IA na Medicina: nova resolução exige ética do médico e atenção do paciente
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São Paulo - A nova resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) nº 2.454/2026, que definiu as regras para o uso de inteligência artificial na Medicina, está valendo desde a última quarta-feira, 26. Na avaliação de especialistas, o uso da ferramenta exige mais rigor e atenção a possíveis zonas cinzentas.
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Diferentemente de um conjunto de livros técnicos ou outras fontes padrões de informação, a IA gera resposta caso a caso, entregando respostas mais adequadas a cada perfil, mas com maior margem de erro.
O vice-presidente de Operações da empresa de tecnologia Nava e especialista em IA, Michael Marinho, explica que esses erros – chamados de alucinação – fazem com que o robô possa:
- Deixar de considerar uma informação importante do histórico do paciente
- Interpretar corretamente um dado isolado, mas errar seu significado dentro do contexto
- Deixar de perceber uma situação de maior gravidade
- Indicar um problema que não existe
- Deixar de identificar um problema que existe
- Utilizar uma referência inadequada ou desatualizada
- Reproduzir vieses presentes nos dados utilizados em seu desenvolvimento
Marinho afirma que não é seguro deixar decisões importantes apenas na mão de chatbots, especialmente quando esses modelos podem errar de maneira convincente.
Para o paciente, existe uma mensagem especialmente importante: uma resposta convincente não é necessariamente uma resposta correta."
Este uso responsável é previsto na resolução, que exige pensamento crítico do médico em questão. A medida exata desta ponderação, no entanto, ainda é discutível.
O especialista em Direito Médico e sócio do Lara Martins Advogados, Gustavo Clemente, entende que a definição de "pensamento crítico adequado" e quando o médico deveria questionar a máquina são questões subjetivas, e podem ter respostas diferentes dependendo do julgamento.
"Agora, o médico tem mais deveres de documentação, o que ajuda sua defesa. Mas ainda há espaço para interpretações diferentes sobre o que foi realmente 'diligente' no caso concreto", afirma Clemente.
Existe risco à privacidade do paciente?
A resolução exige que os modelos de IA usados por serviços de saúde passem por critérios rigorosos de segurança desde o início – o chamado Privacy by Design. Além disso, os próprios médicos deverão zelar por essa privacidade ao usar a ferramenta.
Clemente prevê que os hospitais precisarão investir em treinamento de profissionais, para que possam entender se o paciente está anônimo e se os dados serão armazenados com segurança.
Não é suficiente saber usar a IA, é preciso saber usar a IA de forma segura", diz Clemente.
Michael Marinho reforça que é a governança, construindo boas práticas, que garante a proteção do paciente.
"O problema é que essa proteção não acontece automaticamente, simplesmente porque se está utilizando um modelo moderno", alega.
Como exemplo de práticas de segurança que devem ser tomadas por esses serviços de saúde, ele cita:
- registro das ações tomadas pela IA;
- retirar identificação dos pacientes;
- controle de acesso aos modelos.
Como usar a IA da maneira correta em 3 passos
Um estudo de quatro grandes centros de endoscopia na Polônia analisou 1.443 colonoscopias feitas sem auxílio de IA por 19 profissionais experientes, acostumados a utilizar a ferramenta. Os resultados dos exames indicaram um desempenho 20% inferior ao observado quando utilizavam IA.
O doutor em Inteligência artificial e professor associado da Universidade Federal de Goiás (UFG), Celso Camilo, enxerga este fato como um caso clássico de "deskilling": a perda gradual de habilidades humanas pós dependência da tecnologia.
Quando a pessoa apenas aceita a resposta da IA, ela ganha velocidade no curto prazo, mas pode perder capacidade crítica no longo prazo.”
Para evitar esta perda, Camilo sugere uma maneira profissional de usar a ferramenta e desafiar o próprio raciocínio, seguindo passos simples:
- Primeiro, o profissional apresenta sua análise.
- Depois, consulta a inteligência artificial, observando sua maneira naturalmente bajuladora.
- Por fim, justifica o que aceitou, o que descartou e por quê.
* Estagiário sob supervisão de Marcia Furlan
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