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El Niño no Brasil: temperaturas vão ficar acima da média no 2º semestre

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Expectativa é de temperaturas acima da média na maior parte do Brasil - Adobe Stock
Expectativa é de temperaturas acima da média na maior parte do Brasil
Por Estadão Conteúdo

01/07/2026 | 11h58

São Paulo - Em primeiro boletim sobre o El Niño neste ano, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) traçou a previsão climática para o trimestre de julho a setembro no Brasil. A expectativa é de chuvas acima da média em áreas da Região Sul e abaixo da média no centro-norte, além de alta probabilidade de temperaturas acima da média na maior parte do Brasil no segundo semestre, que podem aumentar a ocorrência de ondas de calor e incêndios florestais.

Como confirmado no início de junho pela agência norte-americana NOAA, o El Niño já está estabelecido, refletindo em temperaturas mais quentes na superfície do Oceano Pacífico Equatorial.

Os modelos indicam probabilidade acima de 90% de que ele permaneça pelo menos até o início de 2027, e alta probabilidade de que seja muito forte. Isso ocorre quando as anomalias de temperatura da superfície do mar ficam acima de 2°C.

O documento divulgado na segunda-feira, 29, foi elaborado em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec). Segundo o Inmet, o boletim será atualizado mensalmente para disponibilizar informações sobre o fenômeno.

"Episódios de El Niño estão se tornando mais frequentes e mais intensos, o que resulta do aquecimento dos oceanos por conta da mudança climática", disse ao Estadão o coordenador geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi. Segundo ele, a intensidade pode ser compatível àquela dos anos de 2015/2016 ou 2023/2024.

Potenciais impactos

O boletim detalha os possíveis impactos do El Niño para a hidrologia, agricultura e risco de desastres, com foco nas áreas mais suscetíveis.

Hidrologia

Sobre o nível dos rios, a Agência Nacional de Águas (ANA) coloca entre as principais preocupações os impactos do possível fortalecimento do El Niño sobre a estiagem amazônica no segundo semestre. Em 2024, o fenômeno provocou uma seca histórica em alguns dos principais rios da região, que ficaram parecendo desertos.

No Nordeste, a situação é mais preocupante com os níveis do rio São Francisco abaixo da faixa de normalidade, o que deve dificultar a recuperação e favorecer a seca ao longo do segundo semestre, considerando a perspectiva de chuvas abaixo da média na região associada ao El Niño. Já no sul, a análise baseada no nível do rio Uruguai não observou "anomalias relevantes", mas alerta que a evolução das condições climáticas "pode ocorrer de modo abrupto, demandando continuidade do monitoramento da região".

A ANA aborda ainda a situação dos sistemas hídricos e reservatórios das regiões Sul, Norte e Nordeste (principalmente dos rios Madeira, Tocantins, Xingu e São Francisco, mais sensíveis às anomalias climáticas do El Niño). No fim de junho, o volume nos reservatórios do Sistema Interligado Nacional atingiu 77,5% do volume útil, situação considerada confortável.

Agricultura

Um El Niño forte tem impactos distintos sobre as regiões produtoras do Brasil. Segundo o boletim, "a manutenção do monitoramento climático e das atualizações das previsões é fundamental para subsidiar o planejamento e a gestão dos riscos agroclimáticos durante a atuação do fenômeno".

Norte: previsão de chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal eleva o risco de deficiência hídrica, com possíveis prejuízos às pastagens, culturas perenes e agricultura familiar;

Nordeste: temperaturas acima da média e menor volume de chuvas também podem comprometer cultivos em desenvolvimento e pastagens prejudicando a pecuária. Por outro lado, pode favorecer a colheita do feijão de terceira safra em áreas mais avançadas;

Centro-Oeste: aumento das temperaturas pode aumentar deficiência hídrica no final do período seco, afetando pastagens recursos hídricos para a pecuária e preparação da próxima safra Condições favoráveis à colheita do milho segunda safra, algodão e cana-de-açúcar;

Sudeste: Temperaturas mais elevadas exigem atenção ao aumento de doenças e à aceleração do ciclo das culturas, mas chuvas próximas à média tendem a beneficiar as culturas de inverno. Cenário favorece a colheita e futuras floradas do café, desde que haja retorno adequado das chuvas após o período seco;

Sul: chuvas acima da média podem favorecer as culturas de inverno (como trigo e aveia), mas excesso de umidade poderá aumentar incidência de doenças fúngicas. A maior nebulosidade e temperaturas mais elevadas reduzem o risco de geadas tardias.

Desastres

A análise do Cemaden sobre os riscos de desastres chama atenção para as condições de seca moderada e severa principalmente no Norte e Centro-Oeste do País. Entre abril e maio deste ano, 66 municípios passaram para a condição de seca severa, mais da metade nos estados de Minas Gerais e Goiás.

Aponta ainda o período de julho a setembro como o de maior pressão sobre o Centro-Oeste e o arco sul da Amazônia em relação às queimadas. O maior potencial de propagação de incêndios e persistência dos focos de calor se concentra em áreas em Mato Grosso, Rondônia, Acre, sul do Amazonas, sul do Pará e regiões do Matopiba (que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), em que a combinação de estiagem prolongada, altas temperaturas e uso antrópico do fogo favorece a ocorrência de eventos mais severos.

Já em relação aos extremos de chuva, recomenda cautela sobre a interpretação das previsões para o trimestre: "a tendência de precipitação acima da normalidade indicada por alguns modelos, especialmente em áreas da Região Sul do Brasil, não implica, por si só, aumento imediato do risco de deslizamentos, inundações ou enxurradas", segundo o boletim.

Porém, a maior umidificação dos solos cria condições sensíveis caso episódios de chuva intensa aconteçam na fase de maior influência do El Niño, especialmente em outubro e novembro.

"Assim, os possíveis efeitos sobre a deflagração de processos geo-hidrológicos devem ser acompanhados continuamente, com base na atualização das previsões sazonais, na evolução das condições observadas de chuva e umidade antecedente e na redução gradual das incertezas ao longo dos próximos meses", recomenda o documento.

As previsões indicam os principais impactos esperados, mas cada ocorrência do fenômeno tem suas particularidades, afirma o coordenador geral de Operações e Modelagem do Cemaden.

"É muito difícil dizer exatamente quais serão as sub-regiões, mais ainda municípios mais atingidos por um extremo ou outro. Faremos isso na medida do possível, mais perto dos eventos", diz Seluchi.

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