Brasileiros votam em 2026 com renda mais comprometida por dívidas
Envato
Brasília - Os brasileiros vão às urnas em 2026 com uma parcela maior de sua renda comprometida com dívidas em comparação às eleições presidenciais anteriores. Em alta desde o início de 2024, o comprometimento da renda das famílias com operações realizadas no sistema financeiro tem renovado recordes ao longo deste ano e chegou a 28,5% em maio, último dado disponível na série do Banco Central.
O indicador aumentou 3 pontos porcentuais em relação a maio de 2022. Frente ao mesmo mês de 2018, o crescimento foi de 6 pontos. Em 20 anos, usando como base maio de 2006, o avanço supera 45%.
Leia também
O endividamento das famílias também tem oscilado em níveis recordes desde o início deste ano, próximo de 50%. O indicador mede a relação entre o valor atual das dívidas das famílias com o Sistema Financeiro Nacional e a renda das famílias acumulada nos últimos doze meses.
Os dados refletem variáveis que afetam a percepção de bem-estar da população e, segundo especialistas ouvidos pela Broadcast, podem pesar no resultado do pleito de outubro por meio do voto econômico.
O cenário já entrou no radar das campanhas. Em busca da reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apostou suas fichas no Desenrola 2.0, lançado em maio. A primeira edição do programa de renegociação de dívidas, lançada em 2023, foi uma promessa de campanha em 2022.
Entre adversários, o tema tem servido de munição. Um vídeo publicado no X pelo senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL, no início de agosto, afirma que o governo Lula "está afundando as famílias em dívidas". Já o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, candidato pelo PSD, acusou o governo de ter induzido a população a consumir e tomar empréstimos, em declaração dada em junho.
Voto econômico
Os números recordes de endividamento e de comprometimento da renda podem se manifestar na eleição por meio do voto econômico, porque reforçam a sensação de vulnerabilidade da população, analisa o cientista político Rafael Cortez, sócio da Tendências Consultoria. "É um voto que premia ou pune o governo a partir da percepção de bem-estar", diz.
Segundo ele, esse efeito tende a atingir principalmente quem busca a reeleição - o que, em tese, pode dificultar a vida do presidente Lula.
Tanto assim que o governo fez o Desenrola 2.0, justamente para tentar minimizar essa sensação de mal-estar."
Cortez avalia que os oponentes do petista podem se beneficiar indiretamente de uma eventual insatisfação da população com o governo, mas ressalta que isso não é automático. "O eleitor pode desaprovar uma determinada administração e votar em branco, nulo ou até manter o governo por considerar a alternativa pior", pondera.
Apesar do avanço do voto ideológico na última década - no Brasil e no mundo -, o voto econômico segue importante, ressalta o economista Bráulio Borges, da LCA Consultores e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre).
A sensação de bem-estar econômico às vésperas das eleições certamente influencia o voto de uma parcela da população", afirma.
Segundo ele, "bondades" adotadas em ano eleitoral podem melhorar essa percepção e ajudar a elevar a aprovação do governo, ainda que sem garantir uma vitória.
No caso atual, Borges diz que medidas adotadas pelo governo Lula parecem ter produzido uma recuperação recente, porém moderada, da aprovação.
Não é uma recuperação expressiva, suficiente para ganhar com folga ou mesmo ganhar no primeiro turno, mas a gente já vê algum efeito dessas medidas na aprovação e, portanto, isso é compatível com a importância ainda elevada do chamado voto econômico."
(Por Marianna Gualter)
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.