Saiba como juros compostos influenciam seu financiamento e negocie melhor
Envato
06/01/2026 | 12h17 ● Atualizado | 12h21
São Paulo, 06/01/2026 – Entrar em um financiamento mais longo, como o de um imóvel ou veículo, envolve ter paciência para fazer contas e estratégia para não se deixar enrolar em dívidas que na realidade não vão caber no seu bolso. A chave da questão aqui se chama juros, que se bem trabalhada pode resultar em um menor comprometimento da renda e muita economia.
A dinâmica do juro composto, que na prática significa juros sobre juros, pode parecer complexa, porém os ganhos proporcionados com sua lógica exponencial no longo prazo são surpreendentes. Saiba que esse regime de juro predomina no sistema financeiro, sendo aplicado em financiamentos, empréstimos bancários, cartões de crédito, investimentos, previdência privada, títulos públicos e privados.
O juro simples, por sua vez, é normalmente utilizado em cálculos pontuais, como multas contratuais, juros de mora, algumas operações de curtíssimo prazo ou exercícios didáticos.
Ahmed Sameer El Khatib, coordenador do Instituto de Finanças da Federação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap) e professor da Unifesp, ressalta que o conceito de juros é um dos pilares das finanças, mas a diferença entre juro simples e juro composto continua sendo uma das maiores fontes de confusão para a maioria das pessoas.
Em sua definição mais básica, o juro simples é aquele calculado sempre sobre o valor inicial da aplicação ou da dívida, chamado de principal. Já o juro composto funciona de maneira completamente diferente: a cada período, os juros são incorporados ao principal, passando também a render novos juros. O crescimento deixa de ser linear e passa a ser exponencial, o que transforma o tempo no fator mais poderoso da equação.
O professor alerta ainda que essa lógica serve tanto para construir patrimônio quanto para gerar endividamento, como no cheque especial ou cartão de crédito ao pagar o valor mínimo da fatura.
Lógica inacessível
Arquivo pessoal
Apesar de sua ampla aplicação, a lógica do juro composto ainda parece inacessível para boa parte da população por razões estruturais, observa Ahmed.
Em primeiro lugar, trata-se de um conceito matemático baseado em equações exponenciais, algo pouco explorado de forma prática no ensino básico. Outro ponto mencionado pelo professor é que o ser humano tende a pensar de maneira linear, enquanto o crescimento exponencial é contraintuitivo. “Os resultados parecem pequenos no início e explosivos no longo prazo”.
Somado a isso, há uma ‘rejeição emocional’ ao tema por que o debate sobre juros no Brasil costuma estar associado a experiências negativas, como dívidas caras e inadimplência. “Isso gera rejeição emocional ao tema, em vez de compreensão racional”.
Mudança de narrativa
Infelizmente o nível de educação financeira dos brasileiros ainda é baixo e faltam exemplos concretos que conectem números à vida real.
“Tornar esse assunto mais palatável para os brasileiros passa, necessariamente, por mudar a narrativa”.
Isso pode ser viabilizado através de exemplos simples, mostrando que o mesmo mecanismo que aprisiona no endividamento pode ser um aliado poderoso na construção de patrimônio, afirma Akmed.
Arquivo pessoal
Adriano Hada, head de Private na RB Investimentos, vê a educação financeira como principal ponto nesse debate, por seu potencial em ajudar as pessoas a tomarem decisões financeiras mais inteligentes. “É importante ter disciplina, paciência e deixar o tempo trabalhar a nosso favor”, reforça.
Passar a enxergar o tempo como um grande aliado nesse processo é fundamental, afirma. E se ao longo do caminho for possível se programar para contribuir com pequenos aportes, a espera vai ter valido a pena.
Relação com o tempo
Para Altay de Souza, psicólogo e pesquisador no Centro de Comunicação e Ciências Cognitivas da USP e na Unifesp (Psicobiologia), ainda somos insensíveis ao conceito de juro composto. “A gente não nota, não entende, fisiologicamente. É como o conceito de equação exponencial”, observa.
Isso se explica, segundo ele, pela nossa relação com o tempo e a necessidade de resultados imediatos. “Temos uma incapacidade crônica de entender expansão exponencial”, acrescenta.
O especialista fez a observação durante o workshop Radar do Futuro: o investidor em 2035, uma reflexão promovida pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) sobre o impacto do uso da Inteligência Artificial no universo financeiro.
Exemplos simples, projeções visuais, simulações de longo prazo e comparações com hábitos cotidianos ajudam a traduzir o conceito. Mais do que fórmulas, diz Ahmed, as pessoas precisam entender que o juro composto recompensa disciplina, constância e paciência, três elementos raramente associados às decisões financeiras no curto prazo, mas fundamentais para resultados duradouros.
De R$ 10 mil para R$ 1 milhão
Uma projeção de longo prazo ilustra esse potencial multiplicador com clareza. Suponha um investimento inicial de R$ 10 mil, com depósitos mensais de R$ 200, a uma taxa de 1% ao mês, mantido por 30 anos (360 meses). Ao final desse período, o valor acumulado seria da ordem de R$ 1,08 milhão.
O mais impressionante é que o valor total efetivamente investido ao longo de todo o período seria de apenas R$ 82 mil (R$ 10 mil iniciais mais R$ 72 mil em aportes mensais). Ou seja, mais de 90% do montante final viria exclusivamente dos juros compostos, e não do capital originalmente poupado.
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