CONFIRA

Células do sangue do cordão umbilical podem tratar mais de 80 doenças

Sangue que seria descartado pode tratar leucemia e linfoma; especialista explica riscos, custos e diferença entre locais que armazenam o material

Redação Viva

Por Redação Viva

22/10/2026 | 08h31

Adobe Stock

Sangue que permanece no cordão umbilical e na placenta é oportunidade terapêutica para outra pessoa - Adobe Stock
Sangue que permanece no cordão umbilical e na placenta é oportunidade terapêutica para outra pessoa
Ouvir texto 2:27 1x

O sangue do cordão umbilical e da placenta, frequentemente descartado, pode ser utilizado em transplantes para tratar mais de 80 doenças, incluindo leucemias, sem interferir no parto, mas gera dúvidas entre gestantes sobre bancos públicos e privados.

A coleta do sangue, rica em células-tronco hematopoéticas, é realizada por uma equipe treinada após o nascimento, e sua utilização depende de fatores como tipo de doença e compatibilidade entre doador e receptor.

Atualmente, a BrasilCord é o banco público responsável pela coleta e armazenamento gratuito, enquanto os bancos privados oferecem serviços pagos, mas não garantem a eficácia futura, levando a uma revisão da rede pública e a uma possível concentração no banco do INCA devido a desafios de diversidade genética e custos.

Resumo gerado por IA

São Paulo - O sangue que sobra no cordão umbilical e na placenta depois do parto, normalmente descartado, pode ser usado em transplantes para tratar mais de 80 doenças, entre elas leucemias, anemias e outras doenças do sangue. A sua doação, para esse uso, não interfere no parto, mas ainda gera dúvidas entre gestantes, principalmente sobre a diferença entre bancos públicos e privados.

“O sangue que permanece no cordão umbilical e na placenta, após o nascimento de um bebê, pode representar uma oportunidade terapêutica para outra pessoa”, reforça o ginecologista e obstetra Rodrigo Dias Nunes, diretor de Projetos Acadêmicos da Inspirali, empresa que administra 15 escolas médicas no Brasil.



Não é o cordão em si que é aproveitado, e sim o sangue que fica nele e na placenta, rico em células-tronco hematopoéticas, capazes de originar as diferentes células do sangue. Em um transplante, elas ajudam a reconstruir a produção sanguínea e o sistema imunológico do paciente, de forma semelhante às células da medula óssea.

Quando o uso é mais indicado

O uso principal é em doenças hematológicas, como algumas leucemias, linfomas, síndromes mielodisplásicas e doenças hereditárias do sangue e do sistema imunológico. A indicação, porém, depende do tipo e do estágio da doença, da idade e do peso do paciente e, sobretudo, da compatibilidade entre doador e receptor.

A coleta é feita por uma equipe treinada depois do nascimento e do clampeamento do cordão, por isso não traz risco adicional relevante para a mãe nem para o bebê. Infecções, certas doenças maternas, alterações congênitas ou complicações no parto podem impedir a doação, para proteger quem vai receber o material.

Depois de coletado, o sangue passa por testes laboratoriais, exames para agentes infecciosos e pela tipagem HLA, uma espécie de identidade imunológica usada para medir a compatibilidade, antes de ser congelado em temperaturas extremamente baixas. Quanto maior e mais diverso geneticamente o acervo, maiores as chances de um paciente encontrar uma unidade compatível.

Banco de cordão público ou privado

Na rede pública, a BrasilCord é o banco responsável por coletar, processar e armazenar células-tronco provenientes do sangue do cordão umbilical. O serviço é gratuito e o material pode ser usado por qualquer paciente compatível, sem parentesco com o doador. “Uma família doa, mas não fica proprietária daquela unidade”, explica Nunes.

No entanto, nos bancos privados, a família paga para guardar as células para um eventual uso futuro da própria criança ou de parentes. Mas o especialista alerta que isso não é garantia de aproveitamento futuro, pois em algumas doenças, as próprias células podem carregar as mesmas alterações genéticas que causam o problema.

A Anvisa considera esse uso particularmente inadequado em determinadas leucemias. “A decisão deve ser tomada com informação adequada, sem a ideia de que o armazenamento privado representa necessariamente uma garantia biológica para o futuro do filho”, diz o médico.

O cenário atual da rede pública também mudou. Segundo relatório da Anvisa referente a 2024, o País tinha 15 bancos públicos e 15 privados ao fim daquele ano. Os privados coletaram 4.388 unidades, enquanto a rede pública não fez nenhuma nova coleta para pacientes sem parentesco com o doador e usou apenas sete unidades em transplantes, cinco delas em pesquisa clínica.

Em janeiro de 2025, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e o Ministério da Saúde decidiram não abrir novas unidades nem ampliar o acervo, enquanto avaliam reduzir a rede e concentrá-la no banco do INCA. Para Nunes, o desafio hoje não é simplesmente coletar mais, mas equilibrar diversidade genética, qualidade das unidades, demanda real por transplantes e o alto custo de manter a estrutura.

(Mateus Rolim, especial para o VIVA)

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.