Febre da nostalgia: como o passado se tornou tendência entre 50+ e jovens
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São Paulo - Quem disse que nostalgia é coisa do passado? A geração 50+ está provando o contrário ao lotar estádios para reviver a trilha sonora de uma vida inteira. O retorno de bandas clássicas como Titãs, Barão Vermelho, Kid Abelha, Simply Red e Oasis tem sido sucesso de bilheteria.
Mas esse fenômeno foi além dos pais e mães. Ele acabou arrastando uma multidão de jovens que aprenderam a amar esses artistas em casa ou que estão aproveitando as turnês nacionais e internacionais para desbravar novas referências musicais.
A verdade é que a nostalgia nunca esteve tão forte. Esse crescente interesse pela cultura das décadas de 1970, 80 e 90, contudo, vai muito além de uma simples tendência de moda ou consumo.
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Defesa contra o ritmo do mundo moderno
Segundo a psicóloga clínica com prática orientada pela fenomenologia existencial, Fabiana Duarte, esse saudosismo é, antes de tudo, uma resposta à aceleração da vida moderna e às incertezas do cenário contemporâneo. Do ponto de vista psicológico, ela destaca que a nostalgia atua como um verdadeiro "mecanismo de defesa existencial".
O futuro, com suas constantes exigências de escolhas, é um território marcado pela incerteza e pela angústia. Em contrapartida, o passado oferece um terreno estável, seguro. É um lugar com começo, meio e fim, onde o repertório de memórias já está consolidado.”
Segundo Fabiana, nossa mente realiza um filtro positivo ao acessar essas memórias, selecionando os melhores momentos para criar um ambiente de conforto. "Funciona como um abraço mental em tempos de instabilidade global, como crises econômicas e os efeitos prolongados do pós-pandemia”.
Estafa digital
Esse "boom" nostálgico também surge como uma reação direta ao cansaço gerado pela era digital. A facilidade do consumo instantâneo , onde tudo está a um clique de distância no streaming ou nas redes sociais , acabou eliminando os rituais que davam ritmo à nossa rotina.
“No passado, o ritmo era outro. Se você queria ouvir uma música, precisava ir até uma loja, comprar o LP ou a fita cassete, voltar para casa e colocar no aparelho para, finalmente, curtir aquele momento. Na TV, para ver um desenho animado, havia um horário fixo. Hoje, a vida é imediata e automática. O interesse pelo vintage reflete uma busca consciente por desaceleração e presença”, complementa Fabiana.
Fenômeno cíclico e a tecnologia
Para o jornalista e empreendedor André Forastieri, o ressurgimento de conteúdos do passado é um movimento natural e cíclico, que ganha força à medida que as gerações amadurecem. Ele lembra que essa busca não é exclusividade dos tempos atuais.
“Nos anos 1970, por exemplo, o público cultuava a série Happy Days e o filme American Graffiti, do George Lucas, que eram homenagens explícitas aos anos 1950. A diferença crucial hoje é o acesso”, pontua.
O jornalista explica que a tecnologia atua como um acelerador desse processo, permitindo que hoje se tenha acesso a informações de diversas épocas e locais.
“Nos anos 70, 80 ou 90, se você quisesse ouvir toda a obra dos Beatles, assistir aos filmes de John Ford ou aos desenhos da Hanna-Barbera, era uma missão quase impossível. Com a chegada do VHS, você ainda dependia de a fita estar disponível na locadora. Hoje, consumimos qualquer coisa, de qualquer lugar do mundo, instantaneamente. Isso é um facilitador gigante para a nostalgia.”
No entanto, Forastieri faz um importante alerta para que não se caia na armadilha da idealização cega do passado ou no saudosismo ranzinza. Ele lembra que nos anos 70, as pessoas iam ao cinema e reclamavam que não se faziam mais clássicos como nos anos 40. No final dos anos 80, críticos diziam que a Jovem Guarda ou o rock dos Paralamas do Sucesso eram "uma porcaria" perto da Bossa Nova de João Gilberto ou do samba de Ari Barroso.
