Exclusão digital é grave barreira para a cidadania, diz especialista
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São Paulo - A migração de vários processos legais e sociais para o meio digital aumentou a eficiência e reduziu os custos. No entanto, também criou uma barreira adicional em um País onde parte da população ainda não tem acesso pleno à internet.
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De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, de 2024, 20,5 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais não utilizam a rede. . Destes, 45,6% declararam como motivo não saber usá-la.
O coordenador do curso de Gestão Pública da UNIASSELVI, Fernando Eduardo Cardoso, explica que este fenômeno, especialmente voltado a falta de letramento digital da população 60+, constitui um obstáculo perigoso ao exercício da cidadania.
A exclusão digital é perigosa pois é silenciosa. Aos poucos os serviços se tornam digitais, e não percebemos aqueles que não são incluídos no novo modelo."
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Cardoso afirma também que essa exclusão distancia pessoas de oportunidades profissionais, já que muitas delas são publicadas em plataformas como o LinkedIn, aumentando desigualdades e perdendo importante força de trabalho.
A digitalização é voluntária?
Dados do PNAD mostram que o uso da internet pelo público 60+ aumentou de 44,8% em 2019 para 66% em 2023 -- uma alta de 21,2 pontos porcentuais. Ainda assim, Cardoso questiona a quem interessa essa tendência.
Com a pesquisa TIC Domicílios mostrando que, das pessoas 60+ que não utilizam serviços de Governo Digital, 73% o fazem por preferirem o meio físico, o especialista especula que a migração para a web pode ser principalmente por necessidade, sem atender a anseios verdadeiros desse público.
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Cardoso levanta outra preocupação dessa migração involuntária: quando alguém sem letramento digital não consegue utilizar um serviço, pode recorrer a um terceiro.
Se por um lado esta pode ser uma boa oportunidade para desenvolver laços familiares, por outro, se esse acesso é confiado a um estranho, pode representar um risco sério a segurança digital.
Caminhos para a inclusão
Na análise do coordenador, não temos como voltar atrás na transformação digital, principalmente após a pândemia. Para ele, é vital que os serviços "mantenham um pé" no atendimento físico, e se moldem para reduzir esta nova desigualdade.
Cardoso indica três frentes para lidar com a exclusão digital:
- Ampliação da conectividade: garantir que a infraestrutura de internet chegue a todas as regiões, inclusive as mais remotas, removendo a barreira física do acesso. Esse acesso pode ser subsidiado por meio de políticas públicas e parcerias com o setor privado.
- Investimento em educação digital: é fundamental investir em letramento tecnológico. Isso significa oferecer capacitações que ensinem desde habilidades básicas, como ligar e navegar em um dispositivo, até competências que permitam o exercício pleno da cidadania e a permanência no mercado de trabalho.
- Desenvolvimento de plataformas acessíveis: as ferramentas digitais devem ser redesenhadas para serem mais simples, intuitivas e menos burocráticas. O design de sites e aplicativos deve ser mais "amigável", com canais de suporte humanizados.
A professora de Fundamentos de Ciência da Computação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Pollyana Notargiacomo, argumenta que, mais do que “usar a internet”, trata-se de estabelecer uma ponte para a inclusão digital real e para a participação na sociedade.
É necessário promover iniciativas para desmistificar conceitos, esclarecer significados e oferecer ferramentas para a aprendizagem deste universo digital."
Estagiário sob supervisão de Claudio Marques
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