Descarte irregular de medicamentos vira ameaça silenciosa à vida marinha
Adobe Stock
São Paulo - A descoberta de antidepressivo no cérebro de tubarões-martelo na costa do Rio de Janeiro acendeu um alerta sobre a contaminação dos oceanos por resíduos farmacêuticos e levanta uma nova pergunta para a ciência: quais são os efeitos da exposição contínua desses animais a medicamentos desenvolvidos para humanos?
O estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob a coordenação da professora Mariana Batha Alonso, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, em parceria com o pesquisador Leonardo Vázquez. A pesquisa identificou sertralina no tecido cerebral de tubarões das espécies Sphyrna lewini e Sphyrna zygaena, ambas classificadas como criticamente ameaçadas de extinção.
Leia também
A pesquisa ocorre em um momento de aumento do consumo de medicamentos para a saúde mental no País. Em 2025, as vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceram 11% em relação ao ano anterior. Entre 2022 e 2024, um levantamento nacional da Sandbox, empresa de inteligência e dados de saúde, apontou aumento de 18,6% no uso desses medicamentos pelos brasileiros.
Para os pesquisadores, o problema não está no tratamento da saúde mental, mas no destino ambiental desses compostos depois que deixam o organismo humano.
"Entre todos os medicamentos analisados, a sertralina foi a única encontrada, e apareceu apenas no cérebro. Isso foi muito relevante, porque nos fez questionar por que ela estava ali e o que isso poderia significar", explica a pesquisadora Mariana Batha Alonso.
Depois de ingerido, o medicamento é metabolizado principalmente no fígado. Parte da substância é eliminada pela urina, ainda ativa ou na forma de metabólitos. Esses resíduos seguem para a rede de esgoto.
As estações convencionais de tratamento não foram projetadas para remover compostos farmacêuticos. O resultado é que moléculas de antidepressivos permanecem nos efluentes tratados e acabam alcançando rios, estuários e o mar.
No Estado do Rio de Janeiro, aproximadamente 47% do esgoto recebe tratamento, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Além disso, parte dos efluentes é lançada ao oceano por emissários submarinos que realizam apenas tratamento preliminar, insuficiente para remover medicamentos.
Esses compostos passam a circular na água, são absorvidos por organismos marinhos e entram na cadeia alimentar. Como predadores de topo, os tubarões acumulam contaminantes presentes em suas presas e no ambiente.
O problema é que a sociedade pensa que, ao jogar algo no mar, aquilo desaparece. Mas não é assim. Os organismos da cadeia alimentar acabam acumulando isso", disse Alonso.
Monitoramento foi iniciado há oito anos
A descoberta ocorreu durante as atividades do Projeto EcoShark, coordenado por Mariana Batha Alonso desde 2018 para monitorar a saúde de tubarões na costa fluminense. Os animais analisados foram capturados acidentalmente por pescadores nas regiões do Recreio, Barra da Tijuca e Copacabana, por meio de uma parceria entre pesquisadores da UFRJ e comunidades pesqueiras.
Segundo a pesquisadora, o objetivo inicial era investigar contaminantes emergentes em elasmobrânquios, grupo que reúne tubarões e raias. O resultado surpreendeu a equipe ao revelar a presença da sertralina diretamente no cérebro dos animais.
A sertralina atua sobre o sistema serotoninérgico humano, responsável pela regulação do humor. Como o transportador de serotonina apresenta grande semelhança entre vertebrados, existe a possibilidade teórica de interação também em tubarões.
Os pesquisadores, porém, fazem uma ressalva importante: encontrar o medicamento no cérebro não significa que ele já tenha provocado alterações fisiológicas ou comportamentais nos animais. Essa relação ainda precisa ser comprovada por estudos específicos.
A especialista explica que a sertralina atua sobre a serotonina e pode alterar seus níveis, mas que, para entender o efeito nos animais, primeiro é necessário saber quais são os níveis “normais” (basais) de serotonina. Como essa avaliação é feita a partir de análises de sangue, eles precisam medir muitos indivíduos para estabelecer um intervalo de referência e só então comparar animais mais expostos à sertralina e a outros compostos.
