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Empreendedoras transformam látex da Amazônia em biojoias, renda e inovação

Divulgação/Débora Flor

Tainah Fagundes atualmente lidera os negócios da marca Da Tribu, criada em 2009 por sua mãe, Kátia Fagundes - Divulgação/Débora Flor
Tainah Fagundes atualmente lidera os negócios da marca Da Tribu, criada em 2009 por sua mãe, Kátia Fagundes
Por Alexandre Barreto

05/09/2026 | 17h14

São Paulo - Em Belém (PA), um empreendimento social transforma saberes tradicionais da floresta em renda e inovação. A marca Da Tribu nasceu do trabalho artesanal de uma família e encontrou no látex natural da Amazônia uma matéria-prima para criar acessórios e biomateriais destinados ao design e à indústria criativa. 

São mulheres de diferentes gerações, incluindo profissionais com 50 anos ou mais, que encontram no artesanato uma possibilidade de continuar produzindo, gerar renda e colocar conhecimentos acumulados ao longo da vida em prática.

Criada em 2009 pela artesã Kátia Fagundes, 63, e formalizada como empresa em 2010, a Da Tribu começou com acessórios produzidos artesanalmente, uma alternativa econômica para sustentar a família. A marca já comercializou mais de 30 mil peças no Brasil e no exterior.

Tainah e Kátia Fagundes
Da Tribu, criada por Kátia Fagundes, hoje é liderada pela filha Tainah, que expande o negócio - Divulgação/João Urubu

A partir de 2013, o látex passou a ocupar um espaço central no trabalho da marca. A empresa estabeleceu relações com comunidades da região de Belém e, posteriormente, estruturou uma cadeia produtiva principalmente em Cotijuba e Ponta de Pedras, no Pará.

“A borracha é uma matéria-prima profundamente ligada à história da Amazônia, mas que durante muito tempo saiu daqui principalmente como commodity, com pouco valor agregado no território. Começamos a experimentar outras possibilidades para esse material e a construir uma cadeia junto a comunidades ribeirinhas e extrativistas”, explica Tainah Fagundes, filha de Kátia, que hoje lidera e gere o negócio.

Segundo ela, antes de lançar qualquer produto da marca, houve uma relação profunda com o território para construir proximidade e confiança. 

A história por trás do nome Da Tribu está ligada à família de Tainah, Moahra e Kauê. Os três, filhos de Kátia Fagundes, eram conhecidos como “a tribo da Kátia”, uma expressão que acabou sendo ressignificada pela família e escolhida para batizar a empresa. O nome também carrega a relação deles com a cultura amazônica, presente na história da família e na trajetória do pai, o músico Dito Marques.

Experiência de mulheres 50+ ganha espaço na produção

Kátia, cofundadora da empresa, é artesã há mais de 30 anos e continua envolvida com pesquisa, desenvolvimento de materiais e formação das profissionais que participam da produção.

Marca une diferentes gerações em negócio social para trocar experiências
Marca une diferentes gerações em negócio social para trocar experiências - Divulgação/Aryanne Almeida

Para Tainah, a convivência entre diferentes gerações permite que conhecimentos sejam compartilhados. Ela destaca que a presença de mulheres maduras é parte da própria história da Da Tribu.

O mercado de trabalho formal ainda cria muitas barreiras para mulheres mais velhas. Ao mesmo tempo, elas acumulam conhecimentos, habilidades e experiências que muitas vezes deixam de ser reconhecidos economicamente. O artesanato e a produção de biomateriais podem criar outro caminho."

Na Da Tribu, pessoas 50+ costumam levar para o trabalho uma experiência relacionada ao fazer manual, ao reaproveitamento de materiais e à percepção sobre acabamento e comportamento dos produtos.

“Existe uma inteligência do fazer que muitas vezes não passou por uma escola ou por uma formação técnica, mas que foi construída ao longo da vida", explica. Porém, ela ressalta que a diferença entre as gerações não é vista como uma disputa de conhecimentos.

Enquanto as mulheres maduras podem contribuir com habilidades manuais e conhecimentos acumulados, as mais jovens trazem outras referências e maior familiaridade com novas tecnologias e formas de comunicação.

Biojoias são feitas de forma artesanal com fios de algodão ecológico embebidos em látex vegetal nativo da Amazônia
Biojoias são feitas de forma artesanal com fios de algodão ecológico embebidos em látex vegetal nativo da Amazônia - Reprodução/Da Tribu

A atividade também pode permitir que mulheres mais velhas gerem renda sem necessariamente deixar suas comunidades. A atuação feminina está presente em áreas como gestão, desenvolvimento de produtos, pesquisa e coordenação da produção.

