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Netos criam associação de cannabis medicinal para ajudar avós com Alzheimer

Divulgação/Angatu

Após o Alzheimer atingir os avós paternos e maternos, os irmãos passaram a buscar alternativas de tratamento - Divulgação/Angatu
Após o Alzheimer atingir os avós paternos e maternos, os irmãos passaram a buscar alternativas de tratamento
Por Bianca Bibiano

26/07/2026 | 17h00

São Paulo - Quando os avós paternos receberam o diagnóstico de Alzheimer, os irmãos Lucas, Mateus e Rafael Candini passaram a buscar alternativas para aliviar sintomas que os medicamentos convencionais já não conseguiam controlar de forma satisfatória. Pouco tempo depois, os avós maternos também desenvolveram a doença. 

A experiência transformou a rotina da família e, anos mais tarde, resultou na criação da Angatu em 2023, associação de cannabis medicinal sediada em Belo Horizonte (MG) e que hoje atende cerca de 1,6 mil pacientes com doenças neurodegenerativas, dor crônica, Parkinson, ansiedade e outras condições de saúde.

A história da entidade começou antes mesmo da fundação oficial, em 2023. Advogados de formação, Lucas e Mateus passaram a estudar a cannabis medicinal quando perceberam o avanço da doença nos quatro avós. O terceiro irmão, Rafael, é médico e também participou da busca por alternativas terapêuticas.

"Foi um ativismo que começou por causa da nossa família, dos nossos avós, que foram diagnosticados com Alzheimer. Primeiro os paternos, depois os maternos. Foi tudo muito rápido e próximo um do outro", contou Lucas Candini, advogado e um dos fundadores da associação, em entrevista ao VIVA.

Na época, a família iniciou o tratamento com produtos disponíveis em farmácias, mas os custos elevados fizeram com que buscassem outras possibilidades. Foi nesse processo que conheceram o movimento das associações de pacientes voltadas à cannabis medicinal, experiência que inspirou a criação da Angatu.

História familiar deu origem à associação

Segundo Lucas, o contato próximo com os avós mostrou que o desafio não era apenas encontrar um tratamento, mas também enfrentar o preconceito em torno da cannabis medicinal, inclusive entre profissionais de saúde:

"Era realmente um momento de muito desespero. Foi quando a gente viu na cannabis uma alternativa, porque, pior do que estava, não tinha como ficar".

Durante a busca por alternativas, a família percebeu que outras pessoas enfrentavam dificuldades semelhantes. "A gente começou a entender que existia uma demanda não só por produto à base de cannabis, mas também por informação", disse.

Hoje, a Angatu atua na orientação de pacientes, conecta famílias a profissionais de saúde e oferece suporte jurídico para quem busca tratamento dentro das normas vigentes. A maior parte dos associados tem mais de 50 anos, refletindo a procura por alternativas terapêuticas para doenças neurodegenerativas e outras condições crônicas relacionadas ao envelhecimento.

Benefícios observados com o uso da cannabis medicinal

Os fundadores fazem questão de diferenciar a experiência pessoal das evidências científicas disponíveis e ressaltam que a cannabis medicinal não reverte o Alzheimer, mas afirmam ter observado melhora de sintomas que comprometiam a qualidade de vida dos avós.

Lucas relata, por exemplo, que uma das avó apresentava intensa agitação e alterações importantes no sono antes do início do tratamento. Já o avô desenvolveu episódios de agressividade à medida que a doença avançava.

"A cannabis tirou essa agressividade e, ao mesmo tempo, gera uma satisfação. O humor dele fica muito bom, ele fica muito alegre, muito feliz. As noites de sono ficam muito melhores. É uma mudança principalmente no bem-estar do idoso e que afeta toda a rede de apoio", afirmou.

Com as melhorias, a família conseguiu suspender medicamentos tradicionais voltados ao controle do humor e do sono. "A gente conseguiu retirar todas as medicações de humor, todas as quetiapinas, aripiprazol e remédios de sono que eles tomavam".

Lucas também cita a recuperação de uma das avós após um aneurisma ocorrido em 2024. Segundo ele, ela deixou o hospital sem conseguir falar ou andar, e voltou a recuperar parte das funções ao longo do tratamento e da reabilitação.

"Ela conseguiu recuperar a fala. Hoje conversa normalmente. Também recuperou os movimentos. Saiu de estar acamada e hoje está 'semi-acamada'. Faz fisioterapia, levanta, se move da sala para o quarto, do quarto para a cozinha. É claro que não recuperou 100%, mas, pelo que a gente vê e pelo que já conversou com vários profissionais da saúde, foi uma coisa fantástica".
Mateus Candini, da associação Angatu, em retrato com o avô
Lucas Candini, advogado, e um dos avós que o inspirou a criar a associação em parceria com os irmãos - Divulgação/Angatu

Atualmente, o uso da cannabis medicinal para pacientes com Alzheimer ainda é estudado como estratégia complementar para o manejo de sintomas como agitação, ansiedade, alterações comportamentais e distúrbios do sono. Apesar do potencial terapêutico, não há até o momento evidências de que o tratamento interrompa ou reverta a progressão da doença.

Expansão e desafios da cannabis medicinal

Mateus Candini afirma que a escolha de criar um modelo associativo aconteceu depois que a família conheceu entidades que já atuavam no setor e viram uma alternativa viável diante das limitações de formulação dos importados e dos altos preços da compra em farmácias.

"Vimos que o acesso era muito mais democrático, barato e acessível. Então falamos: 'Temos que ir por esse caminho e democratizar também o acesso'", relembra.

Lucas complementa contando que o contato com outros pacientes reforçou essa decisão. "No terceiro setor estamos mais próximos do paciente e conseguimos  oferecer um cuidado, um acolhimento que nenhuma empresa consegue".

Apesar dos avanços regulatórios recentes, como a publicação das resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) voltadas ao setor, os fundadores afirmam que ainda existe insegurança jurídica para associações que cultivam cannabis para fins medicinais.

"Ainda falta darmos passos para que, de fato, nenhuma associação seja criminalizada, nenhum jardineiro, nenhuma pessoa que cultive cannabis para fins medicinais sofra perturbação", afirmou Lucas, que complementa:

"Tudo começou dentro da nossa própria família, quando buscamos alternativas para melhorar a qualidade de vida dos nossos avós. Hoje, trabalhamos para que mais pessoas tenham acesso à informação, ao acompanhamento adequado e a tratamentos conduzidos com responsabilidade e respaldo científico".

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