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Idosos não se percebem vulneráveis a mudanças climáticas, dizem especialistas

Felipe Cavalheiro/VIVA

A população idosa residente em áreas periféricas urbanas desponta como a mais vulnerável - Felipe Cavalheiro/VIVA
A população idosa residente em áreas periféricas urbanas desponta como a mais vulnerável
Por Paula Bulka Durães

09/04/2026 | 14h04

São Paulo - Apesar do aumento da frequência de eventos extremos, as pessoas idosas não se enxergam como vulneráveis diante dos riscos das mudanças climáticas.

A constatação é da pesquisadora e professora titular do Departamento de Geografia da USP Lígia Barroso, apresentada durante a mesa-redonda "Mudanças Climáticas e o Impacto no Envelhecimento", no 14º Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia (GERP.26).

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Segundo a especialista, essa população acaba não seguindo as recomendações de segurança por não entender a gravidade dos efeitos climáticos ou não ser conscientizada adequadamente.

A conscientização das pessoas é o mais necessário. A pessoa idosa precisa, não somente ser alertada, mas entender o alerta."

Para reverter esse cenário, a pesquisadora aponta que a saída é o fortalecimento da rede de atenção e apoio. "Ter esse cuidado de lembrar de beber água, de aquecer a casa nos dias frios. A prioridade é fortalecer essa rede", exemplifica. O painel destacou a urgência de integrar as questões ambientais às práticas cotidianas de saúde.

População urbana e periférica é a mais vulnerável

As alterações no clima implicam em diferentes consequências para as quatro regiões do Brasil, englobando secas prolongadas no Nordeste e na Amazônia, ondas de calor e deslizamentos no Sudeste, incêndios no Centro-Oeste, além de enchentes e ciclones no Sul.

Diante desse panorama, a população idosa residente em áreas periféricas urbanas desponta como a mais vulnerável.

Mortes por ondas de calor

Entre 2000 e 2018, o País já registrou mais de 48 mil mortes atribuíveis a ondas de calor em áreas urbanas. Os dados são de pesquisadores brasileiros vinculados à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e à Universidade de Lisboa.

Barroso alerta para a vulnerabilidade biológica de quem tem mais de 60 anos. "Durante ondas de calor, a alta temperatura desencadeia riscos graves ao sistema cardiovascular: o corpo sofre vasodilatação e aumento do suor, gerando uma desidratação que pode sobrecarregar o coração de forma severa."

Na cidade de São Paulo, mapas de calor elaborados pelo grupo de pesquisa da USP revelaram agrupamentos de excessos de óbitos de pessoas com 65 anos ou mais. Durante as ondas de calor, as doenças cerebrovasculares foram a causa mais frequente; já nas ondas de frio, predominaram as doenças cardiovasculares.

Nesse cenário, a saúde e a longevidade são influenciadas por múltiplos fatores de risco, que se cruzam entre:

  • Características individuais: idade, hipertensão, diabetes;
  • Contexto socioeconômico: renda, educação, pobreza; 
  • Qualidade do ambiente em que o indivíduo vive.

Contudo, a pesquisadora informa que, mesmo em cidades com planos de ação contra o calor estruturados, a postura dos profissionais de saúde ainda é majoritariamente reativa.

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Representante da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Cristian Morales Fuhrimann - Felipe Cavalheiro/VIVA

O representante da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Cristian Morales Fuhrimann, reforçou o debate ao apontar a falta de pesquisas consolidadas que relacionem o envelhecimento populacional ao clima.

"Temos muito pouco estudo sobre os impactos das mudanças climáticas na população idosa, uma população mais vulnerável em geral a essas alterações, e muito mais feminina."

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Sobre esse impacto na saúde, o representante acrescentou: "Temos mais zoonoses, doenças de transmissão vertical, doenças cardiorespiratórias, neurológicas, cutâneas, renais e de saúde mental, ampliadas pelas mudanças climáticas".

O representante enfatizou que a intersecção entre o envelhecimento populacional e a crise climática não é apenas um entrave demográfico ou ambiental. "Trata-se de um profundo desafio ético, cultural e social, que exige a ação coordenada entre governos, academia e sociedade civil para garantir dignidade e qualidade de vida às pessoas idosas."

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