Calor extremo: como idosos podem proteger a saúde durante ondas de calor
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São Paulo - Estima-se que entre 2000 e 2019, 97 mil mortes de idosos podem ter ocorrido devido a eventos extremos do clima, principalmente ao calor extremo. Esse número equivale a mais de 80% de todas as mortes nesse período. Agora, em 2026, a previsão de novos eventos de ondas de calor já rondam o Brasil e a América Latina novamente.
O Centro de Previsões Climáticas (CPC), órgão da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, apontou em seu último relatório uma probabilidade de 90% de ocorrência de um El Niño muito forte entre outubro a dezembro deste ano.
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As previsões apontam para um evento histórico, que se reflete em ondas de calor nas Américas. Tal evento passou até mesmo a ser chamado de "Super El Niño", termo que não é utilizado formalmente pela Organização Mundial de Metereologia (OMM).
O que é o El Niño?
O El Niño faz parte de um dos padrões climáticos mais influentes do planeta que é caracterizado pelo aquecimento da temperatura da superfície do oceano no Pacífico Equatorial central e oriental. Esse evento ocorre normalmente a cada dois a sete anos e pode durar de nove a doze meses.
A OMM explica que os eventos de El Niño alteram a temperatura e as chuvas globalmente, elevando os termômetros do planeta. A junção do forte El Niño de 2023-2024 com o aquecimento global gerado pela ação humana fez de 2024 o ano mais quente da história.
E, embora não haja provas de que as mudanças climáticas tornem o El Niño mais frequente ou intenso, elas agravam seus efeitos: oceanos e atmosferas mais quentes acumulam mais energia e umidade, intensificando eventos extremos como tempestades e ondas de calor.
Em comunicado oficial, o chefe de previsão climática da OMM, Wilfran Moufouma atestou que o El Niño desse ano deve se intensificar nos próximos meses. “Após um período de condições neutras no início do ano, os modelos climáticos estão agora fortemente alinhados e há grande confiança no início do El Niño, seguido por uma maior intensificação nos meses seguintes”.
Saúde dos idosos durante eventos climáticos
Nelson Gouveia, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, explica que o corpo humano possui mecanismos naturais para regular a temperatura, como a transpiração e a dilatação dos vasos sanguíneos para baixar a pressão.
Contudo, na pessoa idosa, esses controles vão se perdendo. O idoso acaba ficando mais suscetível, mais vulnerável a essas temperaturas extremas, podendo desidratar com mais facilidade", alerta Gouveia.
Em casos extremos, ocorre o "choque por calor", que pode levar à insuficiência renal ou falência cardiovascular.
O gráfico compara o número de idosos expostos a diferentes níveis de calor extremo por ano na América Latina. Enquanto em 2020 a maioria vivenciava poucos dias no ano com temperaturas máximas acima de 37,5 ºC, as projeções para 2050 indicam uma forte migração para faixas de alta e crítica exposição.
O número de pessoas idosas vivendo em áreas que enfrentam mais de dois meses de calor extremo por ano saltará de 3,1 milhões para quase 18 milhões – um aumento de mais de 450%.
Diante desse contexto, pode-se acreditar que por viverem em um clima tropical no Brasil, os idosos brasileiros estariam mais "acostumados" com tais temperaturas. O presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brazil), Alexandre Kalache reforça, porém, que não é correto pensar que os brasileiros estariam de alguma forma "imunes" aos efeitos do clima por estarem acostumados com o calor.
É importante dizer que o corpo humano não foi feito para isso e ele não tem as condições de controle da temperatura do corpo durante esses eventos. Então, é balela dizer que não há mortes por ondas de calor porque o brasileiro está acostumado", aponta Kalache.
Comorbidades
A situação se agrava pela presença de comorbidades comuns na velhice, como hipertensão, insuficiência cardíaca e diabetes. Gouveia destaca que uma onda de calor atua como um fator agravante que, somado a uma doença de base, leva a desfechos fatais.
Além do calor, eventos como as cheias no Rio Grande do Sul trazem riscos de médio prazo: doenças transmitidas pela água (hepatite, leptospirose) e um severo trauma mental decorrente de perdas materiais e de vidas", adiciona.
A perspectiva se torna ainda mais grave diante do envelhecimento populacional que demanda ainda mais estrutura do sistema público de saúde – porta de entrada para mais de 70% dessa população.
Falta estrutura
A maneira como as cidades são construídas também determina quem sobrevive a uma onda de calor. Kalache e Gouveia concordam que o planejamento urbano atual falha em proteger os mais velhos, exacerbando as desigualdades sociais e até mesmo impedindo que o auxílio chegue ou que o idoso consiga procurar ajuda em momentos críticos.
Alexandre Kalache critica a perda do conhecimento arquitetônico antigo. Ele cita a Santa Casa do século XVII, com seu pé direito alto e ventilação cruzada, como um exemplo de design eficiente que foi abandonado.
A arquitetura é muito importante... perdemos o conhecimento de arborizar, ter ventilação e criar sombras", reflete.
Ele aponta também o contraste cruel nas cidades: enquanto em Londres as casas são feitas para reter calor, um problema nos eventos climáticos atuais, no Brasil, quem vive em favelas sofre em casas com cobertura de laje ou zinco. "Vira um forno, você vai sendo assadinho lá dentro, e as vielas não têm circulação de ar", pontua.
Nelson Gouveia defende que a adaptação deve passar pela criação de "ilhas de frescor" – locais com temperatura controlada onde o cidadão possa se climatizar antes de voltar para a rua. Ele observa que, embora o Brasil já realize ações pontuais como distribuição de água em grandes eventos, ainda estamos longe de modelos internacionais que oferecem espaços públicos com ar-condicionado durante crises térmicas
O Plano de Ação de Saúde de Belém, criado durante a COP30, prevê a "climatização" de unidades de saúde para garantir o funcionamento ininterrupto e o uso da telessaúde para manter o cuidado de idosos com doenças crônicas mesmo durante isolamentos causados por desastres.
Apesar da existência de diretrizes estruturadas, Nelson Gouveia critica o fato de o Brasil ainda estar "correndo atrás do prejuízo", destinando recursos para remediar danos de eventos passados em vez de investir em preparação prévia.
O especialista aponta que a falta de coordenação entre o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais e municipais impede que as estratégias nacionais sejam efetivamente assimiladas e aplicadas na prática local.
"As autoridades não devem esperar o calendário das conferências internacionais (COPs) para agir, sendo urgente a implementação imediata e a expansão das ações já planejadas para que o sistema de saúde deixe de ser apenas reativo", conclui.
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