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Nilson Chaves, o cantor genuinamente amazônico, é guia de Belém por um dia

Paula Bulka Durães/VIVA

Aos 74 anos, Nilson foi o guia turístico do VIVA em uma manhã de passeios pela capital paraense - Paula Bulka Durães/VIVA
Aos 74 anos, Nilson foi o guia turístico do VIVA em uma manhã de passeios pela capital paraense
Por Paula Bulka Durães

08/07/2026 | 15h30 ● Atualizado | 15h35

Belém - Banhada por rios da Amazônia, Belém (PA) é o lar de uma cultura rica, de bases indígenas e caboclas, e de uma sonoridade musical única, ao som do carimbó, Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, e da lambada.

Um dos expoentes da Música Popular Paraense (MPP) é o violonista e cantor Nilson Chaves, rosto reconhecido por onde caminha e lembrado frequentemente no cenário nacional e internacional como uma das maiores riquezas da música brasileira.

Aos 74 anos, sobrevivente da covid-19, Nilson foi o guia turístico do VIVA em uma manhã de passeios pela capital paraense. A travessia começa dentro de um velho Prisma ,da Chevrolet, repleto de CDs espalhados por todos os porta-objetos. "Meu carro é cheio de música", diz, como quem tenta se explicar pela bagunça.

O paraense, que morou mais de 40 anos no Rio de Janeiro, conta que percorria durante as férias as ilhas que rodeiam a região metropolitana fluvial da cidade, ouvindo histórias dos barqueiros e tomando banhos de rio: "Aqui a paz acalma".

A identidade amazônica

O artista não nega que as décadas no Sudeste tenham influenciado seu repertório artístico e sonoro. Contudo, é enfático ao reforçar sua identidade.

"Eu tenho milhares de compositores, cantores e cantoras da região que levantam comigo a bandeira: 'Eu sou paraense, mas eu sou muito mais do que paraense, eu sou amazônico'", afirma.

A Amazônia toda me conhece. Eu bebo a Amazônia toda. Eu vivo na Amazônia toda."

A identidade amazônica se sobressai à de um cantor local. E é essa essência sem fronteiras de Estados ou municípios que o tornou grande protagonista de um momento inesquecível da carreira. No ano 2000, Nilson foi indicado ao Grammy Latino pelo álbum "Tempo Destino: 25 Anos Ao Vivo".

Cantor Nilson Chaves caminha de costas por calçada de pedras junto a casarão histórico em Belém.
Nilson Chaves, 74, caminha ao lado da Casa das Onze Janelas, em Belém (PA) - Paula Bulka Durães/VIVA

No voo de Nova York para Los Angeles, ele dividiu espaço com gigantes do pop mundial, como Shakira e Christina Aguilera. "Até brinco: se eles não me conheciam, eu também não os conhecia." A grande surpresa, no entanto, veio ao desembarcar, quando foi cercado pela imprensa americana.

Sem entender o motivo do alvoroço, o músico questionou o tradutor, que respondeu de prontidão: "É a primeira vez que o Grammy indica um artista da Amazônia".

Para Nilson, o episódio provou que aquilo que foi reverenciado pelos estrangeiros era muito maior do que ele próprio: era a potência de toda a região.

A primeira parada é no ilustre Mangal das Garças, parque ecológico inaugurado em 2005 durante a gestão do secretário de Cultura do Pará, Paulo Chaves, responsável pela idealização de construções e reformas dos principais centros de convivência da capital.

O local é descrito pelo guia como um ambiente repleto de garças de vida livre, borboletas e diversos outros bichos, como lagartos enormes. O grande espetáculo da visita é o momento da alimentação das aves, que gera a famosa revoada, por volta das 11 horas da manhã.

Lá também fica o Quiosque Pai D'Égua, tradicional ponto de descanso dos turistas que querem experimentar as delícias da Amazônia, como o suco de bacuri, fruta cheia de cremosidade.

O negócio é conduzido pelo amigo de longa data, o angolano Orlando Rodrigues. "O bacuri é a fruta mais nobre que nós temos. Ela é tão nobre que a sua casca tem o mesmo paladar da fruta", destaca.

O papo a três rende uma discussão sobre o que, afinal, define o regionalismo. Nilson relembra os embates nas grandes rádios do Sudeste, quando recebia o elogio sarcástico dos locutores de sua música 'boazinha', mas extremamente regional.

O regional ele conecta, ele não afasta. Regional significa você cantar o teu povo. Cantar a tua origem, o teu hábito, o teu costume."

De volta ao Prisma, rumo ao centro histórico, as ruas foram se estreitando, num resgate de uma Belém colonial: "Aqui é a Cidade Velha, onde tudo começou. Aqui as casas todas tinham azulejo português, há pouquíssimas que permanecem ainda intocáveis".

O destino seguinte é a Casa das Onze Janelas, edificação histórica do século XVIII, onde a memória da metrópole antiga resiste em meio ao cenário urbano contemporâneo caótico. A parada é rápida, com direito a beber uma água de coco no Largo da Sé.

O trajeto final segue para a Estação das Docas, o antigo porto cujos galpões de 

Cantor Nilson Chaves sorri abraçado a mulher de rosa em praça de Belém; um cão passa à frente.
Nilson Chaves é rosto reconhecido por onde caminha - Paula Bulka Durães/VIVA

navios foram revitalizados e transformados em um polo gastronômico e cultural vibrante.

Ele faz questão de frisar que sua obra não é estritamente folclórica, mas sim um reflexo vibrante da Amazônia urbana, temperada com um 'sentimento de roqueiro', que arrasta multidões apaixonadas.

Essa versatilidade musical o levou a cruzar o País e construir laços profundos com gigantes da MPB, firmando parcerias de peso com artistas como Flávio Venturini, Chico César, Sá e Guarabyra, e Zeca Baleiro.

Nilson também guarda um carinho imenso e fraterno por Lô Borges, a quem se refere com saudade como um "irmãozão querido".

Às margens da Baía do Guajará, o violonista apresenta o segredo por trás de suas camisas exuberantes utilizadas nos shows: uma boutique chamada Madame Floresta, símbolo da produção artesanal aliada à moda circular, pelas mãos da talentosa Graça Arruda.

Ali, Nilson presenteia com uma blusa de estampa de um boto-cor-de-rosa pintado à mão e um vestido branco rodado, bordado com flores, presentes de valor imensurável.

A despedida

Na terça-feira seguinte, nos reencontramos no Quiosque Pai D'Égua, para uma despedida antes do retorno a São Paulo. Ali, o cantor fala abertamente sobre a internação por covid-19, na Santa Casa de Misericórdia do Pará.

Eu fiquei oito dias intubado e 15 dias na UTI. E nesses dias que eu fiquei na UTI, os apartamentos eram transparentes, então você via tudo que estava acontecendo."

Observar o caos hospitalar fez com que ele admirasse a resiliência dos profissionais de saúde, que enfrentavam o desconhecido. "Era um clima de medo mesmo. Um mundo que a gente não conhecia, não é verdade? E hoje você tá bem, amanhã acabou."

A marca deixada foi a dedicação da equipe. "Eu sentia a alegria e o prazer de eles trabalharem". A experiência transformou-se em canção, quando compôs 'Iluminados' em homenagem àqueles que chamou de heróis. "Achei que seres guerreiros são esses que nos trazem alegria, que nos trazem a certeza de que a vida pode melhorar."

Com a voz embargada, ele revela seu verdadeiro segredo de sobrevivência: "Eu acredito muito na cura a partir do amor, da paixão, da entrega, da fé, da gratidão."

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