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Casos de câncer em idosos devem aumentar, mas não são 'sentença de morte'

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Segundo especialistas, a maior parte dos pacientes oncológicos são idosos - Freepik
Segundo especialistas, a maior parte dos pacientes oncológicos são idosos
Por Alexandre Barreto e Emanuele Almeida

08/04/2026 | 12h38

São Paulo - Neste Dia Mundial do Câncer, observado nesta quarta-feira, 8, uma realidade se mostra inadiável: de 2026 a 2028, o Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos por ano, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

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O aumento provém de diversos fatores, mas o principal deles é o envelhecimento da população, explica a oncologista do centro especializado em oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Eliza Ricardo.

Houve um aumento, sim, no número de casos em pacientes mais jovens. Mas a gente nunca pode esquecer que a maior parte dos pacientes oncológicos são idosos.”

O oncologista clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Oren Smaletz, concorda com o alerta e acrescenta que, para preparar os sistemas de saúde público e privado para essa onda, é preciso agir muito antes da velhice. Segundo ele, os hábitos de prevenção devem começar na faixa dos 20 ou 30 anos.

"O ideal seria ensinar as populações mais jovens a mudar os hábitos a partir de agora: o tabagismo, o uso do álcool de maneira bem parcimoniosa, uma alimentação com poucos ultraprocessados e o combate ao sedentarismo, para que essas pessoas cheguem aos 50 anos com um risco reduzido”, indica. 

Diagnóstico em idosos

O câncer de mama exemplifica esse contexto de alerta contínuo: o Inca aponta que o Brasil deve registrar 78.610 novos casos da doença anualmente. Além da alta incidência, o cenário chama a atenção para o impacto em idades mais avançadas, visto que as taxas de mortalidade são mais elevadas entre mulheres mais velhas. 

Um levantamento realizado pela Umane, associação civil dedicada ao apoio a iniciativas de saúde pública observou um crescimento na taxa de mortalidade por câncer de mama de 140% entre mulheres de 55 a 64 anos, 81% na faixa de 45 a 54 anos e 72% entre aquelas de 35 a 44 anos.

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Diante desse cenário, o diagnóstico no paciente idoso exige um olhar diferenciado devido às limitações físicas e cognitivas que podem acometer esse grupo. A tecnóloga em radiologia Dandara Matos aponta que a dificuldade de levantar os braços, a falta de equilíbrio e uma pele muito mais fina dificultam, por exemplo, a mamografia padrão. 

“A solução passa pelo atendimento humanizado, permitindo que a paciente faça o exame sentada e no seu próprio ritmo”, observa a profissional, destacando que o profissional precisa estar preparado para adaptar a altura do equipamento e ter paciência com o tempo de resposta mais lento do idoso.

'Shopping de médico'

Além das barreiras físicas, há desafios sistêmicos no diagnóstico. Eliza Ricardo alerta que muitos diagnósticos atrasam porque faltam geriatras para centralizar o cuidado.

Na saúde privada, segundo ela, os idosos costumam fazer um verdadeiro ‘shopping de médico’: "eles têm um cardiologista, um endócrino, um gastro, que não conversam entre si e podem perder um diagnóstico”. 

Outro ponto de dificuldade na prevenção do câncer é a datação dos exames preventivos para idosos. A tecnóloga em radiografia Dandara escuta frequentemente a indignação das pacientes por terem seus exames preventivos suspensos. 

Tela com que mostra exame de mamografia enquanto paciente está em outra sala fazendo o exame
Os especialistas destacam que exames preventivos precisam ser adaptáveis para pessoas idosas. Adobe Stock

Ela relata ouvir frases como: "eu queria ter feito uma mamografia, mas meu médico disse que eu não precisava mais fazer porque eu já tinha 79 ou 80 anos". Em outros casos, a própria desinformação faz com que as pacientes acreditem que, por terem atingido certa idade, não precisam mais realizar o rastreio. 

Tendo em vista esse cenário, a oncologista do Oswaldo Cruz questiona a lógica de interromper a indicação do rastreio apenas com base na idade cronológica. Para ilustrar, ela indaga o que justificaria indicar o exame para diagnóstico precoce de câncer de mama aos 74 anos e deixar de indicá-lo aos 76, visto que o próprio envelhecimento é um fator de risco e a pessoa de 80 anos continua tendo risco de desenvolver a doença.

Desafios no sistema público

No sistema público, as lacunas também aparecem na disponibilidade de exames preventivos. O oncologista Oren Smaletz destaca que, enquanto o rastreio com mamografia e o exame de próstata (PSA) são acessíveis, o SUS falha ao não disponibilizar exames cruciais para a população 50+, como a colonoscopia (para câncer colorretal) e a tomografia de baixa dosagem de radiação para pacientes com histórico de tabagismo. 

