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Projeto une ciência e educação ambiental para proteger tubarões no RJ

Hilaea Midia/Projeto EcoShark

EcoShark estuda tubarões do litoral carioca e desenvolve ações de educação ambiental para mostrar a importância desses predadores marinhos - Hilaea Midia/Projeto EcoShark
EcoShark estuda tubarões do litoral carioca e desenvolve ações de educação ambiental para mostrar a importância desses predadores marinhos
Por Alexandre Barreto

04/07/2026 | 08h40

São Paulo - Nas águas do Rio de Janeiro, uma iniciativa vem provando que a ciência e a tradição podem caminhar juntas para proteger o topo da cadeia alimentar marinha. O Projeto EcoShark, coordenado pela bióloga e professora Mariana Batha Alonso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o AquaRio, une pesquisadores, instituições e pescadores locais em uma missão urgente: decifrar os mistérios dos tubarões que vivem no litoral carioca.

O projeto investiga desde a migração das espécies até os efeitos da poluição causada pelo descarte inadequado de medicamentos e outros contaminantes. Além de produzir informações inéditas sobre espécies ameaçadas, a pesquisa busca preencher lacunas históricas sobre a presença de tubarões no Rio de Janeiro.

Entre os estudos já desenvolvidos estão análises de órgãos de animais capturados acidentalmente, monitoramento por telemetria via satélite, avaliações sobre contaminantes químicos e ações de conscientização junto às comunidades pesqueiras.

O EcoShark realiza o monitoramento de exemplares vivos por meio de transmissores via satélite
O EcoShark realiza o monitoramento de tubarões por meio de transmissores via satélite - Hilaea Midia/Projeto EcoShark

Segundo Mariana, a iniciativa nasceu da união entre uma oportunidade científica e uma necessidade de conservação. Entre 2018 e 2020, a equipe de pesquisadores começou a receber tubarões capturados acidentalmente por pescadores.

“Coletávamos cabeças e órgãos e armazenávamos todo esse material porque sabíamos que, em algum momento, seria possível estudá-lo. Tínhamos as amostras, estudantes interessados e perguntas científicas importantes, mas faltava financiamento."

Quando surgiu um edital da FAPERJ, em 2020, a equipe conseguiu estruturar o projeto, que recebeu o nome de EcoShark, voltado para a ecologia e conservação dos tubarões do Rio de Janeiro.

Quantas espécies de tubarão existem no Brasil?

Apesar da extensa costa brasileira, ainda existem poucas informações sobre as diversas espécies de tubarões que vivem na região Sudeste. Questões como tamanho das populações, áreas de reprodução, locais de nascimento e rotas migratórias continuam sendo pouco conhecidas.

Para reduzir essas lacunas, o EcoShark reúne diferentes linhas de pesquisa. Além da análise de animais mortos ou capturados pela pesca, a equipe monitora tubarões vivos por satélite para identificar deslocamentos, áreas de alimentação, maternidade e reprodução. Segundo a pesquisadora, até 2021 nenhum tubarão vivo havia sido capturado no Rio de Janeiro para monitoramento por transmissores.

"Foi um desafio enorme porque precisávamos capturar o animal sem causar sua morte. Tivemos apoio de pesquisadores internacionais para aprender quais equipamentos utilizar, desde o tipo de anzol até os procedimentos de manejo. Depois de muito aprendizado conseguimos iniciar esse monitoramento", destaca.

Espécies mais ameaçadas

O projeto concentrou seus primeiros estudos em tubarões e raias classificados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) como ameaçados ou com poucas informações disponíveis. Entre eles estão duas espécies de tubarão-martelo (Sphyrna lewini e Sphyrna zygaena), escolhidas por serem as mais frequentemente encontradas nas capturas acidentais realizadas por pescadores parceiros do projeto.

EcoShark reúne cientistas e pescadores para investigar tubarões e ampliar a conservação
Projeto reúne cientistas para investigar tubarões e ampliar a conservação da espécie - Reprodução/Instagram @saudedosoceanos

Atualmente, o projeto mantém cerca de 200 exemplares armazenados para pesquisas futuras. Em muitos casos, os cientistas possuem apenas determinados órgãos ou tecidos, enquanto outros animais tiveram diferentes partes preservadas para análises específicas.

Para a professora, cada animal amplia o conhecimento sobre a saúde dos oceanos por meio da análise de órgãos como cérebro, fígado, músculos e brânquias.

