Capacitismo recreativo: deficiências são usadas como entretenimento on-line
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São Paulo - As pessoas com deficiências (PcDs) se tornaram um nicho de produção de conteúdo na internet. A comunicadora e ativista Amanda Soares, @pcdperigosa nas redes sociais, questiona como o material que mostra PcDs muitas vezes se resume a um conteúdo vexatório fantasiado de humor.
Esses vídeos também são questionado pela secretária nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SNDPD) do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Isadora Rodrigues. Ela aponta como a exposição de PcDs na internet é colocada de forma a reforçar estereótipos preconceituosos.
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A secretária nacional afirma que a sociedade tem uma "mania constante de tratar preconceitos como piada". Ela pontua que o capacitismo é estrutural:
Vai organizar a forma com que as pessoas são percebidas, definindo quais são os corpos considerados normais e quais são os corpos vistos como inadequados ou como objeto de curiosidade e até de piada mesmo", afirma.
Capacitismo recreativo
Esses vídeos que usam a deficiência como humor são caracterizados como "capacitismo recreativo", quando a discriminação aparece como piada ou expressões pejorativas.
O conteúdo vexatório também pode reforçar a ideia de que PcDs são ou estão doentes, como se não fossem capazes de executar determinadas atividades ou ainda que tenham tarefas simples supervalorizadas. A secretária nacional pontua que reforçar um estereótipo de "coitado, incapaz, que não pode acessar lugares" dificulta a ruptura da cultura capacistista.
Segundo o Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, considerando dificuldades permanentes de visão, audição, mobilidade, coordenação motora fina e funções mentais, além 2,4 milhões de autistas com diagnóstico confirmado.
Vídeos de rotina de cuidados
Produzir conteúdo se tornou um meio de rentabilizar a defiência. Por exemplo, as pessoas tem curiosidade para saber como uma pessoa com nanismo dirige, ou como uma pessoa com mobilidade reduzida toma banho ou come. Vídeos com milhares de visualizações tornam possível fazer dinheiro com a plataforma.
Ao mesmo tempo que esse compartilhamento pode ajudar cuidadores e PcDs com dicas e produtos, também especulariza o cotidiano daquela pessoa frente à câmera. Um cenário que coloca em debate o limite entre o típico compartilhamento de rotina dos influenciadores e a exposição da imagem da pessoa com deficiência.
Muitos cuidadores ganham dinheiro na internet ao mostrar esse processo íntimo da rotina de cuidados e adaptação. Amanda, enquanto pessoa com deficiência que produz conteúdo para a internet, questiona qual é o limite:
"Até onde uma pessoa com deficiência intelectual que está sendo cuidada quer ser filmada tomando banho? Até onde uma pessoa que não tem a possibilidade de mexer o corpo, queria estar ali sendo vista trocando a fralda? A gente não dialoga sobre isso."
A secretária nacional defende que PcDs precisam ser os contadores da própria história.
Ao transformar a narrativa para a própria pessoa com deficiência contar sua história, a gente quebra um pouco dessa dessa estrutura capacitista. A gente precisa olhar para isso partindo da ideia de dignidade da pessoa humana", disse.
Visibilidade
Isadora Rodrigues ainda lembra como as pessoas com deficiência são vistas e tratadas pela sociedade há milhares de anos. "Historicamente, elas foram invisibilizadas ou retratadas de uma forma muito distorcida, caricata, sempre pela perspectiva do preconceito."
Amanda Soares defende que, mesmo que esta não seja a forma ideal, foi assim que essas pessoas encontraram visibilidade.
Por que esse boom das pessoas com deficiência na internet? A internet virou nossa rua, a única forma que a gente tem para poder conversar, muitas vezes", disse.
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