Lapsos de memória: quando são normais e quando merecem atenção
Pequenos esquecimentos podem ser benignos e ligados a sono, estresse e remédios; se forem frequentes e afetarem tarefas, busque avaliação
Por Redação Viva
29/09/2026 | 16h09Adobe Stock
Lapsos de memória, como esquecer onde estacionou o carro ou o nome de uma pessoa, são comuns e geralmente não indicam demência, mas a frequência desses episódios pode sinalizar transtornos neurocognitivos, como o Alzheimer.
Embora o envelhecimento cause algumas alterações na memória, esquecimentos que afetam atividades diárias devem ser investigados, pois podem estar relacionados a condições clínicas, emocionais ou comportamentais que são tratáveis.
Para fortalecer a memória, recomenda-se a prática de exercícios físicos, uma alimentação saudável, aprendizado contínuo e atividades que estimulem a mente, além de cuidados com a saúde auditiva e visual para prevenir demências.
São Paulo - Esquecer onde estacionou o carro, deixou as chaves ou até o nome de um conhecido que acabou de encontrar na rua são situações que podem acontecer vez ou outra. Esses pequenos lapsos na capacidade de lembrar informações do dia a dia ou acontecimentos recentes costumam ser passageiros e não significam, necessariamente, um quadro de demência. A preocupação surge quando passam a ser recorrentes, já que podem estar associados a transtornos neurocognitivos.
O neurologista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Paulo Caramelli, afirma que, embora alterações de memória sejam comuns no Alzheimer, esse tipo de sintoma, isoladamente, não significa que a pessoa desenvolverá a doença.
"O Alzheimer é uma doença neurológica degenerativa que, na maioria dos casos, começa com o declínio da memória. A pessoa nota que tem algo incomum. No caso do lapso, pode ser considerado comum até o momento em que passa a ser mais frequente e percebido por algum familiar ou pessoa próxima", explica.
Quando é necessário buscar ajuda?
O médico geriatra Milton Crenitte esclarece que, assim como a pele, o cérebro também envelhece. Por isso, é normal haver alguma alteração episódica da memória, demorar um pouco mais para acessar determinadas informações e ter mudanças na velocidade de processamento. Com o tempo, ações que antes eram realizadas com mais rapidez, ou várias tarefas feitas ao mesmo tempo, como cozinhar, lavar e atender ao telefone, podem se tornar mais difíceis.
“Se eu consigo fazer diferente, mas consigo realizar a tarefa, provavelmente é algo mais benigno."
Milton Crenitte, médico geriatra
A preocupação deve estar, contudo, quando a queixa de memória gera algum prejuízo no dia a dia e a pessoa não consegue realizar uma atividade que fazia antes. Neste caso, de acordo com Crenitte, precisa de avaliação, porque pode ser alguma demência ou Alzheimer.
É justamente a mudança no padrão habitual que o presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Leonardo Oliva, aponta como um sinal de atenção.
Segundo ele, esquecimentos precisam ser investigados, já que existem diversas razões para esse tipo de alteração. Embora sejam mais frequentes com o envelhecimento, essas causas não devem ser atribuídas simplesmente à idade, que é um fator de risco para doenças que provocam perda de memória.
“Não existe esquecimento normal da idade. Se um familiar ou pessoa próxima notar que o idoso mudou de padrão, que não tinha dificuldade para tomar o remédio e agora tem, que nunca tinha se perdido e agora se perdeu ou que está errando no pagamento das contas, isso não pode ser atribuído de forma alguma ao envelhecimento. Precisa ser investigado e é necessário procurar atendimento médico”, disse.
Principais causas do lapso de memória
A importância de buscar uma avaliação também ajuda a desmistificar a ideia de que existe um tipo de esquecimento "esperado" para cada etapa da vida. O neurologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Márcio Balthazar, explica que as queixas sobre a memória ou o desempenho dela podem ser semelhantes, por exemplo, em uma pessoa de 60 e uma de 80 anos.
O tipo de sintoma pode ser muito parecido. Essa característica de esquecimento de fatos recentes, repetitividade, esquecer coisas relevantes pode começar em qualquer idade."
