Mais adaptados à tecnologia, 60+ buscam relação saudável com o dinheiro
Planejamento financeiro é fundamental para um envelhecimento saudável, assim como cuidar da saúde física e mental
Por Fabiana Holtz
01/10/2026 | 12h56Adobe Stock
O Dia Internacional da Pessoa Idosa, celebrado em 1º de outubro, destaca a importância da autonomia e dignidade dos idosos, que continuam a ser economicamente ativos no Brasil, contribuindo para a estabilidade financeira das famílias em um cenário de endividamento crescente.
Pesquisas indicam que a maioria das pessoas com 60 anos ou mais está cada vez mais engajada em atividades financeiras, utilizando tecnologia para gerenciar suas contas e benefícios, embora ainda haja receios em relação a fraudes digitais.
Instituições financeiras, como o Banco Mercantil, estão adaptando seus serviços para atender melhor esse público, implementando inovações como transcrição de áudio em atendimentos digitais e mantendo opções de atendimento presencial, reconhecendo a importância do contato humano.
São Paulo - Um chamado para a conscientização sobre como encaramos o envelhecimento, o Dia Nacional e Internacional da Pessoa Idosa (1º) leva à reflexão sobre a defesa aos direitos, respeito e dignidade desse público. Nesse contexto, garantir a autonomia e independência financeira surge como um importante pilar para os 60+, que em grande parte seguem economicamente ativos no País.
As pesquisas confirmam que, além ativos, os 60+ contribuem de maneira essencial para o equilíbrio financeiro de muitas famílias. Segundo o levantamento “Geração 60+: Moradia e Arranjos Familiares”, realizado pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, 21,6 milhões de domicílios, quase um terço das casas do País, é chefiado por pessoas com mais de 60 anos. A renda média mensal desse grupo chegou a R$ 3.86 5, a maior entre as faixas etárias analisadas.
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Para Sérgio Batista, gerente de Análise e Planejamento Financeiro do Banco Mercantil, que atende majoritariamente esse público, o planejamento financeiro deveria ser encarado como parte do envelhecimento saudável. Na visão do gerente, a saúde financeira merece os mesmos cuidados que dedicamos ao nosso físico, que precisa ser exercitado diariamente.
No fim, acrescenta ele, a questão é basicamente comportamental e envolve a adoção de hábitos.
Com o avanço da tecnologia, o gerente diz ter percebido uma mudança no perfil desse público nos últimos anos, com a crescente adesão aos meios digitais para recebimento dos benefícios do INSS e movimentação da conta em geral. Entretanto, parte do público ainda se mostra cautelosa, por medo de cair em golpes digitais.
Hoje, a maior parte dos clientes 60+, garante ele, já prefere fazer suas aplicações financeiras via aplicativos. Atualmente, o Mercantil é o quinto maior pagador de benefícios do INSS do País.
Conseguimos sentir um reflexo da evolução tecnológica que observamos na sociedade e recentemente isso tem repercutido até no nosso canal de WhatsApp, que tem quebrado a resistência com esse público.
Sérgio Batista, gerente de Análise e Planejamento Financeiro do Banco Mercantil
Segundo Batista, o banco tem buscado adaptar seus serviços a partir da observação das necessidades e dificuldades relatadas por seus clientes nos canais de comunicação. Um recente exemplo disso foi o desenvolvimento de um sistema de transcrição de áudio para as linhas de atendimento digital ao se identificar que esse púbico tem mais facilidade em lidar com mensagens de voz.
Segundo ele, o banco entendeu que o melhor jeito de atender os mais longevos seria manter os dois canais (o físico e o digital), porque ainda tem clientes que sentem necessidade desse contato 'olho no olho'.
Batista conta que, entre os clientes, o público de idade mais avançada (70+) costuma ter um valor maior aplicado. Na sua avaliação, além da preocupação com a manutenção da autonomia, os que conseguiram poupar em geral aprenderam a adaptar sua rotina financeira a vida após a aposentadoria.
