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Boxe atrai pessoas 60+ e contribui para equilíbrio e qualidade de vida

Arquivo pessoal

Modalidade do boxe adaptado conquista pessoas 60+ que buscam melhorar mobilidade, equilíbrio e autonomia - Arquivo pessoal
Modalidade do boxe adaptado conquista pessoas 60+ que buscam melhorar mobilidade, equilíbrio e autonomia
Por Alexandre Barreto

08/08/2026 | 12h55

São Paulo - Aos 64 anos, Rosângela Abreu decidiu procurar uma atividade física por motivos de saúde. A escolha acabou recaindo sobre uma modalidade que muitas pessoas ainda associam apenas às lutas profissionais: o boxe. Cerca de dez meses depois de iniciar os treinos, ela percebe mudanças que vão além do condicionamento físico.

Tropeço muito menos, canso menos e me movimento com mais agilidade, equilíbrio e disposição", conta.

A experiência de Rosângela reflete um movimento cada vez mais presente nas academias. Adaptado para diferentes níveis de condicionamento e realizado sem contato físico, o boxe recreativo tem atraído pessoas 60+ interessadas em preservar a mobilidade, equilíbrio, coordenação motora e força muscular.

A prática também está alinhada às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que orienta idosos a realizarem atividades físicas regulares com exercícios aeróbicos, fortalecimento muscular e estímulos ao equilíbrio e à coordenação.

Rosângela Abreu começou a treinar boxe com o treinador Leonardo Pimentel
Rosângela Abreu começou a treinar boxe com o treinador Leonardo Pimentel - Arquivo pessoal

"Precisava me exercitar por questões de saúde e gosto da dinâmica das lutas. Conhecer o treinador, saber da paciência e qualidade técnica facilitou a escolha", relata Rosângela.

Ela afirma que os treinos incluem exercícios de equilíbrio, agilidade e preparo físico, fatores que trouxeram reflexos diretos para sua rotina.

"As aulas são sempre um desafio, o professor não facilita para mim, mas perceber a evolução é muito bom. Não tive a preocupação de saber se era para a minha idade ou não", afirma.

Para ela, hoje o boxe "é o melhor esporte" e reforça a importância da prática de atividades físicas, especialmente entre pessoas 60+, para quem o exercício nem sempre é prioridade, mas é essencial.

Encontrei no boxe e na metodologia utilizada pelo professor algo que me é extremamente agradável e que me prepara para diversas situações do dia a dia, como andar em calçadas esburacadas ou desniveladas sem cair, além da defesa pessoal. Em momento nenhum tive medo de me machucar."

Boxe vai muito além dos golpes

Segundo o treinador Leonardo Pimentel, formado pela Federação de Boxe do Estado do Rio de Janeiro e responsável pela academia Boxing Training Lab, onde Rosângela treina, a maior barreira para novos praticantes ainda é o preconceito em relação à modalidade.

"Em geral, existe um grande tabu: a população acredita que o boxe é apenas para quem quer lutar. Isso não é verdade. Atualmente, 97% dos praticantes de boxe [da academia] buscam saúde e qualidade de vida. Apenas 3% querem, de fato, se tornar lutadores", pontua.

Ele acompanha Rosângela desde o início dos treinos e afirma que o público mais velho costuma demonstrar elevado comprometimento com a saúde. "Raramente essas pessoas faltam aos treinos ou chegam atrasadas. Demonstram dedicação, fazem tudo o que é proposto e gostam de desafios."

O treinador Leonardo acompanha Rosângela desde o início dos treinos
O treinador Leonardo acompanha Rosângela desde o início dos treinos - Arquivo pessoal

Treinos são adaptados para respeitar os limites

Embora os fundamentos técnicos sejam os mesmos ensinados aos atletas, a metodologia aplicada aos idosos prioriza segurança e progressão gradual. Leonardo explica que as aulas têm intensidade reduzida, não incluem contato físico e recebem adaptações conforme as necessidades individuais.

