Eventos climáticos extremos exigem políticas específicas para idosos
Tânia Rêgo/Agência Brasil
São Paulo - O aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos no Brasil exige políticas públicas específicas para a população idosa, grupo que tende a sofrer impactos mais graves em situações como enchentes, secas, deslizamentos e ondas de calor, segundo estudo do Centro Soberania e Clima.
Segundo o documento, características comuns do envelhecimento, como mobilidade reduzida, maior prevalência de doenças crônicas e menor capacidade de regulação da temperatura corporal, podem aumentar o risco de adoecimento, hospitalização e morte durante emergências climáticas.
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O material foi elaborado por Rodrigo Cardoso Bonicenha, geógrafo, mestre e doutor em Planejamento e Gestão do Território, com especialização em Gerontologia e professor da área de "Envelhecimento, Interseccionalidade e Saúde" na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o País tem cerca de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. O estudo destaca que, apesar de não serem o maior grupo atingido em desastres naturais, pessoas idosas costumam representar parcela significativa das vítimas fatais.
Precisam ser programadas ações específicas para o atendimento de pessoas idosas com Alzheimer e outras demências, dado que não serão capazes, no contexto de uma catástrofe climática, de cuidarem de si mesmas, buscarem abrigo nos locais disponibilizados, participarem de processos de evacuação, entre outros", explica o pesquisador.
Envelhecimento populacional e crise climática
O relatório aponta que dois processos globais avançam de forma simultânea no País: o envelhecimento da população e a intensificação das mudanças climáticas. Essa combinação cria novos desafios para políticas públicas de saúde, assistência social e gestão de riscos.
Dados do documento mostram que o Sul e o Sudeste concentram as maiores proporções de idosos, seguidos pelo Nordeste, Centro-Oeste e Norte. Além disso, o processo é considerado predominantemente feminino, o que também deve ser levado em conta na formulação de políticas de adaptação climática.
Ao mesmo tempo, os eventos climáticos extremos já atingem grande parte do território nacional. Entre 2013 e 2022, cerca de 93% dos municípios brasileiros registraram algum tipo de desastre natural, o que provocou o deslocamento de mais de 4,2 milhões de pessoas, segundo dados da Confederação Nacional de Municípios (CNM) citados no documento.
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Eventos climáticos extremos no País
O relatório "Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil", elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e publicado em fevereiro, aponta que 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado no planeta. A temperatura média global ficou 1,47 grau Celsius (°C) acima dos níveis pré-industriais, considerando o período de 1850 a 1900.
O aquecimento também se manifestou no Brasil por meio de uma sequência de eventos climáticos extremos, que atingiram 336.656 pessoas e geraram prejuízos econômicos estimados em R$ 3,9 bilhões.
A série histórica de 2011 a 2025 mostra crescimento no número de alertas ao longo dos anos, com níveis elevados a partir de 2020. Em 2025 houve redução no total de alertas emitidos em comparação com 2024, refletindo as condições geo-hidrológicas do período.
Ainda assim, a Cemaden aponta que o volume registrado permaneceu acima dos níveis observados no início do monitoramento, indicando manutenção de alta atividade do sistema.
De acordo com os dados, 1.493 eventos hidrológicos foram registrados no País, incluindo secas intensas, alagamentos, cheias, transbordamentos de rios, enxurradas e deslizamentos de terra. Do total, 1.336 foram de pequeno porte, 146 de médio e 11 de grande porte.
As ocorrências mais frequentes foram inundações, enxurradas e deslizamentos, com 43% dos registros concentrados na Região Sudeste.
Além das chuvas intensas e enchentes, a seca também aparece como evento climático extremo. O documento destaca que, no Brasil, o verão de 2024 e 2025 foi o sexto mais quente desde 1961.
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Segundo o Cemaden, as chuvas foram responsáveis por 86% das mortes registradas em desastres climáticos no País. Entre 2020 e 2023, cerca de 8,7 milhões de pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas em decorrência de enchentes.
O número de afetados por eventos de chuva também aumentou de forma expressiva nas últimas décadas. Na década de 1990, eram 43.242 pessoas atingidas, enquanto entre 2020 e 2023 esse total chegou a 6.835.168, um crescimento de mais de 8.000%.
No entanto, os dados não apresentam recorte por faixa etária, o que impede identificar quantos dos afetados são idosos.
Falta de dados dificulta planejamento
Uma das principais lacunas apontadas pelo documento é a falta de dados detalhados sobre as condições de vida e saúde das populações vulneráveis, incluindo pessoas idosas.
A ausência de informações territorializadas dificulta o planejamento de políticas públicas e de planos de emergência.
