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Efeito Elvis: como a musicoterapia pode ajudar pacientes com demência

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A música tem poder terapêutico eficiente, embora momentâneo, em pacientes com quadros demenciais - Envato
A música tem poder terapêutico eficiente, embora momentâneo, em pacientes com quadros demenciais
Por Paula Bulka Durães

24/02/2026 | 09h03 ● Atualizado | 09h04

São Paulo, 24/02/2026 – No leito do hospital, Adolpho Grossi, aos 87 anos, recupera brevemente a lucidez, mesmo com Alzheimer avançado, e batuca nas superfícies ao redor como se tocasse um pandeiro. Com a voz bem postada, ele cantarola ao ritmo de Adoniran Barbosa e descreve aos filhos e netos o momento e o cenário exatos em que se conectou com a música na juventude. O que parece um lapso desconexo é, na verdade, um elo cognitivo que surpreende cientistas e neurologistas dedicados ao estudo da memória.

Poucos dias depois, o paciente faleceu por complicações clínicas não diretamente ligadas à doença, motivo pelo qual estava internado havia 20 dias. Isso aconteceu em fevereiro de 2025.

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Segundo o especialista em antropologia médica da Harvard University, David Amorim, a música tem poder terapêutico eficiente, embora momentâneo, em pacientes com quadros demenciais, sobretudo idosos.

Não existem muitas evidências que a música tem efeitos a longo prazo na cura da demência, mas ela ajuda muito em pessoas que estão com ansiedade, com depressão, agitadas, principalmente no Alzheimer avançado. A musicoterapia é extremamente efetiva em conseguir aliviar esses sintomas a curto prazo".

Esses momentos de lucidez e conexão com a música em pacientes com demência são o que Amorim apelidou de “Efeito Elvis”, após visitar residenciais de idosos no Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos.

"Eu vi residentes cuja demência avançada os havia despojado da capacidade de se comunicar, mas quando uma canção familiar da juventude tocava, eles se animavam e podiam cantar cada palavra. Acontecia frequentemente com músicas de Elvis. É como se, por um momento, a melodia dissipasse a névoa da demência", diz o pesquisador brasileiro em Harvard.

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No entanto, na era das plataformas de streaming, em que os gostos musicais são cada vez mais hiperpersonalizados, como saber qual música marcou a infância e a juventude das gerações mais novas? Se antes as paradas de rádio dominavam o gosto popular, hoje indivíduos da mesma idade cultivam preferências bem distintas.

"Temos milhões de artistas e algoritmos que personalizam implacavelmente cada experiência de escuta. Cuidadores daqui a 60 anos provavelmente não terão o tempo ou as habilidades de arqueologia digital para encontrar uma música perdida que te emocione no palheiro do esquecimento no streaming", explica Amorim. Por isso, ele aconselha as pessoas mais próximas a criarem uma playlist personalizada, que traga memórias afetivas.

Os registros ocorrem principalmente no chamado "pico de reminiscência", período entre os 13 e 25 anos, em que o cérebro armazena memórias mais vívidas, diz Amorim.

A música que você ouvia na sua adolescência vai grudar mais num cérebro do que uma música que você tinha ouvido 10 ou 15 anos antes de desenvolver uma demência."
Adolpho, idoso com Alzheimer, e o neto Rafael tiram selfie mostrando suas camisas de time de futebol.
Adolpho Grossi, 87, e o neto Rafael Grossi, 20 - Acervo Pessoal

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Na família Grossi, tradicionais moradores do bairro Casa Verde, na zona norte de São Paulo, SP, o “Efeito Elvis” não foi diferente. O fenômeno ganhou outra trilha sonora: o samba-canção de Nelson Gonçalves e, principalmente, de Adoniran Barbosa.

"Quando colocávamos as músicas da época dele para ouvir, ele automaticamente puxava memórias de coisas que ele fazia na época", relata o filho Eduardo Fuentes Grossi, de 51 anos.

Na lembrança de quem fica, salvar hoje as próprias músicas é um ato de autocuidado para o amanhã. “O samba, Adoniran Barbosa, eu acabo escutando bastante também, faz me lembrar muito dele. Eu comecei a gostar, meu pai sempre me apresentava as músicas mais antigas da época, às vezes eu vou indo pro trabalho ouvindo a música", compartilha o neto de Adolpho, Rafael Grossi, 20.

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Dicas para criar uma playlist afetiva

O pesquisador recomenda resgatar anualmente as retrospectivas sonoras que as plataformas oferecem, como o Spotify Wrapped. "Algo que as empresas não conseguem fazer é dar uma característica do que essa música significava para você. Logo, é importante considerar fazer anotações do tipo, 'essa foi a música da minha valsa de 15 anos", detalha.

  • Salve, todos os anos, a retrospectiva sonora do seu aplicativo de áudio;
  • Anote, da forma que preferir, em qual situação escutou a música predileta;
  • Foque nas músicas que você consumia dos 13 aos 25 anos de idade.

Outra dica é criar uma ligação multissensorial com a canção, para além da audição. “A música tem um potencial muito especial nesse sentido de conseguir acessar sensorialmente várias áreas do cérebro. Aprenda um instrumento, uma dança, algo que lhe engaje mais com isso. Pode ajudar bastante a criar ainda mais uma força na possível eficácia da musicoterapia", diz David Amorim.

Como obter o histórico do consumo de música?

Quem detém os dados de consumo sonoro são as big techs (grandes empresas de tecnologia) por trás das plataformas de streaming, conglomerados que traçam perfis psicológicos dos usuários com base na interação com o aplicativo. Para o CEO da Dinamo Networks, Marco Zanini, essa informação é o “novo petróleo” da modernidade.

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"As big techs não disponibilizam esse histórico nosso de consumo de música, embora elas tenham tudo isso coletado. As empresas vão dificultar enquanto a lei permitir, porque isso é uma fonte de renda”, expõe.

A saída, enquanto esses dados permanecem restritos, é mapear o histórico de audição por conta própria.

O especialista em tecnologia tem visão mais otimista e prevê um cenário em que as pessoas terão uma "carteira digital" (wallet) no celular, serão donas dos próprios dados e poderão autorizar musicoterapeutas ou médicos a acessar o histórico de streaming para cruzar informações. "Olhando pelo lado do bem, realmente isso vai acelerar muito as terapias de um modo geral. A hora que conseguirmos ter acesso ao nosso histórico, isso vai ser muito proveitoso", diz Zanini.

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