Em territórios insulares, onde as oportunidades de emprego formal podem ser mais restritas, produzir próximo de casa representa uma alternativa para conciliar trabalho e vida familiar.

Joias feitas com látex vêm da seringueira

No empreendimento, a cadeia começa na floresta. O látex é extraído da seringueira por meio de um manejo que mantém a árvore viva e permite novas extrações ao longo do tempo. Depois da coleta, o material passa por processos de preparação e beneficiamento.

Biojoias usam látex extraído da seringueira sem derrubar a árvore, que segue viva para novas extrações
Biojoias usam látex extraído da seringueira sem derrubar a árvore, que segue viva para novas extrações - Divulgação/Aryanne Almeida

Na produção dos fios utilizados pela Da Tribu, uma base de algodão recebe sucessivas aplicações de látex natural. O processo permite obter diferentes espessuras, níveis de resistência, flexibilidade e acabamentos. Depois da cura e da secagem, os materiais seguem para a produção das peças.

As primeiras aplicações do látex foram concentradas nas chamadas joias orgânicas. Com o desenvolvimento da tecnologia, a empresa passou a trabalhar também com fios de borracha natural e tecidos emborrachados.

Esses materiais podem ser utilizados em roupas, bolsas, superfícies, instalações e projetos desenvolvidos para outras marcas e designers. A mudança fez com que a empresa passasse a se apresentar não apenas como uma marca de acessórios, mas também como "uma plataforma de inovação em borracha natural e biomateriais amazônicos", explica Tainah.

Historicamente, a cadeia da borracha foi associada principalmente à figura masculina do seringueiro. Na estrutura desenvolvida pela Da Tribu, mulheres participam de diferentes etapas, incluindo beneficiamento, preparação dos materiais, produção dos fios, acabamento e criação dos acessórios.

Joias orgânicas são criadas a partir do látex extraído da seringueira
Joias orgânicas são criadas a partir do látex extraído da seringueira - Divulgação/Aryanne Almeida
Ter uma atividade produtiva, dominar uma técnica e receber pelo próprio trabalho interfere diretamente na autonomia da mulher e na forma como ela se percebe dentro da família e da comunidade”, diz Tainah.

A empreendedora também relaciona essa transformação à possibilidade de “reconhecimento do próprio conhecimento". Mulheres que antes poderiam ser vistas apenas como responsáveis pelas tarefas domésticas passam a se identificar também como artesãs e profissionais inseridas em uma cadeia produtiva que alcança outros Estados e mercados.

Floresta como fonte de renda

Para a Da Tribu, a chamada "floresta em pé" envolve tanto a conservação ambiental quanto a criação de condições econômicas para as comunidades. 

A empresa busca manter diferentes etapas da cadeia na Amazônia, desde a extração do látex até o beneficiamento, a fabricação dos fios e tecidos e o trabalho das artesãs. A proposta é aumentar a parcela do valor econômico que permanece nos territórios produtores.

Joias orgânicas já somam mais de 30 mil peças vendidas no Brasil e no exterior
Joias orgânicas já somam mais de 30 mil peças vendidas no Brasil e no exterior - Divulgação/Aryanne Almeida

Essa lógica está relacionada ao conceito de sociobioeconomia, que combina biodiversidade, conhecimentos tradicionais, inovação e geração de renda. Hoje, a empresa investE no desenvolvimento de tecnologias próprias e em parcerias com instituições de pesquisa.

A estratégia atual inclui pesquisas para aperfeiçoar fios de borracha, desenvolver diferentes tipos de tecidos emborrachados e melhorar aspectos como formulação, resistência, padronização e pigmentação.

A empresa também pretende ampliar sua atuação no mercado B2B, fornecendo biomateriais e desenvolvendo soluções em conjunto com marcas, designers e indústrias. Para Tainah, o desafio é fazer com que a Amazônia não permaneça apenas como fornecedora de matéria-prima.

Tainah Fagundes vê expansão da Da Tribu com foco em tecnologia, escala e território
Tainah Fagundes vê expansão da Da Tribu com foco em tecnologia, escala e território - Arquivo pessoal
A bioeconomia amazônica só vai dar um salto quando conseguirmos avançar da lógica de vender matéria-prima para a lógica de desenvolver produto, tecnologia, propriedade intelectual e indústria a partir da Amazônia", pontua.

Nos próximos anos, a empresa pretende transformar a cadeia da borracha em uma experiência de conhecimento. Em Cotijuba, a marca desenvolve uma rota para apresentar aos visitantes a seringueira, a extração do látex, os processos produtivos e as pessoas envolvidas na produção dos materiais.

"Queremos que a borracha amazônica deixe de ser vista apenas como uma matéria-prima histórica e volte a ser percebida como um material de futuro, conhecida como Borracha Criativa", diz Tainah.

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