Dia do Médico: como IA pode apoiar médicos a priorizar o atendimento humano
CFM estabelece diretrizes para o uso ético da IA na saúde, garantindo a autonomia do médico na tomada de decisões
Por Emanuele Almeida
18/10/2026 | 10h08Adobe Stock
No Dia do Médico, a medicina brasileira passa por uma transformação digital, com 66,1% dos médicos utilizando Inteligência Artificial (IA) em suas práticas diárias.
A pesquisa indica que a IA é mais utilizada para apoio ao diagnóstico e decisão clínica, com uma confiança 26% maior entre médicos que a utilizam regularmente, reforçando a ideia de que a tecnologia complementa a atuação médica.
Entidades médicas alertam para os riscos do uso indevido da IA e a necessidade de regulamentação, como a Resolução CFM nº 2.454/2026, que estabelece diretrizes para o uso da tecnologia, enfatizando que a autonomia do médico deve ser preservada.
São Paulo - Neste 18 de outubro, data em que se celebra o Dia do Médico, a medicina brasileira vivencia uma transição impulsionada pela transformação digital. O uso da Inteligência Artificial (IA) na rotina assistencial deixou de ser uma promessa futurista para se consolidar como uma ferramenta do dia a dia.
Um estudo realizado pela empresa de tecnologia em saúde, MV, revela que 66,1% dos médicos brasileiros utilizam ferramentas de IA de forma regular ou ocasional em suas atividades diárias.
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Os dados indicam que não há resistência da categoria em relação à inovação. De acordo com Paulo Magnus, CEO e fundador da MV, a tecnologia atua de forma complementar e não concorrente. "A IA serve como um assistente quase invisível dos profissionais, facilitando e automatizando processos e jamais substituindo o raciocínio médico", pontua.
No que a IA deve ser usada?
A principal porta de entrada da tecnologia na medicina tem sido o apoio ao diagnóstico e à decisão clínica. A pesquisa da MV aponta que 56,6% dos médicos que usam IA aplicam a ferramenta na interpretação de exames, sugestão de CID (identificação de doenças) e correlação de sintomas.
A experiência prática também gera maior segurança: a confiança na tecnologia é 26% maior entre os médicos que utilizam IA regularmente do que entre aqueles que nunca a experimentaram.
A diretora médica de Tecnologia do Grupo Samel, Emilyn Guerreiro, reforça que o ganho de eficiência operacional destina-se a fortalecer a relação humana.
A medicina vai muito além de diagnósticos, prescrições e registros em prontuários. Sua essência está no olhar, na escuta, no acolhimento e na relação de confiança construída entre médico e paciente", afirma a especialista."
Emilyn Guerreiro
Sobre a inteligência artificial, a médica pontua que ela é uma aliada porque potencializa o conhecimento e a atuação dos profissionais, sem substituir a sensibilidade, a empatia e a capacidade de acolher.
Para além do consultório
Outro campo de transformação intensa é a radiologia e a telerradiologia - uma especialidade da telemedicina que permite a análise remota de exames de diagnóstico por imagem e a emissão de laudos médicos à distância. A análise automatizada de exames e a interpretação a distância têm permitido superar barreiras geográficas, levando suporte especializado a hospitais de regiões remotas.
O superintendente médico da Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo em Diagnóstico por Imagem (FIDI), Harley De Nicola, destaca o papel da IA no reconhecimento de padrões e na priorização de exames urgentes. No entanto, o especialista aponta para um paradoxo:
"Apesar do avanço da inteligência artificial na área de diagnóstico por imagem, ainda enfrentamos uma escassez de radiologistas no Brasil e em países como os Estados Unidos. Por quê? Porque a demanda por exames continua crescendo e a tecnologia, em vez de eliminar a necessidade do médico, amplia sua capacidade de trabalho", explica.
O médico ressalta que a autonomia profissional deve ser preservada: "Interpretar um exame vai muito além de identificar alterações em uma imagem. É necessário compreender o contexto clínico e as particularidades de cada paciente".
É preciso cautela
À medida que a IA ganha espaço nos consultórios, entidades médicas alertam para os riscos do uso indevido da tecnologia por leigos e da proliferação de conteúdos falsos na internet.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) promove uma reflexão para alertar a população de que aplicativos e plataformas de inteligência artificial não substituem a consulta presencial.
"Cada paciente tem características e necessidades próprias, que precisam ser consideradas em uma avaliação individualizada", enfatiza o presidente da SBD, Carlos Barcaui.
A entidade também faz um alerta severo sobre o uso de IA para a criação de deepfakes — vídeos e áudios manipulados digitalmente que simulam a imagem de médicos reais para promover curas milagrosas ou vender produtos sem respaldo científico.
"Uma notícia falsa não é apenas um problema de informação. Na medicina, ela pode se transformar em um problema de saúde."
Sérgio Palma, membro da diretoria da SBD
A orientação da entidade é que os pacientes verifiquem sempre o registro do profissional no Portal de Busca por Médicos do Conselho Federal de Medicina (CFM).
Medicina e IA têm regras
Para estabelecer balizas claras, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução CFM nº 2.454/2026, norma que disciplina o desenvolvimento, a governança e o uso de sistemas de IA na saúde. A resolução reconhece a tecnologia como ferramenta legítima de apoio à decisão clínica e à gestão, mas estipula formalmente que a máquina jamais substitui a autonomia, o julgamento crítico e a responsabilidade ética do médico.
Sobre o uso consciente da IA pelos médicos, o presidente da SDB diz que não é tão importante saber quem vence uma disputa entre médico e máquina.
"Interessa saber o que acontece quando trabalhamos juntos. A evidência mostra que uma inteligência artificial de boa qualidade pode melhorar o desempenho diagnóstico do médico, mas uma informação errada fornecida pela máquina também pode induzir ao erro. Além disso, uma imagem não conta toda a história de um paciente", avalia.
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