Cientista brasileiro desenvolve mosquito que não transmite dengue
Divulgação/Flavio Carvalho
São Paulo - O cientista e pesquisador Luciano Moreira, de 59 anos, ganhou projeção internacional ao ser incluído na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time, por desenvolver um método que utiliza a bactéria Wolbachia para bloquear a transmissão de vírus pelo Aedes aegypti.
Isso coroa um trabalho de vários anos, mais de uma década, um esforço coletivo de várias equipes, para que pudéssemos trazer um método sustentável e natural para o mundo", disse.
A tecnologia já é aplicada no Brasil e apresentou reduções de até 89% nos casos de dengue, segundo estudos recentes publicados na revista científica "The Lancet".
Formado em engenharia agronômica, Moreira construiu carreira na Fiocruz, onde atuou como pesquisador em saúde pública. Desde o início, direcionou sua atuação para soluções com impacto social e baixo impacto ambiental.
Ao longo de mais de 17 anos, liderou estudos sobre controle de arboviroses e consolidou seu nome como referência internacional. Em 2025, foi incluído na lista Nature’s 10, da Nature, que destaca cientistas que moldaram a ciência global.
Entenda o método Wolbachia
O método desenvolvido por Moreira parte de uma pergunta central: como reduzir a transmissão de doenças sem eliminar o mosquito. A solução foi introduzir a bactéria Wolbachia nos ovos do Aedes aegypti em laboratório.
A bactéria passa a viver nas células do inseto e interfere na replicação de vírus como dengue, zika e chikungunya. Com isso, o mosquito continua vivo, mas perde a capacidade de transmitir doenças com eficiência.
Quando são soltos no ambiente, os mosquitos com Wolbachia cruzam com os mosquitos selvagens. Os filhotes herdam a bactéria, que dificulta a multiplicação dos vírus da dengue, zika e chikungunya dentro do mosquito, reduzindo a transmissão.
A longo prazo, essa característica se espalha na população, e os mosquitos com Wolbachia passam a predominar, substituindo gradualmente a linhagem original.
Outro ponto decisivo é a hereditariedade, já que fêmeas infectadas transmitem a bactéria para os descendentes, permitindo que a característica se espalhe naturalmente nas populações. Isso reduz a necessidade de intervenções contínuas e acelera o impacto epidemiológico.
Estudos indicam redução média de 63% nos casos de dengue em áreas tratadas, com picos de até 89%.
O Ministério da Saúde destaca que a Wolbachia não transmite doenças para humanos e outros mamíferos. O método é recomendado pela Organização Mundial de Saúde e já foi adotado em 14 países.
O cientista explica que com a expansão nacional e interesse internacional, o método pode transformar o combate às arboviroses e influenciar políticas de saúde pública em escala global.
Ao longo de mais de uma década, o método Wolbachia no Brasil trabalhou juntamente com a Fiocruz para coletar evidências científicas e, assim, reunir todo o arcabouço necessário para que pudéssemos expandi-lo no País e obter credibilidade junto ao Ministério da Saúde para sua ampliação.
Biofábrica Wolbito
A pesquisa deu origem à biofábrica Wolbito do Brasil, considerada a maior do mundo no segmento, localizada em Curitiba. A iniciativa envolve parceria com o World Mosquito Program (WMP) e o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP).
A estrutura produz até 100 milhões de ovos por semana, com potencial de proteger milhões de pessoas por ano.
A técnica já integra a estratégia do Ministério da Saúde e está em expansão para diferentes cidades brasileiras, com base em critérios epidemiológicos.
"O método Wolbachia está presente em 17 municípios do Brasil, e em breve mais 15 serão contemplados", disse Moreira.
"Esperamos que, com esse reconhecimento, possamos ampliar a expansão do método no Brasil e no mundo e, assim, proteger cada vez mais vidas das doenças causadas pelo mosquito Aedes aegypti, como dengue, zika e chikungunya”, conclui.
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