Do caso Dória à tragédia de Escobar na Copa de 1994: futebol sem limites
Divulgação/Fifa
São Paulo - O São Paulo aceitou nesta quinta-feira o pedido de rescisão do zagueiro Matheus Dória em caráter irrevogável. O jogador foi ameaçado de morte após cometer alguns erros nas últimas partidas, comprometendo a condição do time em campo. Nas redes sociais, ele e sua família foram mais do que intimidados. O clube e os órgãos competentes da cidade nem tiveram tempo de dar ao atleta a segurança que ele precisava para fazer o seu trabalho.
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Dória não quis correr os riscos nem pagar para ver. Ele pediu para sair. Seu contrato terminava em dezembro de 2027. Abriu mão de multas e da rescisão. Dória fez a maior parte de sua carreira fora do Brasil, como no México. O seu desejo é de voltar a atuar no exterior.
Não é de hoje que o futebol cruza a linha do bom-senso e ganha o submundo. Não faz parte do jogo ameaçar de morte atletas e seus familiares por causa de resultados de uma partida de futebol. Na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, essa linha tênue extrapolou todos os seus limites, quando o zagueiro colombiano Andrés Escobar foi assassinado no dia 2 de julho daquele ano por ter marcado um gol contra no Mundial, vencido pela seleção brasileira de Romário e Bebeto.
Escobar morreu em Medellín, numa época em que a Colômbia vivia um colapso marginal do crime organizado. Ele foi baleado com seis tiros. Foi trágico. A notícia correu o mundo. É uma mancha que o futebol carrega para sempre e que jamais deveria se repetir.
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A Colômbia perdeu para os anfitriões Estados Unidos por 2 a 1. Escobar fez um gol contra. Obviamente, sem querer. Ele foi assassinado dez dias depois da eliminação da sua seleção na primeira fase da competição da Fifa. O zagueiro foi baleado com seis tiros depois de discutir numa casa noturna sobre aquele jogo e a sua participação.
É preciso identificar e prender os vândalos
O autor dos disparos, o motorista e segurança Humberto Muñoz Castro, foi preso, julgado e condenado a 43 anos de prisão na Colômbia. Ele foi libertado em 2005 por bom comportamento.
O futebol brasileiro, mas não somente ele, tem sido palco de muitos questionamentos violentos por parte de torcedores ensandecidos contra treinadores, jogadores e equipes inteiras. Há muitos casos de dedo em riste e ameaças veladas sem que nenhuma providência mais efetiva seja tomada pelas autoridades esportivas e órgãos governamentais competentes, como identificar e prender esses vândalos.
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Invasões aos centros de treinamentos dos clubes já viraram uma "rotina" de norte a sul do Brasil, assim como pichações em suas dependências em casos de derrotas de jogos ou de campeonatos.
Um dos casos mais graves no futebol brasileiro ocorreu com o goleiro Cássio, do Corinthians, e nem faz muito tempo. Ele e sua família também foram ameaçados de morte após o jogador cometer falhas em jogos do time do Parque São Jorge. Neste caso, no entanto, a polícia conseguiu identificar o responsável. Tempos depois, Cássio trocou o Corinthians pelo Cruzeiro.
Em Copas do Mundo, a Fifa e os governos dos países-sede são responsáveis pela segurança das seleções e dos próprios torcedores nos estádios. Há um efetivo gigantesco para que todos sejam orientados e que permaneçam em seus respectivos setores durante as partidas. Escobar não foi assassinado nos Estados Unidos nem no retorno da delegação colombiana para casa. Mas o seu nome esteve envolvido em apostas de narcotraficantes durante aquela competição.
Fifa investe em segurança nas Copas
Na Copa do Mundo do Brasil, em 2014, o investimento em segurança foi de R$ 1,9 bilhão. Houve uma integração de todas as polícias do país, com seus pares estrangeiros, como a Interpol. O Mundial mobilizou 157 mil agentes de segurança pública e das Forças Armadas para que nada desse errado. Em cada partida da Copa, havia de 900 a 1.200 policiais em serviço.
Algumas delegações requisitam na Fifa segurança reforçada, como a própria seleção dos Estados Unidos. As delegações de Israel também se valem de maiores efetivos de segurança durante os Jogos Olímpicos. No futebol, Israel disputou apenas a Copa do Mundo de 1970, no México, quando o Brasil, de Pelé, foi tricampeão. O time foi eliminado na primeira fase.
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