'Surf é instrumento de transformação', diz paratleta vice-campeã 50+
Arquivo pessoal/Maria do Sol
São Paulo - Em novembro, a paratleta do surf Maria do Sol poderá ser a primeira brasileira 50+ na categoria a competir por um mundial na Califórnia, Estados Unidos. Atualmente, ela carrega na bagagem o primeiro lugar no campeonato brasileiro em 2024 e vice em 2025, além de estar atualmente no top 5 do ranking mundial de parasurf.
Amputada de ambos os pés aos 45 dias de vida, a catarinense transformou a necessidade de se adaptar em estilo de vida. Mãe de cinco filhas, avó de dois netos e casada com seu atual treinador, ela divide a rotina familiar com as praias de Florianópolis (SC) e com a atuação profissional como mentora e palestrante.
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Em entrevista ao VIVA, Maria contou que sua trajetória no paradesporto começou após passagens pelo hipismo profissional e pelo remo adaptado. Há pouco mais de três anos, encontrou nas ondas a sua principal vocação:
O surf é um instrumento de cura, de transformação, de treino da coragem, presença, desconexão da internet. Tem uma coisa muito aventureira em você correr para pegar uma onda, e estar ali no mar."
Sem barreiras de idade, mas com desafios de patrocínio
Maria do Sol explica que no parasurf, as categorias não são divididas por faixa etária, mas pelo tipo de deficiência ou adaptação necessária. Essa dinâmica permite que atletas experientes dividam o mesmo espaço com competidores jovens, o que favorece uma experiência intergeracional que ajuda a dissolver o etarismo.
Eu surfei no Havaí este ano com uma menina que tem 17 anos, porque a gente está na mesma modalidade. É muito legal porque aquele etarismo todo some, se dissolve. Somos apenas duas surfistas surfando a mesma onda."
Apesar do alto rendimento e da visibilidade crescente da categoria 50+, o cenário financeiro para os paratletas brasileiros ainda é desafiador, diz Maria.
"Se você for olhar o brasileiro paratleta, o Brasil é o país com maior número de medalha mundialmente, inclusive no parasurf; é muita gente com medalha, então deveria ter muito mais apoio. Tem empresas, tem leis, mas não chega pra gente."
Além das competições, Maria do Sol usa a visibilidade nas redes sociais para promover uma visão realista e desmistificada sobre a pessoa com deficiência. Ela diz que recusa rótulos vitimistas e defende a conscientização por meio do exemplo prático.
A pessoa com deficiência, assim como a pessoa negra, com diferença de gênero ou acima de 60 anos, enfrenta questões específicas que são preconceitos sociais, limitações do mundo para a inserção, e o olhar de uma sociedade que ainda está sendo educada para enxergar apenas diferenças."
Representatividade e superação nas redes sociais
A surfista pontua que a realidade da pessoa com deficiência no Brasil varia de acordo com o acesso a recursos e ressalta que as políticas públicas ainda ficam aquém da necessidade de uma parcela expressiva da população. "Eu me posiciono não como uma pessoa com deficiência, mas uma pessoa que tem um corpo com deficiência e que vive, trabalha, tem filhos, é casada, tem toda a configuração de uma vida e tem as adaptações para isso."
Diante disso, escolheu usar suas redes sociais para educar pelo exemplo, sem adotar um tom que considera "coitadismo": "Na maioria dos meus posts, eu mostro meu corpo inteiro para que a pessoa consiga ter um pouco mais de educação no tema. A rede social traz muito esse lugar de desmistificar, de trazer para perto, de quebrar barreiras", afirma.
Sabedoria ao completar 50 anos
Ao refletir sobre a chegada aos 50 anos, Maria do Sol ressalta a importância de cuidar da saúde emocional para ressignificar dores do passado e até perdas financeiras e divórcios, buscando uma vivência com menos cobranças:
Acho que uma das coisas mais sábias que a gente tem quando chega nos 50+ é começar a entender muito melhor aquilo que realmente importa. Hoje tenho uma relação com o tempo mais sábia, mais inteligente. O que nos acontece serve para aprendizado, apenas isso: não é para nos marcar, é para nos lapidar."
Ela diz que a busca por equilíbrio reflete diretamente em sua performance na água e na forma como enxerga sua própria trajetória futura no esporte de alto rendimento:
"Eu me vejo fazendo escolhas muito mais pelo amor, muito menos pelo ego, muito mais pela qualidade de vida do que pela realização de ter uma medalha. Eu estou vencendo a mim mesma todos os dias. Não em um lugar de 'eu preciso vencer', mas de 'que legal que eu estou ali fazendo isso'. Quais as possibilidades? Uma mãe de cinco, sem os dois pés aos 50 anos, e estar surfando", conclui.
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