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Grace Gianoukas é Dercy Gonçalves no palco: 'primeira antietarista pública'

Divulgação/Heloisa Bortz

A atriz Grace Gianoukas recria Dercy Gonçalves no palco - Divulgação/Heloisa Bortz
A atriz Grace Gianoukas recria Dercy Gonçalves no palco
Por Adriana Del Ré

15/07/2026 | 16h33

São Paulo - O monólogo "Nasci Pra Ser Dercy", em cartaz no Teatro Itália, em São Paulo, une no palco duas personalidades fortes e com timing genial para a comédia. A atriz gaúcha Grace Gianoukas, famosa por suas personagens hilárias que satirizam esteriótipos no bem-sucedido projeto "Terça Insana", interpreta outra atriz, a fluminense Dercy Gonçalves, que fez fama com seu humor escrachado e popular.

Só que Dercy, morta aos 101 anos, em 2008, era muito mais do que a "velha louca que falava palavrões", persona que criou para conseguir se destacar no meio artístico. Apesar da infância difícil, do pouco acesso aos estudos e da má-fama em sua cidade natal, a pequena Santa Maria Madalena (RJ), por ser uma garota que só queria fazer as próprias vontades, Dolores Gonçalves Costa, a Dercy, era brilhante, sábia e corajosa. 

Para sua única filha, Decimar, foi uma mãe rigorosa, que exigia que ela estudasse, não falasse palavrão e se casasse virgem. Seu instinto protetor queria impedir que a filha sofresse como ela. 

Dercy, acima de tudo, foi nossa primeira antietarista pública", define a atriz.

Grace dá vida à "sua Dercy" desde 2023. "Sua Dercy" porque ela não quis fazer meramente uma imitação. A partir do texto de Kiko Rieser, também diretor do monólogo, e de suas próprias pesquisas sobre Dercy, ela construiu uma releitura autoral da atriz veterana, que era adorada pelo público desde os tempos de Teatro de Revista. Para manter a autencidade de sua atuação, Grace passou longe de registros de outras atrizes que deram vida a Dercy, como Fafy Siqueira e Heloísa Perissé, na minissérie "Dercy de Verdade" (2012).

Grace Gianoukas tem cabelos lisos, brincos, colar e casaco vermelho com gola esverdeada
Com mais de 40 anos de carreira, Grace Gianoukas ganhou projeção com o projeto "Terça Insana" - Divulgação

Para além de retratar a Dercy que dispara palavrões ou que fica com os seios à mostra em pleno desfile na Sapucaí aos 83 anos, Grace e Rieser queriam se aprofundar em sua complexidade e revelar lados menos conhecidos dela. A ponto de a plateia sorrir, se emocionar e querer abraçar Grace/Dercy ao final do espetáculo.  

Conhecida também por seus papéis na TV, em novelas como "Haja Coração", "Família É Tudo" e "Êta Mundo Melhor!", e o infantil "Rá-Tim-Bum", na Cultura, Grace, aos 62 anos, fala sobre Dercy e o desafio da construção dessa personagem, que se tornou um símbolo contra o etarismo.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

VIVA: Como as pessoas veem Dercy? E o que vocês queriam mostrar sobre ela que as pessoas não conheciam?

Grace Gianoukas: A ideia do Kiko (Rieser, autor) no texto é, claro, mostrar a importância da Dercy para a cultura nacional e para o movimento das mulheres, mas também humanizar aquele ícone, com suas fragilidades, sua coragem, sua vulnerabilidade. Acho que o espetáculo traz um pouco dessa vulnerabilidade da Dercy e o quanto ela fez da comédia — e do trabalho — um escudo protetor para vencer na vida. Ela acabou achando esse nicho do palavrão. Foi com isso que ela conseguiu sobreviver, sustentar uma família e dar emprego para um monte de gente, mesmo sendo tão discriminada socialmente.

Quando ela começou a estourar, era uma libertação, porque as pessoas eram muito sufocadas. Então, elas achavam muito engraçado ver uma senhora dizendo tanto palavrão. Isso, de certa maneira, era catártico. Sem perceber, era uma mulher de vanguarda. Resgatar a imagem da Dercy como uma mulher que abriu portas e caminhos para a gente estar aqui hoje é muito importante.

Ela falava a linguagem do povo, por isso conquistou o público. Não foi algo consciente, certo?

Dercy Gonçalves tem cabelos curtos e loiros e está sorrindo, com um dos braços levantados
Dercy Gonçalves morreu aos 101 anos e fez fama como artista popular que falava palavrões - Divulgação/Itaú Cultural Play

Sim, a gente não pode esquecer que o pai dela tirou ela da escola no segundo ano (do que hoje seria o ensino fundamental). 'Não vai mais estudar, vai trabalhar'. Então, a Dercy era uma pessoa que, durante muitos anos, não teve muito acesso a aprofundamentos de conhecimento. Ela vivia no popular, assistia a companhias populares. Ela reproduzia isso. Se tivesse tido talvez uma formação mais tradicional, ela não seria tão original, seria castrada com a maneira de interpretar de antigamente, que vinha da Europa. 

Quando acabou o Teatro de Revista e ela foi montar os espetáculos dela — que tinham que ser clássicos, se não não tinha público —, ela deu o jeito dela. Isso é inteligência de mercado. Claro, à medida que ela foi viajando, conhecendo mais pessoas, foi sofisticando seu conhecimento. Ela adorava viajar, jogar e comprar joia.

