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Brasil não tem estrutura médica para conter avanço do envelhecimento, diz AMB

Emanuele Almeida/VIVA

O presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Carlos Fernandes e o oncologista Drauzio Varella discutiram o cenário da medicina no Brasil durante o 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral - Emanuele Almeida/VIVA
O presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Carlos Fernandes e o oncologista Drauzio Varella discutiram o cenário da medicina no Brasil durante o 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral
Por Emanuele Almeida

12/06/2026 | 13h34

São Paulo - A medicina brasileira enfrenta um desafio sem precedentes: a colisão entre uma população que envelhece rapidamente e um sistema de saúde que parece incapaz de oferecer o cuidado adequado.

Para o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), César Eduardo Fernandes, a maior preocupação reside no fato de que o sistema de saúde e o corpo médico atual não possuem estrutura para o "tsunami de longevidade" que se aproxima.

Não há geriatras suficientes e os médicos generalistas que estão chegando ao mercado não foram devidamente preparados para essa complexidade".

César Eduardo Fernandes em entrevista ao VIVA durante o 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral, na quinta-feira, 11. 

No mesmo evento, o médico oncologista, Drauzio Varella aponta também que "a longevidade custa caro" para o sistema, explicando que, enquanto o jovem praticamente não gera custos para o SUS, o idoso traz consigo um "pacote" de comorbidades e doenças crônicas.

Ele destaca que a falha do modelo médico atual brasileiro é evidenciada pela incapacidade de conter o avanço das duas maiores epidemias modernas: a hipertensão e o diabetes. Varella classifica como a "falência da profissão" o dado alarmante de que, em um acompanhamento de um ano, apenas 12 em cada 100 pacientes hipertensos conseguem manter a pressão controlada. 

Esse resultado pífio é atribuído ao modelo de consultório isolado, onde o médico atua de forma centralizada e muitas vezes participa de uma "farsa" imposta por planos de saúde, com consultas de apenas 10 a 15 minutos que impossibilitam qualquer exercício real da ética ou da arte da medicina".

Para o oncologista, o especialista frequentemente negligencia o controle crônico do paciente por estar mais focado em casos agudos de sua área, ignorando que o tratamento de doenças crônicas exige vigilância contínua, algo que o médico sozinho não consegue prover, necessitando de um trabalho melhor integrado com agentes de saúde, enfermeiros e farmacêuticos. 

Nas periferias, o cenário é ainda mais crítico. O presidente da AMB destaca que esses locais acabam sendo ocupados por profissionais menos qualificados, que enfrentam a falta de referências e contra-referências estabelecidas. "Sem uma rede funcional para encaminhar casos complexos, o atendimento ao idoso torna-se extremamente frágil", conclui Fernandes. 

Formação médica impacta atendimento

Este cenário de fragilidade no atendimento ao idoso é agravado por uma crise profunda na educação médica. César Fernandes diz que uma de suas maiores preocupações atuais reside na baixa proficiência dos novos médicos. Dados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025 revelam que um terço dos formandos não possui as condições mínimas para o exercício da profissão.

Dos 39.256 concluintes de medicina que participaram da prova, 13.871 estão se formando em faculdades com conceitos 1 e 2, ou seja, abaixo da nota mínima aceitável pela própria metodologia adotada pelo Ministério da Educação.

O número alarmante que ecoa nas críticas do médico oncologista, Drauzio Varella sobre a mercantilização do ensino. O oncologista reforça que a explosão de escolas médicas — que saltaram de quatro para 89 apenas no estado de São Paulo desde sua formatura, nos anos 1960 — foi movida por interesses financeiros, transformando a abertura de cursos em um negócio de R$ 200 milhões.

O presidente da AMB alerta que o curso de medicina no Brasil é "terminal".  "Sendo assim, ele permite que um jovem sem treinamento adequado ou residência médica assuma plantões de urgência, o que pode comprometer seriamente o prognóstico de pacientes graves", reforça.

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