Lula diz que espera fluxo comercial de US$ 30 bi com Índia até 2030
Ricardo Stuckert / Palácio do Planalto
Brasília, 22/02/2026 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que estabeleceu junto com o presidente da Índia, Narendra Modi, o desafio de os países alcançarem US$ 30 bilhões em fluxo comércio até 2030. Em 2025, o fluxo comercial entre os países foi de US$ 15,2 bilhões.
"Quando eu vim aqui pela primeira vez, o comércio Brasil-Índia era de apenas US$ 2,4 bilhões, chegou agora a US$ 15 bilhões, o que é muito pouco para duas economias razoavelmente grandes. Eu disse a Modi que vamos chegar a US$ 30 bilhões em 2030, porque o potencial econômico dos dois países é muito forte e a necessidade da Nova Indústria Brasil é mais forte ainda", disse Lula em coletiva de imprensa em Nova Délhi.
O presidente encerrou neste domingo a missão ao país, iniciada na última quarta-feira, e embarcou diretamente para Seul, capital da Coreia do Sul. A convite do presidente sul-coreano Lee Jae Myung, Lula cumprirá agenda oficial de dois dias no país, até 24 de fevereiro.
Lula destacou na coletiva que Brasil e Índia possuem muitas similaridades e demandas em comum. "Nós somos dois necessitados. Ninguém é superior a ninguém", apontou mencionando a construção de planos de ação, metas e parcerias entre os países. "Ou seja, não existe o tom da supremacia, o tom do maior, o tom do grande. É a política dos iguais. Isso é que me dá muito prazer e muito otimismo", destacou Lula.
Ele mencionou ainda que os países firmaram sete acordos na área da saúde. "O SUS oferece ao Brasil a oportunidade de ser um dos mais extraordinários mercados consumidores, não apenas de remédio, mas também de máquinas modernas para reparar e descobrir novas doenças na humanidade. E tudo isso vai precisar de convênios, com a Índia, com a China, com os Estados Unidos, com os países europeus", apontou Lula ao destacar que o Brasil "não tem preferência comercial".
Leia também: 'Não sou carnavalesco', diz Lula sobre críticas ao desfile que o homenageou
Segundo o presidente, na agenda bilateral com Modi, apenas assuntos relacionados aos países foram tratados, sem entrar em detalhes sobre a geopolítica internacional. "Sei o que a Índia pensa sobre determinados problemas e sei o que o Brasil pensa. Discutimos aquilo que nos une: o que nos une nesse instante é a nossa briga para que as nossas economias sejam fortalecidas e (possamos) sair da situação que a gente se encontra", afirmou Lula.
"Nós queremos nos transformar em países altamente desenvolvidos. Não discutimos nenhum problema que fosse polêmico entre nós dois, porque eu não vim aqui para discutir a divergência, eu vim aqui para discutir a confluência entre Brasil e Índia."
Lula disse ainda não ter comentado com Modi sobre o acordo feito pela Índia com os Estados Unidos. "É um problema dele. Assim como qualquer acordo que fizermos é um problema meu", refutou. Ele classificou a conversa com o líder indiano como "extraordinária", citando acordos entre ministérios, parcerias em inteligência artificial e busca por investimentos empresariais.
"Estou conversando com empresários que têm investimentos no Brasil e todos eles dizem que vão fazer mais investimentos. São muito otimistas em relação a investimentos", apontou.
Durante a missão presidencial à Índia, os países firmaram acordos de cooperação nas áreas de defesa, aviação civil e militar, comércio, investimentos, saúde, indústria farmacêutica, ciência e tecnologias digitais, energia, minerais críticos, cooperação espacial, educação e cultura.
"Essa minha vinda à Índia é o marco de uma nova relação entre Brasil e Índia. A tendência natural é melhorar e muito a nossa relação com a Índia, em todos os aspectos, inclusive com investimentos brasileiros aqui, na área de inteligência artificial, com investimentos deles no Brasil, com parceria entre as nossas universidades, entre os nossos ministérios. Nós somos os irmãos democráticos do Sul Global mais importantes e nós precisamos dar exemplo", destacou o presidente.
