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Demência não afeta homens e mulheres da mesma forma, diz especialista

Gui Pimenta

Celene Queiroz propõe análise de gênero na prevenção e no cuidado às demências - Gui Pimenta
Celene Queiroz propõe análise de gênero na prevenção e no cuidado às demências
Por Emanuele Almeida

28/08/2026 | 19h09

São Paulo - A discussão pública sobre o envelhecimento e a saúde mental frequentemente coloca todas as condições de declínio cognitivo sob um mesmo guarda-chuva, simplificando diagnósticos e tratamentos como se fossem universais. No entanto, durante o Congresso Brasileiro de Alzheimer em São Paulo, a presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz), Celene Queiroz, fez um alerta contundente: "A gente sempre tratou a questão das demências como uma coisa igualitária entre os gêneros, mas ela não é".

Por trás das estatísticas frias de perda de memória, escondem-se profundas desigualdades de gênero, raça e classe social que ditam quem adoece, quem é diagnosticado e quem carrega o peso invisível do cuidado. 

Biologia, sociedade e o peso hormonal

As mulheres são estatisticamente mais propensas a desenvolver quadros demenciais ao longo da vida. O primeiro Relatório Nacional sobre a Demência no Brasil (2024) apontou que o índice de diagnóstico é de 9,1% entre as mulheres, comparado a 7,7% entre os homens idosos. Além disso, dados do DataSUS revelam que as mulheres correspondem a cerca de 65% das internações hospitalares causadas por Alzheimer no País.

Essa vulnerabilidade não é apenas uma consequência do fato de as mulheres viverem mais; ela é moldada por uma complexa teia de fatores biológicos e determinantes sociais", destaca Celene Queiroz. 

A flutuação hormonal, especialmente durante a menopausa, surge como um importante fator de risco biológico. Celene explica que o metabolismo da glicose e os processos inflamatórios associados a essa fase de transição desempenham um papel crítico. Segundo ela, existe a possibilidade de que o tratamento hormonal realizado no momento oportuno — próximo ao início da menopausa — funcione como um fator de proteção contra a demência.

Norberto é um homem branco, usa óculos, está sentado e usa terno
Anizio aponta que a ciência ainda carece de respostas definitivas sobre o papel da reposição hormonal.  Emanuele Almeida/VIVA

O neurologista e diretor científico da Abraz, Norberto Anizio, concorda que há um papel hormonal influenciando a doença. No entanto, do ponto de vista científico, ele pondera que a ciência ainda carece de respostas definitivas: ainda não se pode afirmar que realizar a reposição hormonal de fato diminua a incidência de Alzheimer ou melhore o quadro clínico de quem já tem a patologia.

Biomarcadores e fatores sociais

Além dos aspectos puramente hormonais, as desigualdades sociais e de raça interferem diretamente na saúde cognitiva feminina. Tanto Queiroz quanto Anizio apontam que existem diferenças nos resultados de biomarcadores da doença entre mulheres negras e brancas, sugerindo que o fator racial também modula a expressão biológica da patologia.

Além disso, fatores ambientais, tais como a poluição do ar e a exposição a catástrofes decorrentes de questões climáticas, também atuam como vetores de risco adicionais para o desenvolvimento de demências.

Violência

Um dos aspectos mais silenciados e impactantes trazidos por Queiroz é a relação direta entre a violência sofrida ao longo da vida e o desenvolvimento de demências na velhice.

"Meninas são historicamente as maiores vítimas de violência psicológica e sexual desde a infância. Na vida adulta e na velhice, mulheres expostas à violência psicológica extrema, espancamentos e esganamentos apresentam uma expectativa de vida reduzida, morrem mais cedo e registram taxas significativamente maiores de demência", alerta.

Dados e futuro do tratamento

Diante desse cenário, Celene defende a urgência de políticas públicas que ofereçam suporte financeiro e programas de "respiro" para as famílias. Para mapear essas variáveis historicamente ignoradas pelo Estado, a Abraz, em parceria com o Instituto Cordial, está desenvolvendo o Painel Nacional de Demências, um projeto voltado a estruturar um mapa do universo temático da doença para expor os impactos sociais, previdenciários e econômicos até então invisíveis.

Do ponto de vista de tratamento, o diretor científico da Abraz pontua também que as descobertas de biomarcadores diferenciados por gênero apontam para uma medicina muito mais personalizada.

O especialista destaca que a ciência acumula cada vez mais evidências de que a doença de Alzheimer não é uma condição única, mas sim um conjunto de subtipos com diferentes perfis e velocidades de evolução baseados no sexo do paciente.

"No futuro, essa diferenciação será crucial para o tratamento, uma vez que homens e mulheres podem responder de formas distintas aos medicamentos, permitindo que a medicina separe o diagnóstico de Alzheimer em comportamentos biológicos específicos e direcionados", conclui. 

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