Que descobertas você fez sobre ela durante sua pesquisa? 

Pouquíssima gente sabe que a Dercy, aos 70 anos, perdeu tudo o que ela tinha. Ela teve um contador que trabalhou para ela a vida inteira. Confiança total. Chegou uma conta de impostos que ela devia. Ele nunca pagou, ele embolsou. E ela teve que vender tudo que tinha: joias, apartamentos, umas coisinhas que ela tinha aplicado. Ficou com uma quitinete minúscula em Copacabana, comprou uma Kombi e falou: "Vou refazer meu patrimônio". E viajou de Kombi por esse Brasil com o show. Nessas viagens, ela bordava, como uma velhinha bordando as sapatilhas que ela usava, uma coisa bem calminha. Ela refez o patrimônio.

Ela gostava também de comer bem, de dormir muito e de jogar. Gostava de fazer comida para receber pessoas em casa, os mais íntimos. Ela sempre foi muito de casa. A intimidade dela era uma coisa que ela deixava muito bem reservada, mas ela ajudou muita gente.

Você é atriz de criação de personagem. Qual o desafio de interpretar uma personagem real?

Tenho uma personalidade muito forte. Apesar de eu criar personagens, tipos diferentes, sou eu. Falei para o Kiko: 'Não sei imitar ninguém'. Ele disse: 'Não quero que tu imite'. Ele queria que eu fizesse a voz da Dercy já no começo. Falei: 'Não, primeiro preciso pegar o ritmo'. Aí ele perguntava: 'Quando a voz da Dercy vai vir?'. Ele estava preocupado. Uma semana antes da estreia, veio a voz da Dercy.

Não é a voz da Dercy, é uma entonação de época, que está muito na minha orelha, acho por causa das minhas tias, da minha mãe. Minha grande preocupação era fazer uma caricatura. Por mais que algumas personagens minhas sejam estereótipos, elas têm uma verdade profunda de alma. Mas não sou imitadora."

É difícil, mas, com 40 e poucos anos de carreira, é um desafio que eu precisava. Agora não sei para onde é que eu vou (risos). Quando a plateia aplaude, grita comigo "Viva, Dercy Gonçalves!" no final do espetáculo, sinto que estou numa missão. É uma responsabilidade: humanizar, desconstruir. Peguei isso para mim.

Acha que a Dercy foi a grande representante contra o etarismo?

Sem dúvida. Imagino que agora existam muitas mulheres nessa luta também, mas a Dercy, acima de tudo, foi nossa primeira antietarista pública.

Como ela seria vista hoje?

Careta do jeito que a sociedade está ficando, a gente está muito dividido: tem gente com muito entendimento, muito inteligente, com muita cultura, mas tem gente que prefere ficar no raso. Então, acho que a Dercy continuaria sendo vista por muitas pessoas como a velha louca que falava palavrão.

O que representa para você ocupar palcos e TV depois de mais de 40 anos de carreira?

É meu trabalho, não sou uma pessoa que consegue ficar parada por muito tempo, estou sempre fazendo alguma coisa. Acredito que, enquanto eu existir, vou viver a ilusão que posso colaborar com a sociedade. Então, estar no palco ou na TV é levar um pouco de alegria, um pouco de entretenimento, um pouco de reflexão para as pessoas. É como me sinto cidadã.

Vi uma postagem sua falando sobre menopausa. Como foi esse processo para você?

Grace Gianoukas está caracterizada como a atriz e comediante Dercy Gonçalves, com roupa vermelha e penas amarelas nos cabelos
Grace Gianoukas estreou como Dercy Gonçalves em 2023 - Divulgação/Heloisa Bortz

Foi acontecendo, eu não tinha muito tempo para pensar nisso, porque eu tinha mais o que fazer, trabalhando que nem uma louca. Mas claro que a gente vai sentindo no corpo: de repente ‘ai minha perna’, olho no espelho e estou com três fios. Meu corpo precisa gritar para eu me dar conta, mas não faço reposição hormonal, porque não é aconselhável para mim. Faço exercício, tento manter uma alimentação saudável. Tem uma outra coisa que é muito legal: vai chegando uma certa idade e a gente não tem obrigação de estar sempre bonitinha, porque não adianta, está com ruga aqui, ruga ali. Tu pode andar pela cidade e passar despercebida às vezes. Não tem mais aquela obrigação de estar na pinta. 'Me deixa, estou velha, olha pra lá, não olha pra cá.’

Como é o processo do envelhecer?

Acho uma benção, porque a ansiedade que eu tinha aos 20, aos 40 anos foi indo embora. A sabedoria e o entendimento do tempo que eu tenho aos 62 anos e ter vivido tantas coisas.

Pulei todos os muros que colocaram para mim, e sei onde está meu muro e o muro da sociedade. Não preciso mais provar nada para ninguém. O que eu quero? Natureza, paz, um trabalho que permita pagar minhas contas e muita música, muita arte, quero ler muito, quero muitos bichos, e Deus. Sei exatamente para onde estou caminhando. 

Serviço:

  • "Nasci Pra ser Dercy" 
  • Local: Teatro Itália
  • Endereço: Avenida Ipiranga, 344 – Subsolo – Edifício Itália – República
  • Temporada: Até 26 de julho; aos sábados, às 20h; e domingos, às 19h
  • Ingressos: De R$ 50 a R$ 100
  • Vendas: Sympla ou na bilheteria (exclusivamente nos dias de espetáculo, com 2 horas de antecedência até o início da apresentação)

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