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Sobre a coluna

Embaixador do Stanford Center on Longevity, atua na interseção entre longevidade, trabalho e inclusão. Ex-executivo global na Microsoft e Apple, é também conselheiro de startups.


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Por que o envelhecimento ainda soa como declínio?

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Para enfrentar o etarismo, conheça a Teoria da Continuidade, proposta por Robert Atchley (1989) - Envato
Para enfrentar o etarismo, conheça a Teoria da Continuidade, proposta por Robert Atchley (1989)

Palo Alto, Califórnia - Por muito tempo, a sociedade criou discursos que retratavam a velhice como a etapa final de um ciclo, marcada por perdas, deterioração física e mental, falta de propósito e afastamento inevitável das atividades produtivas e sociais. Isso não apenas criou tabus, mas também fomentou hostilidade em relação às pessoas mais velhas. No entanto, o medo e a intolerância direcionados à velhice são paradoxais, já que todos nós — com cuidado, tecnologia e um pouco de sorte — provavelmente viveremos vidas cada vez mais longas.

Então, por que não tentar construir uma nova narrativa à luz das teorias contemporâneas da longevidade?"

A institucionalização do preconceito 

O etarismo se manifesta de maneira sutil, velada e frequentemente institucionalizada. Um exemplo disso é que personagens mais velhos costumam ser limitados aos papéis do “avô rabugento” ou da “avó esquecida”, quase sempre em funções secundárias que reforçam estereótipos de fragilidade ou alívio cômico.

Existem duas teorias que reforçam essa visão: do Desengajamento (Cumming e Henry, 1961), que defendia que o envelhecimento saudável acontecia por meio do afastamento gradual entre o indivíduo e a sociedade, abrindo espaço para gerações mais jovens. E a da Modernização (Cowgill, 1974), que associou o avanço tecnológico e industrial à perda de valor social das pessoas mais velhas. Juntas, essas visões ajudaram a consolidar a ideia da velhice como sinônimo de obsolescência e declínio.

A visão contemporânea da velhice ainda carrega as marcas de uma construção social que desvaloriza as pessoas mais velhas. O envelhecimento torna-se, assim, um tabu — algo a ser disfarçado, prevenido ou evitado — em vez de reconhecido como uma etapa legítima e valiosa da vida.

Para dar o primeiro passo contra essa lógica, podemos perguntar: como ressignificar a vida após os 50 se as estruturas sociais e culturais continuam presas ao paradigma do declínio e da exclusão?"

Uma nova teoria: Envelhecimento como  continuidade


Para enfrentar o etarismo, podemos substituir a premissa do afastamento social pela Teoria da Continuidade, proposta por Robert Atchley em 1989. A essência dessa teoria está na ideia de que a fase final da vida é uma extensão coerente das etapas anteriores. Ao se adaptar ao envelhecimento, os indivíduos buscam preservar autoconceito, atitudes, interesses e crenças, utilizando o passado como estratégia adaptativa para dar significado às novas escolhas da vida madura.

A ideia de que a vida adulta tardia é um período de potencial — e não de estagnação — é reforçada pela Perspectiva do Ciclo Vital (Life-Span Perspective), importante estrutura teórica da Psicologia do Desenvolvimento liderada por Paul Baltes. Essa perspectiva rejeita a associação linear entre idade e declínio e defende que o desenvolvimento é um processo contínuo, multidimensional e multidirecional, que se estende ao longo de toda a vida, da concepção à morte.

Isso significa que pessoas mais velhas não são seres passivos, mas capazes de adquirir novos aprendizados e otimizar habilidades cognitivas.


O manifesto da nova longevidade

O fenômeno global do envelhecimento populacional projeta mais de US$ 15 trilhões em atividade econômica gerada por pessoas com mais de 60 anos até 2050. Esse movimento foi denominado Silver Economy - ou economia prateada. Ela engloba consumo, atividades e demandas impulsionadas por pessoas mais velhas — um grupo demográfico que possui não apenas recursos, mas também tempo e poder de decisão significativo.

Entretanto, seria um erro enxergar essa economia apenas sob a ótica do consumo. Em países como o Brasil, essa faixa etária já demonstra sua força, contribuindo com aproximadamente 39% do PIB nacional.

A nova longevidade ressignifica a aposentadoria, transformando-a de conclusão em ponto de transição e reinvenção. Maturidade profissional e experiência acumulada tornam-se vantagens competitivas, impulsionando novos negócios fundados por pessoas acima dos 50 anos, o que desafia a ideia de que o sucesso empreendedor pertence apenas aos jovens.

Claro, é possível discutir como fatores econômicos — como a necessidade de complementar renda ou retornar a um mercado de trabalho afetado pelo etarismo — influenciam a decisão de empreender. Ainda assim, é inegável que pessoas 50+ permanecem economicamente ativas reforçam a ideia de continuidade produtiva e contribuição social.

Nesse sentido, a economia prateada representa uma mudança de paradigma para a sociedade. Não estamos mais falando de um grupo específico; estamos falando da sociedade como um todo.

O envelhecimento é um fenômeno global e sem precedentes, com a população acima de 60 anos projetada para ultrapassar 2,1 bilhões de pessoas até 2050. Essa tendência nos obriga a sair da teoria e assumir responsabilidade prática, já que, no fim, estamos falando do nosso próprio futuro.

A Revolução da Vida Adulta é, portanto, um convite para que a sociedade olhe para si mesma no futuro e crie, desde agora, a cultura e as políticas nas quais deseja viver."

O caminho adiante talvez seja a criação de um novo modelo de vida para todas as idades, integrando continuidade da experiência, neuroplasticidade da aprendizagem e o capital produtivo da economia prateada em benefício coletivo. O sucesso da longevidade não é uma questão de sorte. É uma questão de engenharia social, além de planejamento ético e econômico imediato.

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