Por trás das prateleiras: entenda como funcionam os testes de cosméticos
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São Paulo - Por trás de um cosmético que chega às prateleiras das lojas, farmácias ou supermercados com uma promessa específica, existe um processo que começa na definição do protocolo e passa pela seleção criteriosa de voluntários, que avaliam a segurança e a eficácia dos produtos.
O recrutamento considera as características do público-alvo e o perfil de voluntários definido pelo estudo, de acordo com o tipo de cosmético, as pessoas a quem o produto se destina e o benefício que a empresa busca comprovar.
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Esse processo começa com a elaboração de um protocolo de pesquisa, onde são definidos os objetivos do estudo, os procedimentos e os critérios de inclusão e exclusão dos participantes. A partir dessas informações, equipes especializadas procuram pessoas que tenham as características necessárias para a pesquisa.
A explicação é de Gabrielli Brianezi, gerente técnica de pesquisa clínica da ALS Beauty & Personal Care, multinacional australiana que realiza estudos de segurança e eficácia de produtos de beleza. Segundo ela, um teste pode ser desenvolvido para avaliar benefícios como hidratação, redução da oleosidade, melhora da firmeza da pele ou controle do frizz.
Como funciona o recrutamento para testes de cosméticos?
Depois que o perfil dos voluntários é estabelecido, começa a busca por participantes. Victor Gobetti, gerente de recrutamento da ALS Beauty & Personal Care, explica que a empresa pode recorrer ao próprio banco de voluntários, que conta com uma base de 55 mil pessoas cadastradas no Brasil, além de contatos por telefone e WhatsApp e campanhas específicas nas redes sociais.
Os interessados passam por uma triagem inicial e, quando apresentam o perfil necessário, são encaminhados para a avaliação da equipe responsável pelo estudo".
Um produto destinado à pele madura, por exemplo, precisa ser avaliado em pessoas que representem esse público. O mesmo vale para cosméticos voltados a características específicas da pele, cabelo ou faixa etária.
Além da idade, podem ser considerados tipo de pele, características dos cabelos, condições dermatológicas e hábitos de uso. "Essa segmentação é fundamental para que os resultados reflitam o desempenho do produto nas condições reais de uso e gerem evidências científicas confiáveis", explica Gabrielli Brianezi.
Em estudos envolvendo crianças, há uma etapa anterior de segurança. Segundo Brianezi, o produto deve primeiro passar por avaliações de segurança em adultos antes de avançar para a população infantil.
A dermatologista Renata Sanseverino, da Sociedade Brasileira de Dermatologia no Rio Grande do Sul (SBD-RS), explica que pesquisas clínicas precisam ser aprovadas por um Comitê de Ética em Pesquisa, que estabelece critérios de inclusão e exclusão.
Estudos em humanos começam normalmente em indivíduos adultos saudáveis e, conforme se mostrarem seguros, começam a ser testados em populações diferentes com demandas específicas".
Gestantes, lactantes e crianças estão entre as populações que exigem maior cautela, segundo a dermatologista.
Voluntário recebe pagamento para testar cosméticos?
A participação em pesquisas clínicas com seres humanos é voluntária e, segundo Gabrielli, não há pagamento pela participação. O que pode existir é o ressarcimento de despesas relacionadas ao estudo, como transporte e alimentação.
O valor do ressarcimento depende das características do protocolo. Entre os fatores considerados estão a quantidade de visitas e a necessidade de deslocamento até o centro de pesquisa ou outros locais. Em geral, o valor pago aos voluntários varia entre R$ 100 e R$ 400. Em situações excepcionais, a quantia pode chegar a R$ 4.000 ou até R$ 10.000, dependendo do tempo dedicado à avaliação do produto e número de visitas.
Brianezi ressalta que remuneração seria um pagamento pela participação no estudo. Já o ressarcimento busca evitar que o voluntário tenha custos para participar da pesquisa.
Ela explica que, nas pesquisas clínicas, a participação deve ser uma escolha livre e consciente, voltada a contribuir para a ciência e para o desenvolvimento de tratamentos mais seguros e eficazes.
A legislação brasileira não permite que ela seja remunerada justamente para preservar a autonomia do participante e evitar que a compensação financeira influencie sua decisão de ingressar em um estudo".
Quais cuidados existem durante os testes?
Antes de iniciar a pesquisa, o voluntário é acompanhado por uma equipe multidisciplinar e passa por uma avaliação clínica para verificar se atende aos critérios definidos no protocolo e se está apto a participar.
A estrutura também prevê acompanhamento de possíveis intercorrências. Segundo Gabrielli, os participantes podem entrar em contato com a equipe da ALS para tirar dúvidas ou relatar desconfortos ou problemas durante a pesquisa.
A dermatologista da Sociedade Brasileira de Dermatologia explica que cada estudo clínico deve ter um plano para monitorar eventos adversos. Caso ocorra uma reação, o voluntário é avaliado pela equipe médica e recebe o tratamento necessário.
