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Debate aponta que direito de envelhecer bem esbarra na desigualdade e no tabu

Ana Mello/VIVA

Mary del Priore, Lenny Blue de Oliveira, Milton Crenitte e Andrea  Tenuta no painel sobre envelhecimento - Ana Mello/VIVA
Mary del Priore, Lenny Blue de Oliveira, Milton Crenitte e Andrea Tenuta no painel sobre envelhecimento
Por Claudio Marques

15/08/2026 | 19h07

São Paulo - Em um país marcado por grandes desigualdades como o Berasil, o direito de envelhecer com dignidade e saúde não é homogêneo, sendo afetado por recortes de classe social, raça, gênero e orientação sexual. O envelhecimentodigno, portanto, passa pela questão política e coletiva e não deve confundido com um privilégio individual. 

Trata-se de um cenário que se destaca dos debates que marcaram o painel "Quem tem direito de envelhecer bem", mediado por Andrea Tenuta. O debate reuniu a historiadora Mary del Priore — colunista do VIVA recentemente laureada pela Câmara Brasileira do Livro no Prêmio Jabuti Acadêmico 2026, que elegeu sua obra clássica "História das Mulheres no Brasil" como Livro Acadêmico Clássico do ano —, o médico geriatra e ativista Milton Crenitte e a advogada, escritora e ativista negra Lenny Blue de Oliveira.

Os temais centrais do painel foram a busca por uma longevidade digna, o combate ao preconceito de idade e a desconstrução de tabus sobre a vida adulta avançada. Juntos, os participantes analisaram como fatores relacionados a gênero, raça, orientação sexual e classe social determinam quem realmente consegue envelhecer com qualidade de vida no País.

Em sua exposição, Mary del Priore resgatou a evolução do papel dos idosos na sociedade brasileira ao longo dos séculos. Segundo a pesquisadora, no Brasil Colônia e Império até o século XVIII e início do XIX, a maturidade ocupava um lugar central no patriarcado e na vida pública, associada ao poder, ao comércio e à gestão patrimonial.

A chegada da família real, segundo ela, consolidou os mais velhos como figuras centrais da política e da economia, enquanto as mulheres maduras, como matriarcas, exerciam o poder decisório dentro dos lares: definiam os casamentos e quem serviria às forças armadas.

Contudo, com as transformações urbanas do século XX, o surgimento da aposentadoria e o culto à juventude impulsionado a partir dos anos 1960 e 1970, a figura do idoso passou por um processo de marginalização e perda de utilidade social perante a lógica produtivista.

Para a historiadora, a aposentadoria marcou o momento em que a sociedade retirou o poder e a função social dos mais velhos.

"Hoje, não temos mais essa força e importância. Perdenos tudo quando nos aposentamos. Foi nesse momento que se deixa de ser avô e avó para ser o vovozinho e a vovozinha", diz Del Priore.


Tabus, menopausa e redefinição da sexualidade

Ao abordar a evolução da sexualidade e o silenciamento mantido por séculos sob rígido pudor moral, Del Priore lembrou que, nos anos 1930, uma mulher de 30 anos já era considerada velha e que, até a década de 1950, as mulheres não se despidam ao ir para a cama. Durante séculos, o prazer e a realização vinham da respeitabilidade e do poder do matriarcado, e não da vivência sexual aberta — dinâmica que só começou a se transformar com a revolução sexual e a pílula anticoncepcional em 1968.

A historiadora e os debatedores reforçaram que a sexualidade na maturidade precisa ser desmistificada. A historiadora ressaltou que expressões como um carinho ou um beijo na boca são formas legítimas de sexualidade, sem a obrigação de estarem atreladas estritamente ao ato sexual com penetração.

Interseccionalidade, saúde e barreiras econômicas

Lenny Blue de Oliveira aprofundou o debate ao trazer o conceito de interseccionalidade, enfatizando que as experiências do envelhecimento variam drasticamente conforme os recortes de raça e classe.

Ao destacar que "falar de velhice é falar sobre o direito à vida", ela disse que cerca de 21% das mulheres que trabalham no Brasil não possuem capacidade contributiva, o que significa que estarão excluídas de benefícios previdenciários no futuro.

A palestrante alertou também para o fato de que grandes parcelas da população brasileira de baixa renda nem sequer conseguem atingir a velhice em condições plenas de saúde, citando as discrepâncias de expectativa de vida entre bairros periféricos e áreas nobres das capitais.

Lenny Blue de Oliveira ainda mencionou componentes genéticos e sociais na manifestação dos sintomas da menopausa em mulheres negras, cuja sobrecarga de trabalho e desigualdade de acesso à saúde potencializam os impactos dessa fase, transformando a menopausa e o suporte às mulheres maduras em questões fundamentais de política pública.

Sexualidade sem prazo de validade ao etarismo


O médico geriatra Milton Crenitte abordou a vivência do afeto e do desejo na maturidade, enfatizando que a sexualidade não tem prazo de validade e vai muito além do sexo biológico: engloba o autocuidado, o lazer, a identidade, a expressão de gênero e até a forma de dançar ou se vestir. Para o especialista, estejam os indivíduos velhos ou doentes, a sexualidade continua presente e buscando formas de manifestação.

Após uma espectadora levantar a questão de muitas vezes os idosos são infatilizados por pessoas a sua volta, tratando-os  com condescedência ou podando sua liberdade, Crenitte alertou que essas atitudes são expressão do  idadismo (ou etarismo), e retira a autonomia de decisão e expressão afetiva do velho. Para os participantes, essas manifestações precisam ser corrigidas no dia a dia.

O preconceito se intensifica, de acordo com Crenitte, no caso da população LGBTQIA+ madura, que muitas vezes enfrenta o duplo apagamento e a falta de acolhimento nos serviços de saúde e nos ambientes sociais. O geriatra defendeu que o direito a uma velhice plena exige o desmonte de estruturas machistas, lgbtfóbicas e racistas, enfatizando que uma sociedade ou empresa só prospera e enriquece quando não deixa nenhum grupo para trás.

Concluindo o encontro, a mediadora Andrea Tenuta e os debatedores convergiram no diagnóstico de que envelhecer bem não é apenas um privilégio individual, mas uma pauta coletiva, transversal e política, que combata desigualdades estruturais e garanta o reconhecimento da pessoa idosa como sujeito pleno de direitos, desejos e voz ativa na sociedade.

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