Cada época tem seu ápice e suas particularidades. A nostalgia, quando bem dosada, é uma ponte; quando exagerada, vira uma barreira que nos impede de avançar e de enxergar que também há muita coisa boa sendo produzida hoje."
Tecnologia e nostalgia
Outro fator fundamental é que a tecnologia transformou a nostalgia em uma experiência social ativa e comunitária. Antigamente, se você gostava de um gênero de nicho ou de um artista do passado, era muito difícil encontrar pessoas com o mesmo interesse. Hoje, o digital resolveu essa barreira geográfica de forma instantânea.
"Se você morasse em Sorocaba anos atrás e fosse apaixonado por tango ou por colecionar gibis antigos, como você encontraria seus pares? Hoje, você entra em um grupo no Facebook ou WhatsApp, digita a palavra-chave e, em minutos, está conversando com centenas de pessoas que compartilham da mesma obsessão. Vocês debatem obras, mostram raridades e marcam encontros presenciais. O digital facilitou muito a fruição e o agrupamento em torno desses amores e nostálgicas paixões", explica.
A volta do físico
Esse desejo de se agrupar e tocar no passado tem gerado outro fenômeno surpreendente: a volta da valorização do produto físico. Em um mundo onde tudo é intangível e distribuído via nuvem, o público, inclusive o mais jovem, está redescobrindo o prazer do toque.
"Quanto mais digital a nossa vida fica, mais nós queremos nos reconectar com o material", analisa o jornalista.
Esse movimento explica o crescimento de eventos como a Retrocon (focada em videogames antigos) e encontros de carros clássicos, bem como a ressurreição de mídias analógicas. André lembra que hoje temos artistas novos lançando músicas no Spotify, mas também vendendo versões caprichadas em vinil, CDs e até fitas cassete. Além disso, ele avalia que o mercado de livros e quadrinhos físicos continua fortíssimo.
Eu mesmo lancei recentemente uma versão impressa da revista Herói, que fez sucesso nos anos 90, e a resposta das pessoas em querer ter aquele papel na mão, colecionar e guardar na estante, é fantástica. Nós queremos materializar a vida de novo."
Finitude vs. curiosidade
O mais interessante desse movimento é ver como ele atinge públicos em extremos opostos da vida:
Para os 50+: A nostalgia é uma ferramenta para lidar com a finitude, uma oportunidade de reviver sonhos e reencontrar a própria identidade.
Para a Geração Z: O interesse pelo passado nasce da curiosidade pura de explorar uma época que não viveram, mas que parece oferecer a calma, a profundidade e a tangibilidade que o excesso de telas e informações atual lhes rouba.
No fim, a nostalgia funciona como uma âncora. “Nós fugimos para o passado para recordar e nos abastecer daquilo que nos faz bem, garantindo uma sensação de segurança que o futuro, por ser incerto, não consegue nos dar”, avalia Fabiana.
Nostalgia sem armadilha
Diante de uma abundância de conteúdo disputando nossa atenção, fazer um resgate de qualidade do passado sem ficar dependente das sugestões automáticas das redes sociais requer uma curadoria humana.
"Se você confiar apenas no que o Instagram, o YouTube ou o TikTok colocam no seu feed, sua experiência será extremamente limitada e repetitiva. O algoritmo é excelente para te dar o que você já quer, mas ele raramente vai te apresentar algo que você não sabe que quer, mas adoraria descobrir", ressalta André.
O jornalista sugere que os leitores busquem canais de comunicação focados no fator humano.
"O caminho é conectar-se com pessoas, grupos ou veículos de confiança. Assinar newsletters especializadas (como na plataforma Substack), acompanhar canais de criadores focados em garimpar o passado ou ouvir podcasts dedicados ao tema nos permite trocar ideias, receber recomendações valiosas e interagir de verdade. O resgate da memória e da cultura só é pleno quando gera diálogo."
E você? Qual banda você faria questão de ver de perto em uma turnê de retorno? E qual objeto físico do passado você não abre mão de ter na sua estante? Conta para a gente aqui nos comentários!
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