"Há aquela preocupação com os gastos com a saúde, que aumentam, mas também com a realização de sonhos (viagens principalmente) e com a família, em proporcionar mais conforto para os netos, por exemplo", afirma Batista.
Saúde financeira e mental
Na visão da psiquiatra Cláudia Ketter Pinto Vieira, da Afya Educação Médica, ao longo do envelhecimento, as preocupações com dinheiro podem ganhar um peso ainda maior porque, muitas vezes, existe redução da renda e, ao mesmo tempo, aumento das despesas relacionadas à saúde, medicamentos e cuidados.
Divulgação
"A insegurança financeira pode gerar um estado de estresse contínuo. Esse estresse prolongado pode afetar o sono, o humor, a alimentação, a disposição e até a adesão a tratamentos médicos", afirma.
Além disso, existe uma dimensão emocional importante. Ter autonomia financeira não significa apenas conseguir pagar as contas; também está relacionado à sensação de independência, segurança e capacidade de tomar decisões sobre a própria vida. Por isso, dificuldades financeiras podem repercutir tanto na saúde mental quanto na qualidade de vida, ressalta a especialista.
Vieira destaca que estudos têm associado estresse e insegurança financeira à maior presença de sintomas de ansiedade e depressão, inclusive entre pessoas mais velhas.
"Isso não significa que uma dificuldade financeira necessariamente vá causar um transtorno mental, mas ela pode funcionar como um importante fator de estresse e vulnerabilidade."
De acordo com a médica, o estresse crônico pode interferir até no funcionamento cognitivo, principalmente em aspectos como atenção, concentração e memória. Quando estamos constantemente preocupados, diz a psiquiatra, uma parte importante dos nossos recursos mentais fica direcionada para aquela preocupação. Isso nos desperta um 'estado de alerta' permanente. Nas palavras da especialista, cuidar da saúde financeira também pode ser uma forma de cuidar da saúde mental.
Vitalidade vem das conexões
A mineira Dulce Manhães, de 73 anos, se orgulha de sua história e de seguir ativa, disposta e cheia de amor pela vida. Sem dívidas e apaixonada por viagens, ela reconhece que já está um pouco cansada, mas não pretende parar tão cedo. Ao fazer planos para o futuro ela se inspira na longevidade da mãe, que partiu aos 101 anos.
"Fiquei viúva cedo e criei meus três filhos sozinha e consegui ensinar a eles a importância de crescer através do trabalho", afirma ela, que atualmente se divide entre Santa Efigênia e Tiradentes (em Minas Gerais) em razão do nascimento de mais um neto, em setembro.
Quando está em Tiradentes, cidade que visita semanalmente, a aposentada ajuda a filha e o genro na administração do Museu da Moto.
Respeitando algumas limitações impostas pela idade, Dulce afirma que só deixa de participar das atividades da Oficina de Saúde do Núcleo de Autonomia e Independência, em Santa Efigênia, quando está viajando. Recentemente, ela passou por um tratamento de artrose nos dois joelhos e está retomando as atividades.
Sempre muito consciente de seus limites financeiros, a aposentada conta que quando os filhos eram pequenos controlava as despesas do mês na ponta do lápis para não deixar faltar nada em casa.
"Consegui manter as contas em dia, porque sempre tinha um segundo plano quando via que o dinheiro ia apertar. Arrumava alguma renda extra, algo para vender. A situação melhorou e consegui me planejar com mais tranquilidade quando eles começaram a trabalhar", conta ela.
Hoje, sua aposentadoria, que considera pequena porém suficiente, é destinada basicamente para alguns remédios de uso contínuo e seus "luxos" - as viagens. Isso porque pode contar com a presença e o suporte financeiro dos filhos.
"Boa parte da minha felicidade hoje posso atribuir a minha fé (ela é budista) e ao apoio e acolhimento que recebo dos meus filhos", afirma ela. Declaradamente apaixonada pela vida, a aposentada garante que além de uma vida financeira estável, manter o corpo e a mente ativos é fundamental para envelhecer com autonomia e bem-estar.
No Brasil, o dia ' de outubro também marca a criação do Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741), sancionada em 2003.
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