Sem esses dados, os gestores têm dificuldade para identificar idosos que vivem sozinhos, pessoas com deficiência ou indivíduos com mobilidade reduzida, que podem precisar de assistência específica em situações de evacuação.
O material ressalta que soluções genéricas para emergências climáticas tendem a falhar justamente por não considerar as diferentes condições de vida da população.
“Os riscos não são apenas fenômenos naturais, mas socialmente construídos a partir de falhas no planejamento, na gestão do território, da coordenação interinstitucional e multiescalar, entre outros elementos que devem ser previamente trabalhados”, afirma Rodrigo Bonicenha.
Impactos na saúde e no acesso a serviços
Eventos climáticos extremos podem afetar diretamente a saúde da população idosa. Entre os impactos mais comuns estão aumento de internações, agravamento de doenças crônicas e maior mortalidade.
Em situações de enchentes, há risco de disseminação de doenças infecciosas como hepatite A, leptospirose e tétano, além de doenças transmitidas por vetores, como dengue.
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O acesso a serviços essenciais também pode ser comprometido. No Norte do País, secas severas já reduziram o nível de rios e dificultaram o acesso a comunidades isoladas, o que prejudica o atendimento médico de idosos que dependem de acompanhamento regular.
Outro problema destacado é a localização de abrigos emergenciais. Em muitas cidades, esses espaços ficam distantes de áreas com grande concentração de pessoas idosas ou com deficiência, o que dificulta a evacuação em momentos de crise.
As medidas direcionadas aos grupos vulneráveis, dos quais pessoas idosas fazem parte, precisam estar atentas aos indivíduos em localidades de difícil acesso, isolados tanto no contexto urbano quanto rural, pessoas com demência ou acamadas que recebem suporte e cuidado, entre outras”, disse o especialista.
Exemplos de vulnerabilidade
Eventos recentes ilustram os desafios de resposta a desastres climáticos. Na Zona da Mata Mineira, em Ubá, o Departamento de Assistência Social João de Freitas, que abrigava 16 idosos, foi inundado após a intensa chuva que atingiu o município e parte de Minas Gerais no dia 24 de fevereiro.
Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, pessoas com deficiência auditiva relataram dificuldades para receber alertas e se comunicar com equipes de voluntários em abrigos.
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Além disso, deslizamentos de terra e danos à infraestrutura de transporte dificultaram o deslocamento de equipes de resgate e da própria população afetada.
Segundo a pesquisa, situações como essa demonstram a necessidade de sistemas de alerta acessíveis e diversificados, que não dependam apenas de smartphones e possam incluir rádio comunitária, lideranças locais e serviços públicos.
Recomendações para políticas públicas
O pesquisador propõe quatro ações principais para reduzir os riscos enfrentados pela população idosa em eventos climáticos extremos.
A primeira é integrar bases de dados sobre saúde, renda e condições de moradia, utilizando sistemas como CadÚnico e bases do Ministério da Saúde. A proposta inclui a criação de um módulo chamado “Vulnerabilidade Geracional e Climática em Saúde”, que ajudaria municípios a elaborar planos de adaptação.
Outra recomendação é a participação das comunidades no planejamento de riscos, incluindo pessoas idosas nos núcleos locais de Defesa Civil e em processos de mapeamento de áreas vulneráveis.
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O documento também sugere a criação de protocolos específicos de alerta para idosos em situação de alto risco, com ações coordenadas entre saúde, assistência social e defesa civil para contato e evacuação em emergências.
Por fim, o pesquisador defende programas de treinamento para cuidadores formais e informais, além da distribuição de kits de emergência adaptados às necessidades da população idosa.
Planejamento territorial é considerado essencial
O documento, que faz parte da edição especial da Revista “Diálogos Soberania e Clima”, conclui que políticas climáticas eficazes precisam considerar as diferenças sociais e territoriais do País. Sem planejamento específico, eventos extremos podem ampliar desigualdades e aumentar a vulnerabilidade de grupos como os idosos.
Integrar dados, envolver comunidades locais e fortalecer a coordenação entre governos, universidades e organizações da sociedade civil são medidas essenciais para preparar o Brasil para os impactos da crise climática.
A pesquisa aponta que apenas com estratégias baseadas em dados e adaptadas às realidades locais será possível reduzir riscos e garantir que a população idosa seja protegida em situações de emergência.
É urgente que as políticas públicas incorporem as especificidades das pessoas idosas em todas as fases de planejamento, prevenção e resposta. Não se trata apenas de uma questão de justiça social, mas de responsabilidade coletiva", alerta o pesquisador da USP.
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