Márcio Balthazar, neurologista e professor da Unicamp
De acordo com ele, a medicina tende a avaliar cada caso individualmente, considerando a média de pessoas da mesma faixa etária e com o mesmo nível de instrução.
Essa análise também é importante porque os lapsos de memória podem estar relacionados a fatores clínicos, emocionais ou comportamentais, muitos deles passíveis de tratamento ou reversão. "Dentro dos sintomas de depressão, por exemplo, a dificuldade de concentração e a perda de memória fazem parte. Transtornos do sono, como a insônia ou a apneia obstrutiva, também diminuem a capacidade atencional e prejudicam a memória", detalha Caramelli.
Entre outros aspectos, o professor da UFMG menciona o uso de medicamentos, o estilo de vida moderno e as alterações metabólicas. "Existem alguns medicamentos que podem interferir na capacidade de memória, como os sedativos que causam sonolência. Há também a desatenção causada pela demanda cada vez maior do uso de celular e ficar conectado o tempo todo, o que desafia nossa memória", pontua o especialista. Ele cita ainda condições como hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12 e o uso de álcool.
Confira as principais causas dos lapsos de memória:
- Saúde emocional (depressão e ansiedade);
- Qualidade e distúrbios de sono;
- Efeitos colaterais de alguns remédios;
- Excesso de telas e hiperconexão;
- Condições clínicas e nutricionais.
O que fazer para fortalecer a memória?
Exercício físico e vida mental ativa
Para reduzir os sintomas e fortalecer a memória, Balthazar aponta o exercício físico como um dos principais pilares de proteção do cérebro. Segundo ele, a prática deve ser acompanhada pelo controle de fatores de risco cardiovasculares, como pressão alta, diabetes e colesterol, além de uma alimentação mais natural, inspirada na dieta mediterrânea, priorizando grãos e carnes brancas e reduzindo o consumo de ultraprocessados e sal.
"A atividade física talvez seja a mais importante. No mínimo 150 minutos por semana, combinando atividade aeróbica, como caminhada, esteira, bicicleta, com a musculação. Também é necessário ter uma vida mental ativa, desde coisas mais simples e cotidianas até uma atividade mais consistente fora de casa, responsabilidades e estimulação cognitiva ligada ao profissional", conta.
Saúde auditiva e visual
Oliva também orienta a cuidar da saúde auditiva e visual, para corrigir possíveis déficits que podem contribuir para o desenvolvimento de demências. Outra medida é manter um aprendizado contínuo para estimular a neuroplasticidade, capacidade do cérebro de criar novos circuitos e conexões neurais.
Aprender coisas novas
"É importante aprender novas coisas, como um novo idioma ou instrumento. Isso faz com que o cérebro fique sempre em atenção. Questões relacionadas à socialização também são ótimas aliadas, ou seja, participar de atividades em grupo e ter momentos de lazer ajudam a preservar a saúde cognitiva", disse o presidente da SBGG.
Passatempos
Já Crenitte recomenda, no cotidiano, o uso de passatempos — sudoku, caça-palavras e palavras-cruzadas — como aliados para exercitar a mente. Para quem busca uma estratégia personalizada ou precisa recuperar funções afetadas, o geriatra destaca ainda a atuação do terapeuta ocupacional. "É um profissional excelente na rede de saúde, que pode dar mais dicas, individualizar o cuidado e promover uma estratégia de reabilitação cognitiva", comentou.
Treinar atenção
Outra orientação prática, segundo o geriatra, é "desacelerar" o cérebro e treinar a capacidade de atenção. Como a desatenção é uma das principais vilãs da memória, ele sugere mudar a forma como realizamos as atividades cotidianas.
"Entender que a gente é estimulado a fazer um monte de coisas ao mesmo tempo e ter atenção em todos os nossos processos. Então, o ideal é fazer uma coisa de cada vez, dar atenção interessante para cada coisa. Sem contar que é preciso diminuir hábitos maléficos, como o cigarro e o álcool", afirma. (Por Ana Magalhães, especial para o VIVA)
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