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Maioria dos casos de câncer de mama no SUS é descoberta tardiamente

Estudo mostra que quase 50% das pacientes que estão na faixa etária de rastreio recebem diagnóstico em estágios avançados

Emanuele Almeida

Por Emanuele Almeida

05/10/2026 | 10h57

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O tempo médio nacional até o início do tratamento no SUS é de 123 dias, o dobro do estipulado por lei - Adobe Stock
O tempo médio nacional até o início do tratamento no SUS é de 123 dias, o dobro do estipulado por lei
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Mais da metade dos diagnósticos de câncer de mama no SUS entre 2015 e 2025 foram feitos em estágios avançados - a redução na oferta de exames preventivos é uma das principais causas desse cenário alarmante.

Um levantamento revelou que a taxa de cobertura mamográfica caiu de 22,8% em 2024 para 22,1% em 2025, refletindo a dificuldade de acesso a exames e o aumento da taxa de mortes pela doença, que alcançaram 203.785 entre 2015 e 2025, com um recorde de 21.668 óbitos em 2025 - já que o a detecção precoce é o principal fator que ajuda no tratamento e na cura.

Apesar da Lei dos 60 Dias, que estabelece um prazo máximo de dois meses para o início do tratamento, o tempo médio no SUS foi de 123 dias, com 60% das pacientes enfrentando atrasos.

São Paulo - Mais da metade dos diagnósticos de câncer de mama realizados no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2015 e 2025 ocorreu em estágios avançados da doença. Segundo os dados da nova edição do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama 2026, 51% das pacientes descobriram a neoplasia nos estágios 3 e 4, fases em que o tumor já apresenta maior extensão, reduzindo as probabilidades de cura e exigindo intervenções médicas mais complexas.

Além disso, o prazo para início do tratamento, que por lei é de 60 dias após o diagnóstico no SUS, tem ultrapassado o dobro do tempo em 60% dos casos.

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O estudo é fruto da parceria entre o Instituto Natura e a Avon com o Observatório da Oncologia do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC) e o Instituto Protea.

A identificação tardia conecta-se diretamente à redução contínua na oferta de exames preventivos na rede pública pelo segundo ano consecutivo. A produção de mamografias de rastreamento no SUS recuou 0,2% em 2024 e sofreu nova queda de 1,0% em 2025. Como consequência, a taxa nacional de cobertura mamográfica para a população-alvo (de 50 a 69 anos) encolheu de 22,8% em 2024 para 22,1% em 2025.

Gargalos e recorde de mortes

Apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontar que a detecção precoce oferece até 95% de chance de cura, a dificuldade de acesso reflete-se na mortalidade. Entre 2015 e 2025, o Brasil somou 203.785 mortes por câncer de mama. Somente em 2025, foram contabilizados 21.668 óbitos, o maior número já registrado na série histórica da doença no país. No recorte racial do último ano, 55,4% das mortes ocorreram entre mulheres brancas e 43,9% entre mulheres negras.

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O atraso no diagnóstico e no início do tratamento impede que o País reduza o volume de mortes por uma doença tratável, diz a médica sanitarista, CEO da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) e líder do estudo, Catherine Moura. 

Para Moura, informação, oferta de exames e acesso ágil precisam atuar integrados para assegurar prognósticos favoráveis às pacientes.

Mulheres jovens e quadros graves

Um dos pontos mais preocupantes apontados pela pesquisa recai sobre as pacientes mais jovens, que estão fora da faixa etária indicada para o rastreamento ativo prioritário do Ministério da Saúde (50 a 69 anos). Embora a realização do exame a partir dos 40 anos tenha sido autorizada no SUS sob demanda, a falta de busca ativa reflete-se na severidade dos diagnósticos:

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  • Entre 20 e 29 anos: 68,3% das pacientes descobrem a doença nos estágios 3 ou 4;
  • Entre 30 e 39 anos: 61,9% dos diagnósticos ocorrem em fases avançadas;
  • Entre 40 e 49 anos: 53,7% dos casos são identificados tardiamente;
  • Na faixa-alvo (50 a 69 anos): 47,6% das mulheres iniciam o tratamento já com a doença avançada.

"É inaceitável que quase metade das mulheres na faixa etária-alvo do rastreamento ainda receba o diagnóstico de câncer de mama em estágios avançados, enquanto o País registra aumento da mortalidade pela doença. Esse resultado reforça a necessidade de qualificar a linha de cuidado", reforça a diretora-executiva do Instituto Protea, Nira Cará.

Desrespeito à Lei dos 60 Dias

Além da dificuldade em realizar o exame, o tempo de espera para iniciar o tratamento permanece elevado no sistema público. A Lei nº 12.732/2012, conhecida como Lei dos 60 Dias, determina que o primeiro tratamento deve começar em no máximo dois meses após o diagnóstico confirmado no laudo patológico.

No entanto, no consolidado entre 2015 e 2025, o tempo médio nacional até o início da terapia no SUS foi de 123 dias — mais do que o dobro do limite legal. Embora o indicador tenha caído para 86 dias em 2025, mais de 60% das pacientes no SUS continuam tendo seu direito violado ao esperar além do prazo estipulado por lei.

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Em 2025, as maiores médias de espera para início do tratamento foram registradas em Sergipe (115 dias), Rio de Janeiro (107 dias) e Bahia (100 dias). O levantamento também evidencia fortes disparidades regionais na cobertura de mamografias:

  • Melhores coberturas em 2025: a região Sul registrou a maior média regional (25,6%);
  • Piores coberturas em 2025: as regiões Norte (10,6%) e Centro-Oeste (13,5%) apresentaram os menores índices. 

A edição de 2026 do relatório adotou uma mudança metodológica significativa ao migrar a análise dos registros do banco de dados do Registro Hospitalar de Câncer (RHC) para o Painel de Oncologia do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Moura explica que a atualização proporciona maior precisão para compreender a trajetória das pacientes, mapear gargalos e orientar políticas públicas de saúde.

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