Exclusivo: 'Mãe da semaglutida' defende tratamento público para obesidade
Em Milão, Lotte Knudsen diz que ampliar o acesso pode reduzir riscos cardiovasculares e renais, e reforça o papel das mulheres na pesquisa
Por Bianca Bibiano
02/10/2026 | 17h53Bianca Bibiano/VIVA
O sucesso dos medicamentos para controle de obesidade, especialmente a semaglutida, impulsionou a indústria farmacêutica, com a cientista dinamarquesa Lotte Bjerre Knudsen sendo cotada para o Prêmio Nobel de Medicina. Sua pesquisa, que começou nos anos 90, visa ajudar pessoas com obesidade e já demonstrou benefícios significativos para a saúde pública.
Knudsen destaca a importância de tornar esses medicamentos acessíveis no sistema público de saúde, como o SUS no Brasil, onde a inclusão das 'canetas emagrecedoras' pode beneficiar muitos. Ela observa que, embora os preços sejam altos inicialmente, a redução dos custos ao longo do tempo pode democratizar o acesso a esses tratamentos.
A cientista, que recentemente deixou a Novo Nordisk, planeja continuar promovendo a inserção de mulheres na ciência e acredita que a semaglutida pode impactar a forma como entendemos o envelhecimento. Embora não esteja mais em um laboratório, ela se dedica a novos projetos e à promoção de modelos femininos na pesquisa científica.
Milão - O grande sucesso dos medicamentos para controle de obesidade elevou a indústria farmacêutica a outro patamar econômico, com bilhões de canetas e comprimidos vendidos globalmente. Mas pouca gente conhece a cientista por traz da tecnologia que deu a semaglutida reconhecimento mundial, a dinamarquesa Lotte Bjerre Knudsen, de 62 anos, uma das principais cotadas ao Prêmio Nobel de Medicina, que será divulgado na próxima segunda, 5.
Por mais da metade de sua vida, ela dedicou seu trabalho científico junto à Novo Nordisk, empresa que deixou em abril para se dedicar a projetos próprios, como contou em entrevista exclusiva, concedida nesta sexta-feira, 1, ao VIVA durante o congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD 2026), em Milão, na Itália.
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Discreta em relação à sua vida pessoal, a 'mãe da semaglutida' prefere usar seu espaço público para ressaltar a importância da inserção das mulheres na ciência. Por isso, há alguns anos, ela aderiu especialmente a roupas cor-de-rosa, o que considera uma forma de silenciosa e marcante de endereçar a necessidade de destaque desse grupo. Pudera: o Prêmio Nobel, ao qual é cotada, teve apenas 14 mulheres premiadas desde 1901 e mais de 200 homens.
Durante a entrevista, ela destaca que vê com otimismo a abertura dos governos que atuam para levar as chamadas 'canetas emagrecedoras' ao sistema público de saúde, movimento que acontece atualmente no Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Confira a seguir a entrevista completa:
VIVA: O que a senhora acha do fato de a semaglutida estar prestes a entrar no sistema público de saúde no Brasil, o SUS?
Lotte Bjerre Knudsen: Como você sabe, sou uma cientista, não sou médica. Eu fiz esse trabalho por tantos anos para ajudar as pessoas, sabe? Especificamente, para ajudar pessoas com obesidade, quando poucos estavam realmente interessados. Levou muito tempo para gerar toda essa evidência. Espero que com o passar do tempo, mais pessoas tenham acesso. Frequentemente, quando há novos medicamentos e enquanto ainda estão cobertos por propriedade intelectual, claro que precisam ser mais caros, porque é isso que volta para a pesquisa científica, para que se possa se fazer outros novos medicamentos. No início, isso significa que serão as pessoas ricas que terão acesso. Foi a mesma coisa com medicamentos para baixar a pressão arterial, com estatinas, até mesmo quando os remédios para úlcera estomacal saíram ali nos anos 60 e 70. Depois os preços vão caindo, esse é o ciclo de vida da indústria farmacêutica.
