‘Foco é na vida’: primeiro hospital de cuidados paliativos completa 1 ano
Leonardo Rattes/Ascom Sesab
31/01/2026 | 09h05
São Paulo, 31/01/2026 - De frente para o mar, Iaracy Mondego, de 69 anos, realiza fisioterapia, terapia familiar, diálogo e reflexões sobre sua vida no Hospital Mont Serrat, em Salvador (BA), a única instituição do Sistema Único de Saúde (SUS) dedicada aos cuidados paliativos no Brasil. Ela relata ao VIVA que, desde sua chegada à instituição, se sente significativamente melhor e que está desfrutando dos momentos proporcionados.
O centro de cuidados paliativos conhecido como “Hospital das Despedidas” completa um ano neste sábado, 31. Nesse pouco tempo, a instituição trouxe significado, atenção e qualidade de vida para os momentos finais de mais de 2 mil pacientes, contando com internações e atendimentos ambulatoriais.
Isso é o que confirma Bruna Mondengo, filha e acompanhante de Iaracy. Ela conta que sentiu uma melhora significativa na mãe, tanto fisicamente quanto espiritualmente, depois de sua chegada ao hospital.
A gente percebe que cada pessoa que está envolvida aqui tem um cuidado com minha mãe no sentido de que ela é uma pessoa, ela não é a doença que carrega", conta.
A paciente foi diagnosticada com câncer em 2023, o que levou à remoção do útero e colo do útero no mesmo ano. No entanto, Bruna menciona que, apesar do sucesso da cirurgia, alguns linfonodos continuaram no corpo de sua mãe, fazendo com que a doença avançasse até a necessidade de cuidados paliativos.
Antes de ser encaminhada ao hospital especializado, Iaracy estava muito debilitada e com episódios depressivos, conta sua filha. “Eu dizia a mim mesma: ‘Meu Deus, eu não tenho medo do câncer em si. Eu tenho mais medo da depressão da minha mãe do que da doença’”, relembra.
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Mas a chegada ao Mont Serrat em 23 de janeiro mudou toda a situação. Bruna conta que o cuidado constante dos trabalhadores do hospital ajudou sua mãe a retomar sua autonomia, autoestima e força:
Ela voltou a ter ânimo, voltou a ter voz, voltou a ter seu brilho. Hoje ela até se arruma e passa batom para encontrar meu pai nas visitas", conta Bruna.
Cuidado enquanto ainda há vida
A atenção e assistência nos cuidados paliativos do Monte Serrat segue uma premissa simples, mas forte: dar qualidade de vida ao paciente, independente do quanto tempo de vida ele ainda tem. É o que reforça a líder geral administrativa do hospital, Ingrid Correia:
“Aqui, nós conseguimos quebrar um pouquinho do tabu dos cuidados paliativos, que associava à morte. Aqui nós entendemos que o fim é parte do processo, mas o nosso foco é na vida”, aponta.
Essa filosofia é evidenciada por aspectos específicos do hospital, como a ausência de uma unidade de terapia intensiva (UTI) nas instalações. Isso deve ter como objetivo preservar a qualidade de vida e a serenidade dos pacientes, permitindo que cada um seja tratado sem dor ou sofrimento, evitando encaminhamentos para procedimentos que, muitas vezes, não trazem benefícios e comprometem a qualidade de vida.
Além disso, para facilitar a recuperação e a compreensão desse estágio final da vida, o Monte Serrat oferece atendimento multidisciplinar, com aproximadamente 469 colaboradores, em diversas áreas e especialidades, como cardiologia, anestesia, infectologia, nefrologia, neurologia, psiquiatria, pneumologia, além de unidades específicas.
Para elaborar o plano de cuidados, a equipe também inclui o paciente. Recentemente houve um encontro para tratar da assistência à Iaracy. O processo envolve conversas e tomadas de decisão sobre o tratamento, respeitando a autonomia e desejo do paciente.
“Hospital da Vida”
Desde sua inauguração, a unidade ficou conhecida como “Hospital das Despedidas”. Contudo, apesar de tais eventos ocorrerem, Ingrid prefere se referir ao seu local de trabalho como “Hospital da Vida”, considerando a boa taxa de altas concedidas aos pacientes.
É um hospital que surgiu com a previsão inicial de que teria poucos pacientes recebendo altas. No entanto, demonstramos o contrário, com uma média de alta de 29% nesse período de um ano", explica Ingrid.
Ela acrescenta que a média de dias que um paciente fica no hospital varia entre 8 e 10 dias.
Essa é a meta de Bruna e sua mãe, carinhosamente apelidada de “Iara”, que enfatiza o esforço diário no hospital para alcançar a alta: “Estamos todos aqui, lutando a cada dia”. Com essa determinação, ambas esperam receber alta do hospital para poderem se despedir em casa, com paz, independentemente do tempo que ainda possuam.
Como funciona o atendimento no hospital
O atendimento do hospital abrange todo o Estado da Bahia, recebendo pacientes encaminhados de mais de 400 municípios através da Central Estadual de Regulação, uma vez que a unidade não opera no modelo de "porta aberta".
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O processo de admissão exige que o paciente já esteja internado em outra unidade de saúde, onde um médico elabora um relatório clínico que é submetido à avaliação técnica de médicos paliativistas do hospital para autorização da transferência.
A instituição atende uma gama ampla de pacientes, desde recém-nascidos até idosos centenários, e utiliza a telemedicina como ferramenta estratégica. Sendo assim, caso a transferência física cause sofrimento excessivo ou afastamento familiar devido à distância, a equipe oferece suporte e orientação remota aos profissionais da unidade de origem, garantindo o cuidado sem o deslocamento do paciente.
Uma de nossas primeiras pacientes tinha mais de 100 anos e já recebemos paciente com menos de 30 dias", relembra Ingrid.
A unidade conta com 70 leitos clínicos de enfermaria, sendo 7 pediátricas e 63 para adultos.
Expansão está logo ali
O Monte Serrat é a primeira experiência de um hospital totalmente focado em cuidados paliativos no Brasil através do SUS, uma estruturação que não foi, e ainda não é, fácil, segundo Ingrid. No entanto, ela menciona que, nos últimos meses, a unidade recebeu visitas de representantes de secretarias de saúde de outros Estados e municípios.
"Esperamos expandir ainda mais nosso serviço e divulgá-lo para que a população conheça sobre cuidados paliativos. O objetivo é que esse se torne um projeto de hospital-escola para o resto do Brasil”, afirma a líder da unidade.
Bruna reforça que espera que o local ganhe muitos mais leitos e que seu modelo seja replicado. "Esse tipo de trabalho dá dignidade à pessoa com um diagnóstico terminal. Então, se puder ser replicado em outros hospitais, em outros lugares, vai ser muito importante. É isso que a gente espera”, conclui.
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