Alexandre Kalache
Colunista VIVA
03/06/2026 | 08h14
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Gerontólogo e professor, é presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brazil) e co-diretor do Age Friendly Institute. Ex-diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra
Do pânico da superpopulação ao do envelhecimento: estamos errando de novo?
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Rio de Janeiro - Quando eu era estudante de Medicina no Rio de Janeiro, no final dos anos 1960, prevalecia a convicção de que o mundo caminhava para o colapso devido à superpopulação. Recordo os vultosos recursos que a agência norte-americana USAID destinava ao Brasil para reduzir a natalidade.
Não se tratava apenas de ampliar o acesso a contraceptivos. Mulheres eram submetidas à laqueadura — e, em alguns casos, até a histerectomias — durante internações para o parto, inclusive aquelas com apenas um filho. O consentimento prévio frequentemente não era observado. A visão era clara: a explosão demográfica levaria à escassez generalizada, inclusive de alimentos.
Paul Ehrlich tornou-se o rosto mais conhecido desse pensamento. Seu livro "The Population Bomb (1968)" sintetizou o temor de uma era. A tese era direta: o crescimento populacional levaria à fome em larga escala, à escassez de recursos e à desordem social. Governos e organismos internacionais reagiram com vigor, investindo maciçamente — sobretudo na América Latina — em políticas de controle da natalidade.
Por décadas, projetamos catástrofes demográficas. Corremos, mais uma vez, o risco de confundir tendência com destino."
Onde foi que as previsões erraram
Em 1975, ao iniciar meu mestrado em Saúde Pública em Londres, arrisquei uma leitura distinta: o mundo envelheceria rapidamente, impulsionado não apenas pelo aumento da longevidade, mas, sobretudo, pela queda acelerada da fecundidade.
Hoje sabemos que as previsões malthusianas estavam erradas — não por falta de dados, mas por excesso de simplificação. Projetou-se o futuro como extensão linear do passado, ignorando a capacidade de transformação social.
Urbanização, maior escolaridade (especialmente entre mulheres), acesso a contraceptivos eficazes e mudanças nas aspirações individuais alteraram profundamente o comportamento reprodutivo. O resultado foi uma queda acentuada da fecundidade. Hoje, mais de dois terços da população mundial vivem em países abaixo do nível de reposição.
O debate ressurgiu recentemente, agora de forma invertida. Uma coluna de Eduardo Porter no "The Guardian" chama atenção para a queda da fecundidade — nos Estados Unidos e em outros países, inclusive no Sul Global — abaixo até mesmo das previsões mais recentes, sugerindo trajetórias de insustentabilidade.
Estamos prestes a repetir o erro, agora ao avesso. A análise parte de tendências reais, mas incorre na mesma falha: trata a demografia como destino.
O novo fantasma é o envelhecimento populacional. A narrativa dominante fala em “bomba-relógio”: menos jovens, mais idosos, sistemas previdenciários sob pressão, economias estagnadas. As respostas concentram-se, em geral, na contenção de custos — sobretudo em saúde e aposentadorias.
O Brasil ilustra bem essa encruzilhada. Dados recentes confirmam a continuidade da queda da fecundidade e o aumento da expectativa de vida. Revelam, porém, um ponto crucial: a expectativa de vida saudável não avança no mesmo ritmo. Vivemos mais, mas não necessariamente melhor.
Falhas acumuladas
Esse descompasso alimenta a ideia de que o envelhecimento será um fardo. Na realidade, expõe falhas acumuladas ao longo da vida. Doenças crônicas mal prevenidas, desigualdades persistentes, acesso tardio aos serviços de saúde e oportunidades educacionais limitadas produzem velhices mais frágeis.
O problema não é envelhecer, mas chegar despreparado.
Com investimento ao longo do curso de vida, o quadro muda. Promoção da saúde desde a infância, prevenção de doenças crônicas e foco na capacidade funcional podem transformar anos adicionais em vida ativa e autônoma. Ao mesmo tempo, estratégias de aprendizagem ao longo da vida permitem que pessoas mais velhas permaneçam produtivas, adaptem-se a novas tecnologias e ampliem sua contribuição.
Nesse contexto, o envelhecimento deixa de ser custo e passa a ser recurso. Pessoas idosas sustentam redes familiares, apoiam outras gerações, dinamizam economias locais e fortalecem o tecido social. Em mercados de trabalho mais flexíveis, experiência e estabilidade tornam-se ativos valiosos. Ignorar esse potencial é um erro — e um desperdício.
A questão não é demográfica. É política e institucional.
A velocidade da transição populacional — especialmente em países de renda média — não foi acompanhada por adaptações equivalentes nas políticas públicas e nas práticas do setor privado. Seguimos organizando saúde, educação e trabalho com base em uma realidade que já não existe.
O paralelo histórico é claro. As previsões catastróficas sobre a superpopulação captavam riscos reais, mas falharam ao ignorar a capacidade de resposta das sociedades.
Hoje, o alarme sobre o envelhecimento repete essa lógica: identifica um desafio legítimo, mas presume efeitos inevitáveis. Não são.
O envelhecimento populacional não é uma bomba-relógio. É um teste de inteligência coletiva.
Se falharmos, teremos sociedades mais desiguais, mais doentes e sob pressão fiscal crescente. Se acertarmos, a longevidade será um dos maiores ativos econômicos e sociais do século XXI.
A história já nos deu essa lição. Resta saber se aprenderemos — ou se erraremos de novo.
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