"Respeitamos o ritmo e os limites de cada aluno. Damos mais ênfase ao aquecimento das articulações, aos exercícios de mobilidade, ao trabalho de equilíbrio e a atividades que desenvolvam o lado cognitivo, além de estimular os reflexos e a tomada de decisão. O foco não é a performance técnica."

Na avaliação do treinador, os ganhos aparecem tanto no corpo quanto na saúde mental. Para ele, o boxe ajuda o aluno a superar desafios e perceber a própria evolução. "Aos poucos, ele entende que consegue realizar movimentos que antes pareciam impossíveis. Isso fortalece a confiança", afirma.

Fisicamente, ele destaca melhorias no equilíbrio, fortalecimento dos membros superiores e inferiores, estabilidade do tronco, coordenação e capacidade de reação. Entre os resultados observados em alunos que começaram a modalidade após os 60 anos estão melhora da coordenação motora, perda de peso e maior disposição para as atividades diárias.

Movimentos do boxe estimulam o cérebro

A profissional de educação física Maíra Viana, especialista em Geriatria e Gerontologia, utiliza exercícios inspirados no boxe em programas voltados para idosos. De acordo com ela, a modalidade oferece estímulos que vão além da movimentação dos braços.

Durante uma sequência, o aluno precisa observar o estímulo, compreender o comando, organizar o movimento e responder com os braços. Posso utilizar alvos, cores, números, comandos verbais ou diferentes direções. Assim, o exercício deixa de ser uma repetição automática e se transforma em um desafio para o corpo e o cérebro".
A educadora física Maíra Viana utiliza exercícios inspirados no boxe na fisioterapia de idosos
A educadora física Maíra Viana utiliza exercícios inspirados no boxe na fisioterapia de idosos - Arquivo pessoal

Ela ressalta que os movimentos favorecem coordenação motora, mobilidade dos ombros, tempo de reação e controle postural, habilidades importantes para tarefas cotidianas como vestir roupas, alcançar objetos e manter o equilíbrio diante de um tropeço.

Para Maíra, o sucesso da prática começa antes mesmo do primeiro treino. A primeira adaptação acontece durante a avaliação feita por um especialista.

"Observamos o histórico de saúde, a mobilidade dos ombros, a força, o equilíbrio, a capacidade de compreender comandos, a presença de dor, a fadiga e a segurança para permanecer em pé", explica.

Ela conta que os exercícios podem ser realizados sentados, com apoio ou em pé, com ajustes de velocidade, amplitude dos movimentos e tempo de recuperação, conforme as condições de cada praticante.

O alvo pode ficar mais próximo, os movimentos podem ter menor amplitude e a velocidade pode ser reduzida. A segurança não está em tornar toda atividade fácil, mas em oferecer o desafio certo, para a pessoa certa, no momento certo", pontua.
Pessoas 60+ atendidas por Maíra aderem à modalidade do boxe adaptado
Pessoas 60+ atendidas por Maíra aderem à modalidade do boxe adaptado - Arquivo pessoal

Pessoas com Parkinson, limitações de mobilidade ou fragilidade também podem participar, desde que recebam acompanhamento adequado e, quando necessário, autorização de um profissional.

"Em algumas situações, é indispensável obter liberação médica e trabalhar em conjunto com fisioterapeutas e outros profissionais. A contraindicação, muitas vezes, não é ao movimento inspirado no boxe em si, mas à intensidade, à posição ou ao tipo de desafio escolhido", destaca.

Enquanto cresce o interesse pela modalidade entre pessoas mais velhas, a especialista reforça que o objetivo não é formar lutadores, mas utilizar o boxe como ferramenta para preservar a independência funcional, estimular a atividade física e contribuir para um envelhecimento mais ativo e seguro.

Meu papel não é provar que o aluno consegue fazer qualquer exercício. É encontrar uma forma segura para que ele continue se movimentando, evoluindo e reconhecendo que ainda existe muita capacidade dentro dele", conclui a especialista.

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