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Faixa das Malvinas após Argentina x Inglaterra irrita Reino Unido e aciona Fifa

Instagram / AFA

Jogadores da Argentina festejam abraçados a vitória sobre a Inglaterra por 2 a 1 - Instagram / AFA
Jogadores da Argentina festejam abraçados a vitória sobre a Inglaterra por 2 a 1
Por Robson Morelli

16/07/2026 | 14h52

Nova York — A vitória da Argentina sobre a Inglaterra não terminou apenas com festa, lágrimas e vaga na final da Copa do Mundo. Terminou também em provocação política, tudo o que a Fifa não permite em seus jogos. Depois da virada por 2 a 1 na semifinal em Atlanta, e da forma com que foi, jogadores argentinos comemoraram no gramado exibindo uma faixa com a frase "Las Malvinas son Argentinas", uma versão provocativa a "La Mano de Dios", de 1986, quando Diego Armando Maradona destruiu os ingleses naquela Copa quatro anos depois da Guerra das Malvinas, entre Argentina e Inglaterra.

A faixa foi tomada de assalto pelos atletas argentinos de torcedores nas numeradas próximos ao campo. A organização do jogo avisou um dia antes que não permitiria faixas ou qualquer outro adereço político sobre esse episódio. Mas a segurança falhou em Atlanta.

A cena colocou a Fifa diante de um problema que vai além do futebol e da festa argentina em sua segunda final de Copa consecutiva. As Ilhas Malvinas, chamadas de Falklands pelo Reino Unido, são território britânico ultramarino no Atlântico Sul, mas seguem sendo reivindicadas pelo país sul-americano. A disputa de soberania atravessa décadas, envolve guerra, mortes dos dois lados, memória nacional e feridas abertas entre os países.

A Argentina havia acabado de eliminar a Inglaterra em uma semifinal dramática e com cara de Libertadores da América pelas jogadas ríspidas. O time de Messi perdia por 1 a 0, viu a final escapar durante boa parte da partida, mas virou nos minutos finais para chegar à decisão contra a Espanha, marcada para domingo, no MetLife Stadium, em New Jersey.

Fifa: contra a parede deste o cartão vermelho

Seria uma noite histórica por si só. Mas a faixa adicionou outro ingrediente: a política entrou em campo. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, arregalou os olhos incrédulo. E terá de tomar providências. Ele já está contra a parede por causa daquele episódio envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o cartão vermelho do jogador americano Balogun, que foi postergado "com efeito suspensivo" a pedido da Casa Branca.  

Ocorre que a Fifa proíbe manifestações políticas em jogos e eventos organizados pela entidade, sobretudo em uma Copa do Mundo. Por isso, a Argentina pode enfrentar uma ação disciplinar. A comemoração com a faixa foi vista no Reino Unido como uma provocação direta depois de uma derrota dolorosa para os ingleses, justamente em um Mundial disputado em solo norte-americano e diante de audiência global. O mundo viu aquelas cenas.

Peter Kyle, secretário britânico de Negócios e Comércio, classificou a atitude dos argentinos como "totalmente inadequada" e afirmou esperar uma investigação completa da Fifa. Para ele, a faixa representou uma violação clara das regras que impedem atividades políticas no futebol, e bem debaixo do nariz de Infantino. O governo britânico também se manifestou, ainda que tenha deixado qualquer possível punição nas mãos da entidade.

A Copa do Mundo pode não ser nossa, mas as Ilhas Malvinas certamente são", afirmou uma porta-voz do primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, à BBC.

A frase mostra o tamanho do incômodo dos ingleses. Para os argentinos, as Malvinas são uma causa nacional. Para os britânicos, elas são territórios sob soberania do Reino Unido. Para a Fifa, são um tema que não deveria aparecer em uma comemoração de semifinal de Copa do Mundo. Mas apareceu. E apareceu justamente depois de um Argentina 2 x 1 Inglaterra, um jogo que nunca será apenas mais um jogo.

A rivalidade entre os dois países no futebol sempre carregou peso histórico. A Copa de 1986, com Maradona, a "Mão de Deus" e o gol mais bonito da história dos Mundiais, consolidou esse confronto como um dos mais simbólicos do esporte. Quatro anos antes, Argentina e Reino Unido haviam travado a Guerra das Malvinas. Desde então, cada encontro entre as seleções carrega uma sombra política, mesmo quando todos tentam fingir que é apenas futebol, como fizeram os treinadores na véspera da partida.

Malvinas é uma ferida aberta na Argentina

Desta vez, no entanto, os jogadores argentinos não fingiram e mostraram que o caso ainda é uma ferida aberta no país. Levaram a mensagem para o gramado de forma espontânea e agressiva. A comemoração transformou a classificação para a final em caso diplomático e colocou a AFA (Federação Argentina de Futebol) sob risco de punição. A Fifa terá de decidir se abre investigação, se aplica multa, advertência ou qualquer outra sanção.

Como é procedimento padrão, o Comitê Disciplinar independente da Fifa está atualmente avaliando os relatórios da partida e considerando as circunstâncias relevantes antes de decidir sobre possíveis medidas adicionais com base no Código Disciplinar da entidade", nota da Fifa.

O problema de Infantino é que ele está em plena campanha para mais quatro anos de mandato, cuja reeleição está marcada para março do ano que vem, em Rabat, no Marrocos. Ele precisa do voto do Reino Unido, mas também da Argentina. Do ponto de vista argentino, a faixa certamente será vista por muitos como gesto patriótico. Do ponto de vista britânico, como provocação inadequada e desrespeito político. Do ponto de vista da Fifa, como uma dor de cabeça às vésperas da final mais importante do torneio.

Argentina corre risco no tribunal da Fifa

A Argentina está na decisão da Copa. Messi vai disputar sua última partida em Mundiais contra a Espanha e tentar o bicampeonato, um feito lindo para uma carreira ainda mais linda. Mas, antes da final, a seleção campeã do mundo terá de lidar com outro adversário: o tribunal disciplinar da Fifa. Em uma Copa que já teve acusações contra arbitragem, tensão política e interferências fora de campo, a faixa das Malvinas virou mais um capítulo incômodo.

A Argentina venceu a Inglaterra dentro das quatro linhas. Fora delas, comprou uma briga que pode custar caro. As punições incluem advertências, multas financeiras, perda de pontos, disputa de jogos sem público, suspensão de competições, rebaixamento de divisão e exclusão de torneios.

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