Mas eu acho que os governos poderiam realmente ganhar muita popularidade, especialmente com aqueles que não têm muito dinheiro, ao criar acesso a esses medicamentos, porque eles ajudam muito as pessoas. Eu ouvi tantas histórias de pessoas que se emocionaram na minha frente dizendo que "estou com tanta fome há 20 anos, e agora posso realmente me controlar, posso ter uma relação saudável com o meu corpo". Aí, há todos esses outros benefícios para a saúde, e sabe, se você somar tudo, que as pessoas têm menos ataques cardíacos, menor incidência de AVC, melhor proteção dos rins e do fígado, doença arterial periférica, as pessoas podem andar melhor, ser mais funcionais. Por todos esses benefícios somados, acho que faz sentido o sistema de saúde pagar por isso.
Quando a senhora percebeu que sua descoberta era algo realmente revolucionário?
Para mim, levou muito tempo. Eu comecei a trabalhar nisso no início dos anos 90. Talvez minha maior conquista seja o fato de que eu realmente consegui fazer uma empresa priorizar a obesidade, porque foi só a Novo Nordisk que fez isso por quase 20 anos até que as outras farmacêuticas resolvessem também entrar nessa área. Por volta de 2021 foi que realmente começou a haver muita atenção em torno da semaglutida para obesidade. Mas eu sempre acreditei no GLP-1, porque nós realmente tínhamos dados, desde os anos 80, tínhamos clareza de que poderia ser um bom medicamento para o tratamento do diabetes. Já no início dos anos 90, tínhamos evidências, primeiro em animais depois em humanos, de que esse GLP-1 poderia realmente ajudar as pessoas a comerem menos e fazê-las se sentirem mais saciadas, com menos fome.
Um pouco depois, obtivemos dados sobre biomarcadores cardiovasculares, mais tarde, sobre biomarcadores renais. Então, tudo veio acontecendo devagar, ao longo de todos esses anos. O que aconteceu foi que a palavra realmente começou a se espalhar, as pessoas compartilhando: "Nossa, isso me ajudou muito", em meio à situação lamentável de estarmos cercados por opções calóricas e um estilo de vida mais sedentário. Se não fizermos algo a respeito, as pessoas vão precisar desses medicamentos. Então, espero realmente que os governos em diferentes países acordem. Foi o que aconteceu nos EUA, país que percebeu que é realmente melhor tratar a obesidade, e lá os preços caíram muito, eles estão facilitando o acesso via os programas Medicare e do Medicaid. Isso é realmente uma transformação social.
A senhora acredita que a semaglutida pode mudar a forma como olhamos para o envelhecimento?
Sim. Bom, há muita literatura emergindo sobre envelhecimento ou potencial anti envelhecimento nesses medicamentos. Há diferentes maneiras de olhar para a longevidade, mas reduzir mortes, doenças cardiovasculares, doenças renais e hepáticas, e melhorar os desfechos funcionais como força e capacidade de caminhar, isso com certeza é uma forma de olhar para a longevidade. A classe de medicamentos GLP-1 já tem isso, está provado. A questão chave é: será que realmente faz retroceder o envelhecimento celular? Isso não é realmente conhecido na mesma medida, mas poderia, até certo ponto. Há alguns dados emergentes sobre marcadores epigenéticos de envelhecimento e relógios proteômicos (análise do conjunto de proteínas).
E sobre as novas pesquisas na área, há algo que se possa considerar revolucionário?
Eu não vi nenhuma revolução agora, mas interessante é que parte do campo está começando a olhar para coisas que não são GLP-1s. Agora temos tantos! Seria ótimo se também tivéssemos outros medicamentos para o tratamento da obesidade. Há cerca de 200 medicamentos no total para o tratamento do diabetes e acho que uns cinco para obesidade. Então, acho que há uma grande demanda não atendida ainda na obesidade. Eu vi algumas pesquisas com foco no tecido adiposo. Ao longo da minha vida como cientista já vi alguns anos em que só se falava de pâncreas, outros como foco no fígado, depois em músculos e, agora, podemos estar entrando em um momento onde haverá mais foco no tecido adiposo.
A senhora também está trabalhando com pesquisa atualmente?
Não, eu não tenho um laboratório atualmente. Na verdade, eu não tenho um emprego atualmente. Sou uma agente livre. Porque estou tentando fazer algo diferente.
O que a senhora pretende fazer? Só por curiosidade...
É, mas você vai ter que esperar um pouco por isso. De todo modo, eu ainda vou ser muito uma mulher de rosa na ciência, porque precisa haver mais modelos femininos para as jovens mulheres que querem entrar na pesquisa científica.
(A jornalista viajou ao evento a convite da Novo Nordisk)
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