A sertralina é apenas uma entre milhares de substâncias tóxicas e compostos químicos de origem humana que chegam aos tubarões", destacou.
A preocupação existe porque pesquisas anteriores, realizadas em laboratório com peixes-zebra, demonstraram que concentrações semelhantes às encontradas em ambientes costeiros provocaram redução da atividade motora, atraso no aprendizado e alterações no sistema serotoninérgico em humanos. No entanto, ainda não se sabe se efeitos semelhantes podem ocorrer em tubarões.
Problema ambiental não está restrito ao Brasil
Casos semelhantes vêm sendo registrados em diferentes partes do mundo. Uma pesquisa internacional chamada Projeto SeA Care, baseada na análise de 4 mil amostras de água, confirmou a contaminação dos oceanos globais por antibióticos, com a Espanha sendo identificada como o País mais afetado.
O monitoramento detectou a presença desses resíduos tanto em águas costeiras quanto profundas de bacias vitais, incluindo os oceanos Atlântico, Pacífico, Índico, Ártico e o Mar Mediterrâneo, provando que a poluição atingiu até mesmo as regiões polares mais isoladas do planeta.
O foco principal do alerta reside no desenvolvimento da resistência antimicrobiana (RAM) em ambientes marinhos. A exposição contínua de bactérias aos resíduos de antibióticos acelera a evolução desses microrganismos, que desenvolvem fragmentos genéticos resistentes.
De acordo com o estudo, esse fenômeno reduz a eficácia de tratamentos médicos tradicionais e modernos. Nesse sentido, infecções antes simples, como infecção urinária ou pneumonia, podem não responder aos antibióticos e evoluir para quadros graves, com risco de morte, tornando-se um problema crescente para a saúde pública global.
O problema se agrava com a poluição por microplásticos, que servem de suporte para bactérias e favorecem a troca de genes de resistência, espalhando-os pelo mar. Isso cria um ciclo vicioso entre lixo e contaminação microbiana, exigindo medidas urgentes no tratamento de efluentes e no controle de resíduos.
Em março de 2026, um estudo da Fiocruz publicado na revista científica Environmental Pollution identificou cocaína, cafeína e analgésicos no sangue de 28 dos 85 tubarões analisados próximos à ilha de Eleuthera, nas Bahamas.
Segundo os pesquisadores brasileiros, o cenário chama atenção porque a região possui densidade populacional muito inferior à encontrada na costa fluminense. Isso reforça que a contaminação por resíduos farmacêuticos já alcança ecossistemas marinhos diversos.
Para a oceanógrafa biológica Patricia Eichler, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade da Califórnia, a descoberta evidencia dois processos ambientais conhecidos.
Você tem, primeiro, a bioacumulação, que é o acúmulo gradual de poluentes e substâncias tóxicas no corpo desse único organismo. Mas você tem também a biomagnificação, que seria a amplificação da concentração dessas substâncias à medida que a gente sobe os níveis da cadeia alimentar."
Ela explica que, quando um tubarão consome diversos peixes contaminados, passa a concentrar essas substâncias no próprio organismo. A pesquisadora afirma que esse processo ajuda a explicar por que predadores de topo acabam funcionando como indicadores da qualidade ambiental.
A presença de medicamentos no ambiente aquático não se restringe à sertralina.
Patricia Eichler destaca que estudos anteriores já detectaram vitaminas, metais pesados, pesticidas, microplásticos e até resíduos de entorpecentes em organismos marinhos.
Há mais de dez anos a gente já ouve falar sobre vitaminas. A sertralina não é um caso isolado. Ela simplesmente está seguindo uma nova linha de pesquisas, que é estudar os fármacos que estão sendo distribuídos no nosso oceano."
Ela também lembra que a matéria orgânica em excesso pode causar desequilíbrios ambientais.
Esgoto doméstico é o principal caminho
O professor Leonardo Rörig, especialista em ecotoxicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), afirma que o Brasil figura entre os maiores consumidores de medicamentos do planeta e que praticamente todos esses produtos acabam chegando ao ambiente. "Os sistemas convencionais de tratamento de esgoto não conseguem remover essas moléculas", explica.
