Analistas veem onda à direita e difícil virada de Lula no 2º turno
Antipetismo e sentimento difuso "antissistema" amplia o favoritismo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na corrida presidencial
Por Broadcast
05/10/2026 | 08h00Wilton Junior/Estadão Conteúdo
O primeiro turno das eleições revelou uma guinada à direita, com o senador Flávio Bolsonaro se destacando como favorito para o segundo turno, dificultando uma virada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, devido ao forte antipetismo e ao sentimento antissistema entre os eleitores.
Analistas apontam que a onda conservadora não foi captada pelas pesquisas, e mesmo com indicadores econômicos positivos, a insatisfação com o governo Lula se refletiu nas votações para cargos executivos e legislativos, evidenciando um cansaço do eleitorado com a falta de propostas inovadoras.
As perspectivas para o segundo turno favorecem Flávio Bolsonaro, que deve contar com a migração de eleitores de candidatos derrotados, enquanto a campanha de Lula precisaria de um fato novo significativo para mudar o cenário, já que a alternância de poder demonstra a vitalidade da democracia brasileira.
São Paulo - Cientistas políticos ouvidos pela Broadcastavaliam que o primeiro turno das eleições consolidou uma guinada à direita, com forte peso do antipetismo e de um sentimento difuso "antissistema", o que amplia o favoritismo do senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno e torna uma virada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) difícil. Para os analistas, o desempenho da direita também foi subestimado pelas pesquisas e a composição do Congresso e dos governos estaduais tende a reforçar o novo equilíbrio de forças políticas.
Na avaliação do cientista político e sócio da Tendências Consultoria, Rafael Cortez, o ponto de partida para entender o resultado é "uma espécie de onda conservadora" que as pesquisas não captaram em sua totalidade. Segundo ele, mesmo com indicadores econômicos melhores, como "mercado de trabalho aquecido" e "renda real crescendo", isso não se traduziu em sensação de continuidade. "Esse efeito antiesquerda materializado no governo Lula se transmitiu para as disputas para os governos e para o legislativo", disse.
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O cientista político e presidente do Instituto Cultiva, Rudá Ricci, afirma que "o Brasil legitimou a direita e a extrema direita nesta eleição" e avalia ser improvável uma virada de Lula. "Não há ambiente para virada", disse. Para ele, embora exista a possibilidade matemática, a direita "conseguiu capturar corações e mentes" e o presidente teria de dar "um cavalo de pau" na campanha. "Tem que dar um discurso muito impactante", afirmou.
Por sua vez, o professor titular de Ciência Política da FGV no Rio e colunista do Estadão Carlos Pereira, também diz que uma reversão é "muito difícil", após um primeiro turno "surpreendente", com Flávio à frente. "Foi surpreendente, as pesquisas davam empate técnico, mas não vantagem [para Flávio]", afirmou.
Pereira lembra ainda que, "desde a redemocratização, o segundo colocado no primeiro turno nunca conseguiu virar o jogo". Para ele, Lula só teria chance se houvesse um fato novo de grande magnitude. "Será muito difícil [uma virada], a não ser que ocorra uma hecatombe, apareça um escândalo envolvendo o Flávio maior do os que já aconteceram", disse.
O professor da FGV/EAESP, Eduardo Grin, destaca que o Planalto teria reagido tarde, com anúncios na reta final "já sem tempo disso surtir efeito". Para ele, a campanha apostou que o contraste de biografias e a memória negativa do governo Jair Bolsonaro bastariam, mas o eleitorado demonstrou "cansaço", "falta de inovação" e ausência de "propostas críveis". "Passado quatro anos, as pessoas estão muito endividadas e sem perspectiva de melhora de vida", afirmou.
Perspectivas para o segundo turno
Para os analistas, a dinâmica do segundo turno tende a favorecer Flávio tanto pela força política construída no primeiro turno quanto pela provável migração de eleitores de candidatos derrotados. Pereira afirma que o senador entra no segundo turno com vantagem porque "a maioria dos eleitores dos candidatos derrotados deve apoiar" o candidato do PL.
O analista político da 4Intelligence Ricardo Ribeiro faz leitura semelhante e cita "uma grande onda de direita" que deve "ajudar o Flávio Bolsonaro", impulsionada por "um monte de políticos de direita eleitos: a maioria dos eleitores de Caiado, Cury, Renan Santos, Zema tendem a migrar mais para ele do que para o Lula".
Ricci chama atenção para a influência de candidatos estaduais e ao Senado no desempenho presidencial do PL. "Quem puxou o Flávio foram os candidatos aos governos dos Estados e ao Senado", afirmou, ao dizer que essa movimentação é difícil de ser capturada pelas pesquisas na reta final.
"O grande beneficiário dessa onda não ter sido os partidos da centro-direita, o chamado Centrão, mas, sobretudo, o PL", disse Cortez, apontando que isso indica "uma sociedade mais polarizada do que se imaginava".
Grin avalia que o resultado também tem componentes de "voto antissistema", com desconfiança em relação a instituições e apelo a agendas de confronto. Ele cita como exemplo a disputa para o Senado, marcada por promessas de enfrentamento ao Supremo Tribunal Federal.
Risco institucional
Pereira, por outro lado, relativiza o risco institucional e diz que a alternância de poder mostra a vitalidade da democracia. "A democracia brasileira está consolidada", afirmou. Para ele, mesmo com uma eventual vitória de Flávio, o "multipartidarismo está consolidado" e o presidente eleito terá de formar coalizão, com o "voto mediano" ainda orbitando o Centrão.
"Nesse cenário, a alternativa autocrática perde força", disse. Se Lula vencer, segundo ele, o presidente terá mais dificuldade para governar diante do avanço da direita, mas não vê crise de governabilidade.
Ainda assim, os cientistas políticos convergem na leitura de que a campanha de Lula precisaria produzir um fato novo para alterar o quadro. Cortez afirma que uma virada exigiria trazer "um novo eleitor", o que poderia depender de menor abstenção, e diz que seria necessário "gerar um choque" e "criar um fato", já que medidas recentes não surtiram o efeito esperado.
(Por Alexandre Rocha e Luísa Laval)
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