que os modelos econômicos atuais não sustentam”, observa.
Sem freios, os gastos globais com a crise de resistência podem chegar a US$ 1 trilhão até 2050, segundo estimativas do Banco Global.
O combate a essa crise exige esforços conjuntos do poder público e de cada cidadão. Embora, no campo das políticas públicas, o Brasil possua um Plano Nacional (PAN-BR), os especialistas alertam para a necessidade de transformá-lo em um "Programa Nacional" contínuo, nos moldes dos programas de Imunização ou de HIV/Aids, com dotação orçamentária unificada e foco na melhoria da rede de laboratórios e no saneamento básico
Individualmente, cada pessoa pode adotar atitudes essenciais:
- Vacine-se: a principal forma de evitar o uso de antibióticos é não adoece. Vacinas contra vírus previnem internações e, consequentemente, impedem infecções secundárias por bactérias no hospital;
- Nunca se automedique: jamais tome antibióticos sem prescrição ou pressione os médicos para receitá-los em casos de gripes ou resfriados;
- Cumpra à risca a prescrição médica. Interromper o uso só porque os sintomas melhoraram ensina as bactérias a sobreviverem ao remédio;
- Descarte consciente: nunca jogue restos de antibióticos no lixo comum ou em pias e vasos sanitários, pois eles contaminarão a água e os rios, gerando resistência no meio ambiente. O ideal é procurar farmácias ou postos de saúde que façam a logística reversa;
- Higiene sempre: a prevenção básica, como lavar bem as mãos, reduz expressivamente a circulação de patógenos na comunidade.
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