Segundo ele, essas substâncias apresentam alta persistência ambiental. Rörig explica que pequenas concentrações podem permanecer por longos períodos na água, acumulando-se em plantas, animais e seres humanos ao longo da cadeia alimentar.
São moléculas que não se degradam facilmente e, por isso, têm efeitos crônicos. Isso significa que pequenas concentrações dessas moléculas, ao serem ingeridas por nós ou ao entrarem em contato com a fauna e a flora, não necessariamente terão um efeito imediato; mas, como são persistentes e não se degradam facilmente, elas se acumulam nas diferentes matrizes e nos diferentes seres vivos."
Ele também alerta para outra fonte importante de contaminação, como hospitais ou unidades de saúde que não possuem sistema adequado de tratamento de esgoto, que deveria ser químico.
"Somente um processo químico forte — por exemplo, a reação de Fenton, que é uma oxidação intensa - seria capaz de quebrar e destruir essas moléculas. Trata-se de um sistema de degradação química que, às vezes, pode inserir novas moléculas tóxicas no sistema. Mas é melhor degradar essas moléculas perigosas do esgoto hospitalar do que lidar com o problema do próprio ácido ou da substância usada no tratamento químico", explica.
Descarte incorreto amplia a contaminação
Além da eliminação natural pelo organismo, o descarte inadequado de medicamentos vencidos também contribui para a presença desses compostos no ambiente. Segundo Leonardo Rörig, muitos consumidores ainda jogam comprimidos no lixo comum ou diretamente no vaso sanitário.
Existe a obrigatoriedade, para a popualçaõ em geral, de medicamentos serem descartados corretamente nas farmácias. Mas não existe essa cultura ainda."
Para Rörig, ampliar campanhas educativas é tão importante quanto investir em infraestrutura de saneamento. Os pesquisadores afirmam que a principal questão científica agora não é apenas saber se os medicamentos chegam aos tubarões, já que essa etapa foi comprovada.
O desafio passa a ser entender quais consequências essa exposição contínua pode provocar em espécies fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas marinhos.
Os tubarões-martelo exercem papel central na regulação da cadeia alimentar. As alterações em seu comportamento, reprodução ou fisiologia podem gerar impactos que se estendem para todo o ambiente costeiro.
Até o momento, não existe qualquer evidência de que a presença de antidepressivos esteja relacionada ao aumento de ataques de tubarões. Os pesquisadores reforçam que essa hipótese não faz parte das conclusões do estudo.
A descoberta conecta três problemas que normalmente são tratados de forma isolada: o primeiro é o crescimento do consumo de medicamentos para saúde mental, reflexo da ampliação do acesso ao diagnóstico e ao tratamento.
"Isso também virou um problema de saúde pública. Hoje, lidamos com três questões: a primeira é a saúde mental. Entre 2022 e 2024, houve um aumento de 18% nos casos; portanto, a população está sofrendo. Isso é uma consequência", pontua a professora Mariana Batha Alonso.
O segundo envolve as limitações do saneamento básico brasileiro, que ainda não remove de forma eficiente micropoluentes farmacêuticos. O terceiro diz respeito à conservação da biodiversidade marinha, especialmente de espécies já ameaçadas de extinção.
Alonso ressalta que, apesar de existirem mais de 400 espécies, os incidentes com humanos são raros e geralmente acidentais, muitas vezes relacionados a alterações no ambiente e à escassez de peixes causada pela sobrepesca.
Para os especialistas, enfrentar esse cenário exige ampliar o monitoramento de contaminantes emergentes na fauna marinha, modernizar as estações de tratamento de esgoto e fortalecer o financiamento de pesquisas em ecotoxicologia.
Os tubarões não são os vilões do mar. Eles são guardiões da saúde dos oceanos e da nossa própria saúde ambiental. São uma peça-chave que não pode desaparecer. A preocupação deve ser com um oceano sem tubarões, não com um oceano com tubarões, porque precisamos deles", finaliza a pesquisadora.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.