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Sobre a coluna

Arquiteta de talentos, co-fundadora da Talento Sênior, mestre em Gestão para Competitividade pela FGV com pós-MBA em Marketing e Liderança pela FDC/Kellogg


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O paradoxo brasileiro: sociedade envelhece e o mercado ainda não acompanha

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A longevidade, quando bem integrada ao sistema produtivo, pode se tornar um diferencial competitivo - Envato
A longevidade, quando bem integrada ao sistema produtivo, pode se tornar um diferencial competitivo

São Paulo - O Brasil está envelhecendo. Essa afirmação, que há alguns anos parecia distante, hoje já não é mais uma projeção, é uma realidade em curso. A expectativa de vida aumentou, a proporção de pessoas acima dos 50 anos cresce de forma consistente e o desenho demográfico do País começa, lentamente, a se transformar.

Mas, há um desalinhamento que ainda passa despercebido: enquanto a população envelhece, o modelo de trabalho permanece praticamente o mesmo. Essa desconexão não é trivial. Ela revela um dos maiores desafios estruturais do País nas próximas décadas e, ao mesmo tempo, uma das oportunidades mais negligenciadas.

Leia também: Mercado brasileiro não está preparado nem para os 60+ nem para os jovens

Durante muito tempo, o Brasil operou com uma lógica demográfica favorável. Uma base ampla de população jovem sustentava o crescimento econômico, abastecia o mercado de trabalho e compensava, em certa medida, ineficiências estruturais. Esse ciclo está se esgotando.

Hoje, o País começa a viver uma transição semelhante à de economias mais maduras, mas em um ritmo acelerado e com menos preparo institucional."

A população em idade ativa já não cresce na mesma velocidade e o peso relativo dos grupos de pessoas mais velhas aumenta ano após ano. Segundo dados recentes, o Brasil ainda é um país majoritariamente adulto, mas o envelhecimento avança de forma consistente e irreversível.

Esse movimento, por si só, já exigiria ajustes no mercado de trabalho. Mas, ele ocorre simultaneamente a outra transformação igualmente profunda: a reconfiguração do próprio trabalho impulsionada pela tecnologia. E é justamente na interseção entre essas duas forças — demografia e tecnologia — que surge o verdadeiro desafio.

De um lado, o envelhecimento amplia a necessidade de manter pessoas economicamente ativas por mais tempo. De outro, a transformação do trabalho altera os critérios de permanência, exigindo novas formas de gerar valor.

O problema é que o sistema ainda opera como se essas duas mudanças não estivessem acontecendo ao mesmo tempo.

O resultado é um paradoxo. Nunca tivemos tantas pessoas com experiência acumulada no mercado de trabalho. E, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil para essas pessoas se manterem relevantes dentro do modelo tradicional. Isso não acontece por falta de capacidade individual. Acontece por desalinhamento estrutural.

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 O mercado ainda está organizado para absorver trajetórias curtas, lineares e previsíveis. A lógica predominante continua sendo a do emprego como principal e, muitas vezes, única forma de participação econômica. Dentro dessa lógica, a senioridade frequentemente é tratada como custo, não como ativo. Esse desenho se torna ainda mais problemático quando combinado com a transformação tecnológica.

À medida que a IA avança, o valor do trabalho se desloca para a capacidade de interpretar, decidir e lidar com complexidade. Em teoria, isso favorece profissionais mais experientes. Na prática, no entanto, as estruturas organizacionais não foram redesenhadas para reconhecer esse valor. Cria-se, assim, uma assimetria difícil de sustentar.

Leia também: Aposentadoria ativa: profissionais reconfiguram carreira e se reinventam

De um lado, um contingente crescente de profissionais com repertório, capacidade de julgamento e potencial de contribuição. De outro, um sistema que não consegue absorvê-los de forma produtiva. Esse descompasso não é apenas um problema social. É um risco econômico.

Países que não conseguem integrar sua população madura ao mercado de trabalho tendem a enfrentar queda de produtividade, aumento de pressão sobre sistemas previdenciários e perda de competitividade. Ao mesmo tempo, deixam de capturar valor de uma parcela significativa da força de trabalho.

Mas há também uma oportunidade. A longevidade, quando bem integrada ao sistema produtivo, pode se tornar um diferencial competitivo. Profissionais mais experientes podem atuar em funções de maior complexidade, contribuir para a qualidade das decisões, acelerar o desenvolvimento de outros profissionais e sustentar processos críticos em ambientes de alta incerteza.

Como as empresas devem se preparar?

Para isso, no entanto, é necessário um movimento coordenado que ainda não está acontecendo na velocidade necessária. Do lado das empresas, isso implica revisar a forma como o trabalho é estruturado.

Não se trata apenas de criar programas de inclusão ou iniciativas pontuais, mas de incorporar a longevidade como variável estratégica na ‘Arquitetura de Talentos’. Isso envolve:

  • repensar papéis,
  • flexibilizar formatos de atuação,
  • valorizar a experiência em contextos em que ela faz diferença e
  • criar ambientes onde diferentes gerações possam, de fato, colaborar.

E os profissionais?

Do lado dos profissionais, o desafio é outro, mas igualmente relevante. Não basta acumular experiência. É necessário torná-la legível e aplicável dentro de um sistema que mudou. Isso exige:

  • reposicionamento,
  • clareza de proposta de valor e
  • capacidade de atuar em múltiplos formatos.

E, por fim, há um terceiro nível que não pode ser ignorado: o das políticas públicas.

O Brasil ainda carece de uma agenda estruturada para lidar com a longevidade produtiva. Educação ao longo da vida, incentivos à contratação de profissionais mais experientes, apoio à transição de carreira e estímulo a novos formatos de trabalho são temas que começam a aparecer, mas ainda de forma fragmentada.

Sem essa articulação, o risco é do País enfrentar uma transição demográfica sem o suporte institucional necessário para transformá-la em vantagem. A pergunta, portanto, deixa de ser apenas demográfica ou tecnológica. Ela se torna estratégica: O Brasil está preparado para integrar sua população madura a um sistema de trabalho que já não é o mesmo?

Porque envelhecendo, o País já está. O que ainda não sabemos é se seremos capazes de transformar essa longevidade em valor— ou se continuaremos tratando-a como um problema a ser administrado.

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