Golpistas usam falso Desenrola para enganar endividados nas redes sociais
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São Paulo - Quem procura uma forma de renegociar dívidas pode encontrar nas redes sociais ofertas que parecem boas demais para deixar passar: descontos de até 99%, supostos benefícios liberados para o CPF e programas apresentados como iniciativas do governo. Parte dessas ofertas, porém, é falsa.
Um levantamento do NetLab UFRJ identificou 544 anúncios fraudulentos relacionados ao Desenrola Brasil, programa do governo voltado à população endividada, veiculados entre 1º de abril e 14 de junho de 2026 nas plataformas da Meta. As peças estavam ligadas a 48 páginas anunciantes.
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Segundo o estudo, os anúncios exploram principalmente a credibilidade do Desenrola e de marcas conhecidas. Algumas campanhas direcionam o usuário para sites suspeitos, podem solicitar dados pessoais ou levam a conversas no WhatsApp, onde outras etapas da fraude podem ocorrer.
Para quem está endividado, a promessa de quitar uma dívida elevada por uma pequena quantia pode ser especialmente atraente. Os anúncios também recorrem à urgência, sugerindo que a oportunidade pode acabar a qualquer momento.
Libera Brasil
O relatório identificou dois grupos principais de anúncios. Um explora diretamente a marca do Novo Desenrola Brasil. O outro promove um suposto programa governamental chamado “Libera Brasil”, apresentado como uma alternativa mais vantajosa ao programa oficial.
O chamado “Libera Brasil” aparece em 266 anúncios, ou 49% das peças analisadas. Os conteúdos apresentavam o programa inexistente como uma alternativa ao Desenrola e mencionavam um suposto “decreto” que garantiria o benefício.
Os anúncios prometiam limpar o nome mediante um pagamento único de até R$ 70. Em alguns exemplos, uma dívida superior a R$ 8 mil aparecia como passível de quitação por R$ 40. O usuário era orientado a consultar se o CPF estava liberado e informado de que o benefício poderia terminar a qualquer momento.
Os primeiros anúncios fraudulentos foram identificados em 9 de abril, antes do lançamento do Novo Desenrola Brasil, em 5 de maio. A circulação das campanhas aumentou depois do lançamento, movimento que, segundo os pesquisadores, sugere uma tentativa de aproveitar a visibilidade do programa para dar credibilidade às peças falsas.
As peças que mencionavam o Libera Brasil permaneceram no ar, em média, 2,5 vezes mais tempo que as relacionadas ao Desenrola. O relatório considera que isso pode indicar uma tentativa de evitar mecanismos de fiscalização por meio do uso de um nome diferente do programa oficial.
Golpes criados com IA
A inteligência artificial aparece em uma parcela significativa das campanhas. O estudo encontrou 207 anúncios com conteúdo gerado ou manipulado por IA, equivalentes a 38,1% do total.
Entre eles estão vídeos com indícios de deepfake, técnica que permite alterar imagens e vozes para fazer uma pessoa parecer dizer ou fazer algo que não ocorreu daquela forma.
Dos 194 anúncios em vídeo com indícios de IA mencionados no relatório, 182 promoviam o falso Libera Brasil. Alguns simulavam conversas entre pessoas endividadas e influenciadoras financeiras para tornar a mensagem mais convincente.
O estudo também identificou sete anúncios com deepfakes do deputado federal Nikolas Ferreira. O alerta para o consumidor é importante: um vídeo bem produzido, mesmo com uma pessoa conhecida, não comprova que a oferta seja verdadeira.
Redes sociais
Os pesquisadores encontraram as campanhas no Facebook, Instagram, WhatsApp, Threads e Messenger, além da Audience Network, rede que permite à Meta exibir anúncios em aplicativos de terceiros. Facebook e Instagram concentraram a maior parte das ocorrências.
O problema, segundo o relatório, não é novo. Estudos anteriores do NetLab UFRJ já haviam identificado anúncios fraudulentos relacionados ao Desenrola Brasil. Pesquisas realizadas em 2023 e 2024 contribuíram para medidas contra essas campanhas, mas monitoramentos posteriores encontraram novas peças circulando.
Como se proteger de anúncios falsos
De acordo com o estudo da NetLab, seguir as recomendações abaixo é uma maneira de evitar fraudes nas redes sociais:
- Desconfie de descontos muito altos, especialmente quando uma dívida elevada poderia ser quitada por poucos reais.
- Não confie apenas em logotipos e nomes conhecidos. O estudo identificou uso indevido de marcas públicas e privadas.
- Confira o endereço do site antes de fornecer dados. Parte dos anúncios levava a páginas que tentavam imitar canais oficiais.
- Evite fornecer CPF, dados bancários ou outras informações pessoais a páginas suspeitas.
- Desconfie de mensagens de urgência, como “última chance” ou ofertas que podem terminar a qualquer momento.
- Tenha atenção redobrada com vídeos aparentemente oficiais. O levantamento encontrou centenas de anúncios com conteúdo gerado ou manipulado por IA.
- Não considere o WhatsApp uma garantia de autenticidade. Algumas campanhas usavam o aplicativo para dar continuidade à abordagem.
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