Idosos concentram as mortes por pneumonia bacteriana no Brasil em 20 anos
Adobe Stock
São Paulo - A população idosa (acima dos 60 anos) concentra a maioria esmagadora das mortes por complicações de infecções bacterianas em pneumonias e casos de septicemia de 2004 a 2024.
O levantamento feito pelo VIVA, através de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, analisou as mortes causadas por complicações de pneumonias bacterianas e não especificadas. A partir desse cenário, o grupo de idosos acima dos 60 anos representa mais de 81% de todas as mortes entre 2004 e 2024. Sendo assim, do total geral de 1.361.065 óbitos por essas causas no País, 1.108.502 ocorreram exclusivamente nesta faixa etária.
Causas
As mortes por complicações de infecções bacterianas seguem uma linha “natural” de fragilidade dos idosos. O envelhecimento populacional também é um fator que influencia o aumento constante dos óbitos nos últimos anos, segundo especialistas ouvidos pelo VIVA.
Leia também
A pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e chefe do Laboratório de Bacteriologia Aplicada a Saúde Única e Resistência Antimicrobiana, Ana Paula Asseff, explica que os extremos das faixas etárias (bebês e idosos) são os mais suscetíveis a complicações.
Os idosos são mais debilitados, naturalmente. Então, uma infecção em idosos, assim como em bebês, é sempre mais complicada do que uma infecção em uma pessoa jovem”.
Porém, em contrapartida, os dados mostram que as mortes por pneumonia em bebês menores de 1 ano caíram constantemente durante os anos. Somando as categorias especificadas e não especificadas, as mortes infantis caíram de 2.201 no ano de 2004 para apenas 679 em 2024. A faixa de 1 a 4 anos acompanhou essa tendência de queda contínua – contexto que reflete também a influência do envelhecimento da população e a queda na taxa de natalidade no Brasil.
A vulnerabilidade estrutural do sistema de saúde brasileiro é outro fator que justifica a constância das mortes. Assef destaca que as características do Brasil como um País em desenvolvimento pesam significativamente, citando a superlotação dos hospitais e a falta de saneamento básico como fatores ambientais que impactam no agravamento de infecções bacterianas.
Há também severas barreiras no acesso a tratamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), levando em conta que muitos antimicrobianos de última geração não chegam ao País, ou são extremamente caros ou simplesmente não tem na rede pública”, salienta a pesquisadora.
O médico infectologista e professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp), Carlos Kiffer, complementa esse panorama alertando para os graves gargalos diagnósticos da rede:
“Em um País continental com milhares de laboratórios, talvez a gente não tenha nem 500 com capacidade de fazer bons exames microbiológicos, o que prejudica a identificação rápida e o tratamento assertivo das infecções”, analisa.
Um ponto que não pode ser deixado de fora e que também explica parte desse aumento estatístico histórico é a melhoria no processo de registro feito em 2011. Naquele ano, houve uma alteração oficial no conteúdo da Declaração de Óbito no Brasil, que passou a exigir um maior detalhamento das informações coletadas pelo SIM.
O impacto prático dessa mudança foi a redução da subnotificação: com formulários mais detalhados, o sistema passou a captar com mais eficiência as infecções (como a septicemia e as pneumonias), impulsionando um aumento consistente nos registros oficiais a partir daquele ano.
Resistência aos antimicrobianos
Um ponto importante que traz um risco a mais para as mortes relacionadas a infecções em idosos é a Resistência a Antimicrobianos (RAM), processo no qual os microrganismos mais fortes sobrevivem, levando em conta o mal manejo da dose, do tempo de tratamento ou da indicação médica.
“Uma bactéria resistente em idosos é muito mais complicada do que num indivíduo saudável e jovem. Principalmente quando levamos em conta aqueles idosos que moram em Institutos de Longa Permanência, onde podem ficar acamados e há maior aglomeração de pessoas”, observa Assef.
Carlos Kiffer explica que os idosos são mais suscetíveis a infecções resistentes em hospitais – aquelas onde o indivíduo é contaminado dentro do espaço hospitalar. “Idosos, por terem mais problemas de saúde, vão precisar ficar internados por mais tempo, estão mais suscetíveis a complicações e necessitam de mais recursos médicos”, adiciona.
Ambos os especialistas concordam que a pandemia de covid-19 funcionou como um grande acelerador para o problema da resistência bacteriana, agravando o cenário das infecções intratáveis nos últimos anos.
Segundo Carlos Kiffer, a pandemia impactou fortemente esse cenário porque, diante da incerteza inicial de como lidar com o vírus, houve um uso excessivo de antibióticos potentes na saúde humana.
Ana Paula Assef reforça essa constatação, explicando que os picos causados pela pandemia resultaram no aumento das internações e na utilização sem controle de antibióticos, o que gera a chamada "pressão seletiva" que faz com que as bactérias sobreviventes se tornem resistentes, principalmente em idosos.
Esse fator se agrava ao analisar que o Brasil ainda não é precursor no desenvolvimento de novos medicamentos voltados ao tratamento contra bactérias.“Há um isolamento do Brasil na criação de novas terapias. Os desenvolvimentos são feitos fora do eixo do sul global, enquanto aqui, a gente tem o problema, mas não desenvolvemos a solução", pontua Kiffer.
Expectativa de vida
Antes dos antibióticos, a pneumonia tinha uma alta taxa de mortalidade, na casa dos 50% a 60%, número que despencou para menos de 10% após o início dos tratamentos com medicamentos e influenciou positivamente no aumento da expectativa de vida – fator agora em risco, tendo em vista o cenário de resistência a antimicrobianos.
Os especialistas concordam que a resistência aos antimicrobianos e as complicações das infecções tem um potencial real de diminuir a expectativa de vida global no futuro, revertendo os ganhos históricos que a humanidade obteve com a medicina moderna.
Assef avalia que o alto índice de resistência dentro dos hospitais, por si só, não muda tanto a expectativa de vida global, pois acaba atingindo pacientes que já estão imunossuprimidos, idosos ou debilitados por doenças de base.
“O grande risco à expectativa de vida está no avanço das bactérias resistentes para as infecções comunitárias - doenças adquiridas no ambiente domiciliar ou na comunidade, sem associação com hospitais, como amigdalite, sinusite ou infecção urinária, que, tradicionalmente, possuem um risco menor de conter bactérias resistentes", alerta.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.