Boxe atrai pessoas 60+ e contribui para equilíbrio e qualidade de vida
Arquivo pessoal
São Paulo - Aos 64 anos, Rosângela Abreu decidiu procurar uma atividade física por motivos de saúde. A escolha acabou recaindo sobre uma modalidade que muitas pessoas ainda associam apenas às lutas profissionais: o boxe. Cerca de dez meses depois de iniciar os treinos, ela percebe mudanças que vão além do condicionamento físico.
Tropeço muito menos, canso menos e me movimento com mais agilidade, equilíbrio e disposição", conta.
A experiência de Rosângela reflete um movimento cada vez mais presente nas academias. Adaptado para diferentes níveis de condicionamento e realizado sem contato físico, o boxe recreativo tem atraído pessoas 60+ interessadas em preservar a mobilidade, equilíbrio, coordenação motora e força muscular.
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A prática também está alinhada às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que orienta idosos a realizarem atividades físicas regulares com exercícios aeróbicos, fortalecimento muscular e estímulos ao equilíbrio e à coordenação.
"Precisava me exercitar por questões de saúde e gosto da dinâmica das lutas. Conhecer o treinador, saber da paciência e qualidade técnica facilitou a escolha", relata Rosângela.
Ela afirma que os treinos incluem exercícios de equilíbrio, agilidade e preparo físico, fatores que trouxeram reflexos diretos para sua rotina.
"As aulas são sempre um desafio, o professor não facilita para mim, mas perceber a evolução é muito bom. Não tive a preocupação de saber se era para a minha idade ou não", afirma.
Para ela, hoje o boxe "é o melhor esporte" e reforça a importância da prática de atividades físicas, especialmente entre pessoas 60+, para quem o exercício nem sempre é prioridade, mas é essencial.
Encontrei no boxe e na metodologia utilizada pelo professor algo que me é extremamente agradável e que me prepara para diversas situações do dia a dia, como andar em calçadas esburacadas ou desniveladas sem cair, além da defesa pessoal. Em momento nenhum tive medo de me machucar."
Boxe vai muito além dos golpes
Segundo o treinador Leonardo Pimentel, formado pela Federação de Boxe do Estado do Rio de Janeiro e responsável pela academia Boxing Training Lab, onde Rosângela treina, a maior barreira para novos praticantes ainda é o preconceito em relação à modalidade.
"Em geral, existe um grande tabu: a população acredita que o boxe é apenas para quem quer lutar. Isso não é verdade. Atualmente, 97% dos praticantes de boxe [da academia] buscam saúde e qualidade de vida. Apenas 3% querem, de fato, se tornar lutadores", pontua.
Ele acompanha Rosângela desde o início dos treinos e afirma que o público mais velho costuma demonstrar elevado comprometimento com a saúde. "Raramente essas pessoas faltam aos treinos ou chegam atrasadas. Demonstram dedicação, fazem tudo o que é proposto e gostam de desafios."
Treinos são adaptados para respeitar os limites
Embora os fundamentos técnicos sejam os mesmos ensinados aos atletas, a metodologia aplicada aos idosos prioriza segurança e progressão gradual. Leonardo explica que as aulas têm intensidade reduzida, não incluem contato físico e recebem adaptações conforme as necessidades individuais.
"Respeitamos o ritmo e os limites de cada aluno. Damos mais ênfase ao aquecimento das articulações, aos exercícios de mobilidade, ao trabalho de equilíbrio e a atividades que desenvolvam o lado cognitivo, além de estimular os reflexos e a tomada de decisão. O foco não é a performance técnica."
Na avaliação do treinador, os ganhos aparecem tanto no corpo quanto na saúde mental. Para ele, o boxe ajuda o aluno a superar desafios e perceber a própria evolução. "Aos poucos, ele entende que consegue realizar movimentos que antes pareciam impossíveis. Isso fortalece a confiança", afirma.
Fisicamente, ele destaca melhorias no equilíbrio, fortalecimento dos membros superiores e inferiores, estabilidade do tronco, coordenação e capacidade de reação. Entre os resultados observados em alunos que começaram a modalidade após os 60 anos estão melhora da coordenação motora, perda de peso e maior disposição para as atividades diárias.
Movimentos do boxe estimulam o cérebro
A profissional de educação física Maíra Viana, especialista em Geriatria e Gerontologia, utiliza exercícios inspirados no boxe em programas voltados para idosos. De acordo com ela, a modalidade oferece estímulos que vão além da movimentação dos braços.
Durante uma sequência, o aluno precisa observar o estímulo, compreender o comando, organizar o movimento e responder com os braços. Posso utilizar alvos, cores, números, comandos verbais ou diferentes direções. Assim, o exercício deixa de ser uma repetição automática e se transforma em um desafio para o corpo e o cérebro".
Ela ressalta que os movimentos favorecem coordenação motora, mobilidade dos ombros, tempo de reação e controle postural, habilidades importantes para tarefas cotidianas como vestir roupas, alcançar objetos e manter o equilíbrio diante de um tropeço.
Para Maíra, o sucesso da prática começa antes mesmo do primeiro treino. A primeira adaptação acontece durante a avaliação feita por um especialista.
"Observamos o histórico de saúde, a mobilidade dos ombros, a força, o equilíbrio, a capacidade de compreender comandos, a presença de dor, a fadiga e a segurança para permanecer em pé", explica.
Ela conta que os exercícios podem ser realizados sentados, com apoio ou em pé, com ajustes de velocidade, amplitude dos movimentos e tempo de recuperação, conforme as condições de cada praticante.
O alvo pode ficar mais próximo, os movimentos podem ter menor amplitude e a velocidade pode ser reduzida. A segurança não está em tornar toda atividade fácil, mas em oferecer o desafio certo, para a pessoa certa, no momento certo", pontua.
Pessoas com Parkinson, limitações de mobilidade ou fragilidade também podem participar, desde que recebam acompanhamento adequado e, quando necessário, autorização de um profissional.
"Em algumas situações, é indispensável obter liberação médica e trabalhar em conjunto com fisioterapeutas e outros profissionais. A contraindicação, muitas vezes, não é ao movimento inspirado no boxe em si, mas à intensidade, à posição ou ao tipo de desafio escolhido", destaca.
Enquanto cresce o interesse pela modalidade entre pessoas mais velhas, a especialista reforça que o objetivo não é formar lutadores, mas utilizar o boxe como ferramenta para preservar a independência funcional, estimular a atividade física e contribuir para um envelhecimento mais ativo e seguro.
Meu papel não é provar que o aluno consegue fazer qualquer exercício. É encontrar uma forma segura para que ele continue se movimentando, evoluindo e reconhecendo que ainda existe muita capacidade dentro dele", conclui a especialista.
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