Ao todo, 11 acordos governamentais foram assinados, segundo o Ministério das Relações Exteriores, como instrumentos nas áreas dos minerais críticos, propriedade intelectual, saúde, serviços postais, empreendedorismo e certificados de origem. Outros três entendimentos público-privados entre universidades, fundações e outros entes governamentais foram acertados.
ONU, Brics, G7 e EUA também estiveram na pauta
O presidente também voltou a defender mudanças no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Afirmou que, do modo como a entidade está hoje, ela "não resolve nenhum problema" e enfatizou ser preciso fortalecê-la.
Ele disse que reivindica há muito tempo mudanças no estatuto da ONU e no Conselho de Segurança e observou que o colegiado não tem nenhum membro do continente africano ou da América Latina e somente a China como representante da Ásia. Questionou, na sequência, por que países como Índia, Brasil, Alemanha, México, Nigéria e Egito não estão no Conselho.
"Você tem muitos países com mais de milhões de habitantes e poderia ter [participação]. Para quê? Para mudar. Para a ONU voltar a ter eficácia, ter representatividade", disse Lula. "Do jeito que está a ONU, ela tem pouquíssima eficácia, ela não resolve nenhum problema. Ou seja, ela é capaz de fazer um belo diagnóstico, mas não tem o remédio. Se você só sabe fazer diagnóstico e não tem o remédio, você vai perdendo credibilidade."
Lula enfatizou ser preciso fortalecer a ONU a fim de que prevaleça uma "instituição de importância vital para a manutenção da paz e da harmonia no mundo". Para isso, disse, é preciso "estar junto", em referência ao conceito de multilateralismo que tem defendido em diversos discursos.
No âmbito econômico, o presidente falou sobre o convite feito pelo presidente da França, Emmanuel Macron, para que participe da cúpula do G7 em junho e disse que o presidente francês "está querendo ver se é possível misturar os Brics com o G7".
"O Brics é um processo de formação de um grupo muito forte - quase metade da humanidade, quase metade do PIB [mundial]. O que nós precisamos é ter consciência de que 10 membros do Brics participam do G20", observou. Ele emendou que, além dele, Macron convidou Narendra Modi e a África do Sul.
"Nós vamos começar a compreender que não precisamos ter briga, não precisamos ter G7, G4, G20", disse. "Quem sabe esse grupo nosso fortalecido vai se juntar ao G20 e quem sabe um dia a gente tenha só um grupo. Ao invés de Brics e G20, a gente tenha o G30. Quem sabe alguma coisa similar, porque não precisamos ter tantas reuniões. Acho que estamos caminhando para isso, para um comércio mundial mais justo."
Lula disse que o Brics dá cara a um grupo que era marginalizado e pontuou que o grupo tem pretensões políticas - como exemplo, citou a criação do banco dos Brics. Ponderou saber que os Estados Unidos têm uma inquietação com o grupo, em razão da China, mas frisou que o Brics não quer uma "guerra fria", mas sim se fortalecer.
Ele também enfatizou que o Brasil está disposto a trabalhar com os Estados Unidos para colocar os "magnatas da corrupção" na cadeia. "Eu disse ao presidente Trump que nós estamos dispostos a trabalhar com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico, tráfico de armas e lavagem de dinheiro. Qualquer coisa que puder colocar os magnatas da corrupção na cadeia, nós estamos dispostos a trabalhar", afirmou Lula em coletiva à imprensa, realizada em Nova Délhi, na Índia.
Por fim, detalhou que já conversou três vezes por telefone com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre esse assunto, que o Brasil já compartilhou informações e documentos relacionados ao tema com os EUA e já endereçou ações nesse sentido, como a criação de uma entidade para combater o crime organizado e o narcotráfico nas fronteiras.
(Por Isadora Duarte)
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
