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Cuidados paliativos: por que o acompanhamento vai além do suporte final?

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Controle precoce de sintomas, suporte à família e possibilidade de planejar decisões são vantagens dos cuidados paliativos - Envato
Controle precoce de sintomas, suporte à família e possibilidade de planejar decisões são vantagens dos cuidados paliativos
Por Bianca Bibiano

14/04/2026 | 16h44

São Paulo - Apesar de recomendados desde o diagnóstico de doenças graves, os cuidados paliativos ainda chegam tarde para a maioria dos pacientes no Brasil, muitas vezes apenas em fases avançadas, quando o sofrimento físico e emocional já está instalado.

Os cuidados paliativos são caracterizados por uma abordagem terapêutica com foco na qualidade de vida e no alívio do sofrimento de pacientes (e seus familiares), que enfrentam doenças graves, progressivas ou que ameaçam a continuidade da vida. O foco imediato é o controle da dor e de outros sintomas estressantes.

Segundo o geriatra e paliativista Lucíulo Melo, presidente da Comissão de Cuidados Paliativos da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), a principal razão desse descompasso é a desinformação e o estigma: a abordagem segue sendo associada, de forma equivocada, apenas ao fim da vida.

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Na prática, esse atraso limita benefícios importantes, como controle precoce de sintomas, suporte à família e possibilidade de planejar decisões de cuidado com mais autonomia.

"Confundir cuidados paliativos com fim de vida é um dos erros mais comuns e mais prejudiciais. Esse tipo de apoio não significa desistir, mas sim proteger. É um cuidado que acompanha o paciente ao longo da doença, e não no desfecho", explica Melo.

Como funciona

Segundo o especialista, a indicação desse tipo de abordagem não depende do diagnóstico, mas do impacto da doença na vida do paciente.

A pergunta não é qual doença tem indicação, mas se existe sofrimento relacionado a uma condição grave. Se há dor, limitação, angústia ou impacto na vida daquela pessoa, o cuidado paliativo já deveria estar presente".

Além do câncer, a abordagem também é indicada para outras condições, como insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença renal, demências e sequelas de acidente vascular cerebral, doenças que podem se prolongar por anos e comprometer progressivamente a qualidade de vida.

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Acesso tardio limita cuidado

Um dos principais entraves é o momento em que esse cuidado é incorporado. "Existe a ideia de que ele só entra quando não há mais o que fazer, mas isso não é verdade. Ele pode e deve caminhar junto com tratamentos que buscam controlar ou curar a doença. Costumamos dizer que o cuidado paliativo é como um guarda-chuva: ter o guarda-chuva não faz chover, mas quando a chuva chega, faz toda a diferença", afirma o médico.

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Quando iniciado precocemente, o cuidado paliativo contribui para o controle de sintomas como dor, falta de ar e fadiga, além de atuar em aspectos emocionais, sociais e espirituais do paciente.

"Não estamos falando apenas de tratar sintomas físicos, mas de olhar para a pessoa como um todo: seus medos, suas relações, sua história e o que é importante para ela naquele momento."

Esse olhar também reduz situações de sofrimento evitável. "Muitas pessoas chegam a momentos críticos sem nunca terem conversado sobre o que gostariam que fosse feito. Isso gera decisões difíceis, muitas vezes em ambiente de urgência, com familiares inseguros e sobrecarregados", diz.

Para o especialista, ampliar o acesso passa, necessariamente, por informação. "Os cuidados paliativos não antecipam nem adiam a morte, eles garantem que a vida, até o fim, seja vivida com dignidade. Quando as pessoas entendem isso, passam a buscá-los mais cedo e vivem melhor, mesmo diante de doenças graves", conclui.

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