Livro propõe novo olhar sobre a sexualidade no período da menopausa
VR Editora - Latitude/Divulgação
São Paulo, 20/02/2026 - Quando mulheres na faixa dos 50 e 60 anos chegam ao consultório dizendo que estão "sem libido" em decorrência da menopausa, a ginecologista e sexóloga Andréa Rufino costuma desacelerar a conversa. Antes de falar em hormônios, pergunta sobre crenças, autoestima, história de vida.
Para ela, falar sobre menopausa sem falar de sexualidade é ignorar uma das dimensões mais atravessadas por silêncio e preconceito nessa fase.
"Eu digo muito para minhas pacientes que a gente não faz sexo só com o corpo. A gente vai para esse encontro com o que sente, com o que pensa, com as crenças que carrega. Se essa mulher se sente envelhecida, se não gosta do próprio corpo ou acredita que sexo é coisa de jovem, tudo isso impacta diretamente o desejo."
Leia também: Menopausa e climatério: entenda sintomas, causas e tratamentos
Em seu novo livro, Menopausa, muito prazer, publicado este mês pela Latitude, a médica e professora universitária propõe uma mudança de narrativa ao explicar que o maior obstáculo ao prazer na maturidade nem sempre é biológico.
O etarismo não está só no mundo, ele está dentro da gente. [...] Nós, mulheres, vivemos nessa cultura de servir ao mundo, ao outro, estar disponível e performar para o outro. Muitas me procuram dizendo que estão sem libido, mas medindo seu desejo pela régua do parceiro. Quando eu pergunto o que as seduz, o que gostam, muitas respondem: ‘Não sei, nunca me fiz essa pergunta’."
O corpo muda, mas a história também pesa
Ondas de calor, insônia, alterações de humor, ressecamento vaginal, fadiga. Os sintomas físicos da transição hormonal são reais e podem interferir na disposição para o sexo. Ainda assim, reduzi-los à causa exclusiva da queda do desejo é simplificar demais uma experiência complexa.
"As mudanças corporais podem trazer insegurança. Um corpo que sente desconforto fica menos disponível para o encontro sexual. Quando você alia isso a uma autocrítica muito ferrenha com o próprio comportamento, é o cenário perfeito para que essa libido saia do sexo."
Segundo Rufino, o chamado "meio da vida" costuma coincidir com revisões profundas, que incluem a ponderação sobre filhos, tanto para quem os teve quanto para as que não tiveram, mudanças nas relações com o parceiro, aposentadoria se aproximando e mudanças físicas.
"Esse período encerra muitas coisas. Não é só sobre parar de menstruar, tem também um aspecto cultural. É muito comum que algo de existencial chegue para nós mulheres nessa meia idade da vida. Quanto tempo falta para eu terminar essa existência? O que eu fiz? O que ainda dá tempo de fazer? É como se esse relógio biológico fizesse algumas comunicações relacionadas ao fim de grande período."
Janela de oportunidades
No livro, a médica relembra que, durante muito tempo, a menopausa foi associada quase exclusivamente à ideia de perda e fim da juventude. Ainda hoje, cerca de 75% das mulheres não recebem tratamento adequado para os sintomas, ela aponta. A naturalização do sofrimento, segundo a médica, é parte do problema.
Leia também: Testosterona: o que é, quem precisa repor e como aumentar naturalmente
"Eu sou ginecologista e sexóloga há muitos anos, sou uma mulher menopausada de 58 anos e atendo mulheres há muito tempo. Eu via muito sofrimento e uma dificuldade enorme de enxergar onde estava o prazer nesse envelhecimento. Foi isso que me motivou a escrever."
Em entrevista ao VIVA, Andréa Rufino destacou ainda que, se muitas mulheres param de menstruar por volta dos 50 anos e vivem até os próximo dos 80, existe ainda quase um terço da vida pela frente após a menopausa.
Se a gente vai ter um longo tempo da nossa vida na pós-menopausa, a gente merece viver esse tempo muito empoderadas do que aprendeu até aqui. A gente é mais do que um corpo biológico com hormônios. Eles são importantes, mas não nos resumem."
Nesse sentido, ela também reforça o papel do estilo de vida na travessia dessa fase. "A menopausa é um momento crítico de mudanças biológicas que podem aumentar o risco para algumas doenças. Mas a forma como a gente vive também causa impacto. A mulher que chega nessa fase com peso adequado, ativa fisicamente, sem tabagismo, tende a atravessar em melhores condições de saúde."
Relação entre menarca e menopausa
Na parte inicial do livro, Rufino também traça um paralelo entre menarca (primeira menstruação) e menopausa (última menstruação) e explica que essa fase pode ser entendida como uma espécie de 'segunda adolescência', marcada por instabilidade hormonal e emocional.
"A maneira como a gente viveu a puberdade, tanto biologicamente quanto emocionalmente, influencia como vamos atravessar essa transição [para a menopausa]. A nossa linha de vida é contínua. Não é algo que começa do nada."
Leia também: Menopausa e endometriose: reposição hormonal exige análise caso a caso
Mulheres que tiveram sintomas intensos de tensão pré-menstrual tendem a perceber manifestações mais marcantes na perimenopausa, exemplifica a médica. Mas, segundo a especialista, a dimensão emocional é igualmente relevante.
Não é um evento estanque. Assim como a primeira menstruação não veio de repente, várias mudanças acontecem até que o ciclo desapareça. Quando a mulher entende isso, ela passa a perceber melhor o próprio corpo, anota os sintomas, chega mais informada ao médico e tem mais autonomia nas decisões."
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