Dependendo da gravidade e da relação com o produto investigado, o uso pode ser interrompido ou o participante pode ser retirado da pesquisa.
A segurança do voluntário sempre vem em primeiro lugar, e ele tem o direito de interromper sua participação no estudo a qualquer momento, sem prejuízo do seu atendimento", informa Renata.
Os estudos realizados no setor abrangem diferentes categorias de produtos de higiene pessoal, beleza e cuidados com a pele e os cabelos. Entre os principais exemplos estão:
- Hidratantes;
- Produtos antienvelhecimento;
- Cosméticos para acne;
- Protetores solares;
- Produtos para clareamento de manchas;
- Shampoos e condicionadores;
- Maquiagens;
- Desodorantes e antitranspirantes.
Os estudos podem avaliar benefícios específicos, como hidratação, firmeza, elasticidade, controle da oleosidade, redução de rugas e manchas e controle do frizz. Também investigam aspectos relacionados à segurança, compatibilidade e potencial alergênico.
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) apontam que o setor brasileiro de beleza e cuidados pessoais movimentou cerca de R$ 200 bilhões em 2025, equivalente a aproximadamente 2% do PIB brasileiro. A entidade também destaca cerca de 6,9 milhões de oportunidades de trabalho em toda a cadeia.
O que diz a Anvisa sobre testes de eficácia?
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que não existem normas específicas aplicáveis às empresas que realizam testes de eficácia percebida, também chamados de avaliações de eficácia subjetiva, de produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes.
"Para fins de regularização dos produtos junto à Anvisa, a RDC nº 907, de 2024, estabelece que a empresa titular deve possuir dados comprobatórios que atestem a qualidade, a segurança e a eficácia de seus produtos e a idoneidade dos respectivos dizeres de rotulagem", disse.
A Anvisa também destaca que a empresa titular do produto é responsável por definir um laboratório idôneo para realizar os testes. No entanto, o órgão não informou quais empresas são licenciadas para atuar no Brasil.
Quando os estudos envolvem seres humanos, também devem ser observadas as regras previstas na legislação brasileira e as normas aplicáveis do Conselho Nacional de Saúde. Entre as referências citadas no material estão a Lei nº 14.874, de 2024, e a Resolução nº 466/12.
A pesquisa também deve considerar princípios éticos, incluindo o consentimento livre e esclarecido do participante. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido precisa apresentar as informações necessárias para que o voluntário compreenda a pesquisa e aceite participar.
A Anvisa divide produtos de higiene pessoal, perfumes e cosméticos em duas categorias — Grau 1 e Grau 2 — de acordo com o risco potencial à saúde. A classificação leva em conta fatores como a fórmula, a finalidade de uso, a área do corpo onde o produto é aplicado e o quanto é necessário apresentar comprovação científica para sustentar o que ele promete.
No Grau 1 ficam os cosméticos de baixo risco, com funções mais básicas, que passam por um trâmite mais simples e rápido de notificação e não precisam comprovar eficácia previamente nem trazer orientações complexas no rótulo.
Já o Grau 2 reúne itens com maior complexidade ou indicações específicas, que exigem testes e laudos para demonstrar segurança ou eficácia, além de instruções detalhadas, cuidados e restrições na embalagem. Por isso, precisam de registro mais rigoroso antes de chegar ao mercado.
Entre os exemplos, o Grau 1 inclui shampoos e condicionadores comuns, hidratantes simples, esmaltes, batons e perfumes. O Grau 2 abrange protetores solares, antitranspirantes, produtos anticaspa, maquiagem infantil ou com fotoproteção e repelentes.
Normas éticas e regulatórias
Toda pesquisa clínica deve seguir normas éticas e científicas, nacionais e internacionais, que estabelecem critérios para proteger os participantes em todas as etapas do estudo.
Entre as principais referências estão a Declaração de Helsinque, que reúne recomendações para pesquisas biomédicas envolvendo seres humanos, a Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e o Guia para Avaliação de Segurança de Produtos Cosméticos, elaborado pela Anvisa.
Os testes com participantes ajudam as empresas a reunir evidências sobre a segurança e os benefícios atribuídos aos produtos. Os resultados podem ser usados para comprovar alegações apresentadas em rótulos e materiais publicitários, desde que existam dados comprobatórios.
Segundo a Anvisa, afirmações como a proporção de participantes que perceberam determinado benefício podem ser utilizadas na rotulagem quando houver dados que sustentem a alegação e um resumo dessas informações for apresentado no processo de regularização. A empresa também deve manter os dados completos de eficácia.
Para Gabrielli, os estudos também podem contribuir para o desenvolvimento das formulações. Os resultados obtidos durante as pesquisas podem indicar ajustes necessários antes do lançamento e ajudar na criação de produtos direcionados a características ou necessidades específicas de determinados grupos.
Dessa forma, a pesquisa clínica contribui não apenas para o desenvolvimento de novos cosméticos, mas também para elevar o padrão de qualidade e inovação do setor como um todo", finaliza.
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