"Também avaliamos sexo, idade e estágio de desenvolvimento porque tudo isso interfere na quantidade de contaminantes acumulados ao longo da vida. Os adultos, por exemplo, costumam apresentar concentrações maiores por estarem expostos durante mais tempo", explica.

Contaminantes que chegam ao oceano

Uma das principais linhas do EcoShark é a ecotoxicologia, área que avalia os efeitos da poluição sobre os organismos marinhos. Mariana conta que o laboratório da UFRJ já estudava agrotóxicos e contaminantes industriais quando decidiu ampliar as análises para medicamentos consumidos pela população.

A escolha ganhou força durante a pandemia de Covid-19, período em que o uso de antidepressivos aumentou significativamente. Nesse cenário, os pesquisadores passaram a investigar se esses compostos também estavam chegando aos tubarões.

Pesquisadores do Projeto EcoShark analisam órgãos de tubarões capturados acidentalmente
Pesquisadores do Projeto EcoShark analisam órgãos de tubarões capturados acidentalmente - Hilaea Midia/Projeto EcoShark

Em análises realizadas em diferentes órgãos, a equipe identificou resíduos de sertralina exclusivamente no cérebro de alguns exemplares estudados, resultado que abriu uma nova linha de investigação sobre possíveis efeitos fisiológicos nos animais.

"Agora precisamos entender se isso altera hormônios, níveis de serotonina ou o comportamento desses animais. É justamente essa etapa que estamos desenvolvendo, sempre baseada em dados científicos e sem conclusões precipitadas”, disse a bióloga.

Parceria com pescadores do Rio de Janeiro

O relacionamento com comunidades pesqueiras é considerado um dos pilares do EcoShark. Ao longo de dois anos, pesquisadores atuaram em sete comunidades da costa fluminense, incluindo Copacabana, Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes, Grumari, Barra de Guaratiba, Maricá e Marambaia.

Além de receber exemplares capturados acidentalmente, a equipe realizou ações educativas com pescadores para explicar as mudanças na legislação ambiental e a importância da conservação. Segundo Alonso, muitos desconheciam os motivos das restrições à captura de tubarões ameaçados.

"Passaram anos vivendo da pesca dessas espécies e, de repente, descobriram que poderiam ser presos caso capturassem um tubarão ameaçado. Explicamos que esses animais demoram muitos anos para atingir a maturidade sexual, têm poucos filhotes e precisam de muito mais tempo para recuperar suas populações do que a maioria dos peixes."

A aproximação trouxe resultados práticos e, em algumas localidades, pescadores passaram a evitar áreas conhecidas pela presença de tubarões, reduzindo significativamente as capturas acidentais.

Importância da educação ambiental

Fora as pesquisas científicas, o EcoShark também desenvolve materiais educativos voltados para escolas, comunidades e redes sociais. Entre as iniciativas estão cartilhas ilustradas para crianças, conteúdos digitais sobre conservação marinha e o documentário Tubarões Cariocas, Guardiões dos Mares, que apresenta histórias reais envolvendo pescadores e pesquisadores.

Para a bióloga, mudar a percepção da população sobre esses animais é tão importante quanto produzir novos estudos.

Os tubarões não são os vilões do mar. Eles são os guardiões da saúde dos oceanos e da nossa própria saúde ambiental. São uma peça-chave que não pode desaparecer."
Além das pesquisas científicas, o projeto também foca na educação ambiental
Além das pesquisas científicas, o projeto também foca na educação ambiental - Reprodução/Instagram @projetoecoshark

Próximos passos do projeto

Depois das análises realizadas em animais mortos, o EcoShark iniciou uma nova fase voltada para tubarões vivos. Como não é possível retirar órgãos desses indivíduos, os pesquisadores trabalham principalmente com amostras de sangue para verificar se os contaminantes identificados anteriormente também circulam pelo organismo.

Outra frente envolve ampliar o número de espécies estudadas e aumentar a quantidade de indivíduos analisados para fortalecer as conclusões científicas. Embora parte das pesquisas ainda aguarde publicação em revistas especializadas, a equipe destaca que o conhecimento produzido já contribui para compreender melhor os impactos da poluição marinha, orientar políticas de conservação e ampliar o conhecimento sobre espécies ainda pouco estudadas na costa brasileira.

O trabalho educativo é essencial. Se a pessoa aprende a importância dos tubarões, entende o papel ecológico deles no oceano e percebe que precisamos deles", conclui.

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