Ele ressalta que essa falta de acesso prejudica a detecção precoce, que é fundamental para aumentar as chances de cura e evitar tratamentos muito complexos no futuro. 

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Eliza alerta também sobre a diferença de infraestrutura entre as capitais e o interior, ressaltando que muitos pacientes são obrigados a enfrentar viagens desgastantes de 200 a 250 quilômetros apenas para chegar a um centro oncológico de referência e fazer seus tratamentos. 

Redes de apoio

Porém, é exatamente no abismo dessa exaustão logística e emocional que nascem redes de apoio vitais. Diagnosticada com câncer de mama em 2010, aos 43 anos, Eliane Bonine transformou a própria experiência e o medo inicial em uma missão de vida.

“Quando a gente recebe um diagnóstico de câncer, a primeira coisa que aparece na mente é a morte", relembra. 

Márcia é uma mulher de meia idade que veste uma camiseta rosa. Ela tem rosto redondo e cabelo médio loiro
Hoje Eliane tem 59 anos e continua a liderar o Iansa - Foto: Arquivo Pessoal

Menos de cinco meses após a notícia, ela fundou a Instituição de Apoio Nossa Senhora Aparecida (Iansa), em Franca (SP). E, o que começou como um trabalho "de formiguinha", onde a família fazia refeições e buscava pacientes no hospital com os próprios carros, hoje é um projeto que atende cerca de 1.500 pessoas por mês. 

Ela relata que a ideia da casa de apoio surgiu durante o intervalo entre a cirurgia e o início do tratamento. “Eu fiquei pedindo para Deus me mostrar e surgiu a palavra casa de apoio na minha cabeça. Aqui em Franca não existia nenhuma referência”, conta.

Durante o tratamento, que durou um ano e incluiu oito sessões de quimioterapia e 33 de radioterapia, ela estruturou o projeto.

Hoje, o Iansa oferece hospedagem para pacientes vindos de mais de 20 cidades da região, garantindo alimentação e apoio psicológico, social e jurídico durante todo o tratamento. A iniciativa também prova que os idosos são agentes ativos da sociedade: o próprio pai de Eliane, de 87 anos, atua como voluntário assíduo no local, trabalhando todos os dias a partir das 7h da manhã.

Eliane afirma que a experiência como paciente influenciou diretamente no modelo de acolhimento. “Eu sentia muita falta de conversar com alguém que me falasse que já passou por isso e que ia dar certo. Aqui a gente trabalha muito essa questão da conversa e do acolhimento”, explica.

Segundo ela, um dos principais desafios enfrentados por pacientes é o impacto emocional do diagnóstico. “O que mais me marcou foi o negativismo em torno da palavra câncer. As pessoas pensam que vão morrer e isso fragiliza ainda mais”, diz. 

'Vacinas contra o câncer'

O desafio das próximas décadas exigirá adaptações profundas nos sistemas público e privado. Mas a prevenção já possui armas poderosas disponíveis hoje. O Oren lembra que as tão sonhadas "vacinas contra o câncer" já existem e precisam ser aplicadas nos mais jovens: a vacina do HPV, que previne tumores de colo de útero, pênis e orofaringe, e a da Hepatite B, que evita a cirrose e o câncer de fígado. 

Para os especialistas, o futuro da prevenção, diagnóstico e tratamento de câncer no Brasil ainda caminha a “passos de tartaruga”, principalmente tendo em vista a diversidade de realidades de um País continental com abismos socioeconômicos. 

Mesmo assim, eles são unânimes em afirmar que o câncer em idosos “não é uma sentença de morte” e que o mito de que o paciente é "velho demais para tratar" precisa ser desconstruído.

Elisa e Smaletz destacam que a medicina evoluiu drasticamente, oferecendo hoje cirurgias minimamente invasivas, radioterapias mais curtas e o uso de terapias-alvo e imunoterapia de forma mais precoce, o que aumenta muito a sobrevida e melhora os resultados. 

A tecnóloga Dandara Matos relata atender diariamente pacientes com mais de 80 anos que realizaram cirurgias e quimioterapia e continuam mantendo uma boa qualidade de vida. Para que o processo seja seguro e eficaz, a principal recomendação dos profissionais é guiar a escolha do tratamento pela funcionalidade e independência do paciente, e não apenas pela sua idade cronológica. 

Para aqueles que já receberam o diagnóstico, o tratamento vai muito além da medicina, exigindo empatia e encorajamento. Como resume a fundadora da Iansa, Eliane Bonine: “A pessoa precisa entender que está passando por um desafio. Com força, fé e vontade de viver, ela supera. Eu coloquei na minha cabeça que ia vencer, e venci.”

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